Há muito que defendo um aprofundamento das relações de Portugal com a sua diáspora. Dispomos lá fora de massa crítica de excelência, que pouco ou nada é aproveitada para fazer desenvolver a nossa sociedade e a nossa economia. Vários governos mostraram-se sensíveis a esta questão, mas sem grandes resultados. Persiste um indesejável divórcio do país com as mais de 5 milhões de pessoas de origem portuguesa (fonte: Ministério dos Negócios Estrangeiros) que residem no exterior: 2,1 milhões de emigrantes mais os lusodescendentes espalhados pelo mundo. A fazer fé nestes números, a nossa diáspora equivale a cerca de 50% da população portuguesa. Estamos, pois, a falar de um enorme desperdício de potencial humano, sobretudo numa conjuntura de redução e envelhecimento populacional. Além disso, a economia portuguesa debate-se com um grave problema de retenção e atração de talento, fator crucial para a competitividade das empresas. É que a emigração portuguesa tem hoje outro perfil, sendo frequente o abandono do país por jovens qualificados.

Ignorar a globalização do mercado de trabalho e a crescente mobilidade dos cidadãos é enfiar a cabeça na areia. Há muitos estímulos à emigração qualificada, desde logo na União Europeia, cujas políticas fomentam a mobilidade entre Estados-membros. A Europa tem vindo a simplificar o reconhecimento de competências e qualificações quer dos nacionais dos 27, quer dos nacionais de países terceiros. Acresce que a mobilidade possibilita o enriquecimento pessoal e profissional através do contacto com outras realidades económicas, sociais, científicas, tecnológicas ou culturais. Aos países resta, pois, procurar atrair e reter talento dentro desta lógica de mobilidade global. E, cumulativamente, criar condições para a participação ativa dos expatriados na vida dos seus países de origem. Ora, é isto que não está a ser feito em Portugal. Tem-se apostado em incentivos ao retorno de emigrantes, como os programas Vem e Regressar, mas sem grande sucesso. Parece-me, por isso, mais realista apostar não só na criação de condições para a retenção de talento, mas também no desenvolvimento de redes de contacto com os nossos emigrantes e lusodescendentes. Nestas redes de contacto, as empresas podem desempenhar um papel importante e daí retirar benefícios. É do seu interesse estabelecer relações de cooperação com diferentes players – associações, empresários, gestores, cientistas, engenheiros… – da comunidade de emigrantes e lusodescendentes. Desta forma, as empresas ganham parceiros locais para os seus processos de internacionalização, que, como sabemos, têm mais hipóteses de sucesso com o apoio de quem conhece e atua nos mercados. Por seu turno, os emigrantes e lusodescendentes, para além de retirarem vantagens pessoais, teriam a possibilidade de contribuir para o desenvolvimento socioeconómico do seu país.
Parece-me também pertinente haver um esforço nacional para atrair empreendedores e investidores da diáspora, oferecendo-lhes oportunidades de negócio, investimento e parceria. Para tanto, são necessários incentivos ao empreendedorismo dirigidos especificamente a emigrantes e lusodescendentes e a introdução de mecanismos de discriminação positiva no acesso a programas de apoio ao investimento. Estou certo de que com incentivos, simplificação e estratégia é possível envolver emigrantes e lusodescendentes nos destinos do país, com vantagem para ambas as partes: Portugal ganha potencial humano, networking e parcerias estratégicas, ao mesmo tempo que os expatriados podem contribuir mais substantivamente para o desenvolvimento do país.





