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A ambição de fazer crescer Portugal

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Com um percurso ligado ao associativismo empresarial e à internacionalização das empresas portuguesas, José Manuel Fernandes, presidente do Conselho Geral da AEP – Associação Empresarial de Portugal, partilha uma visão abrangente sobre os desafios que marcam o presente e o futuro da economia nacional. Da competitividade das empresas à valorização do capital humano, passando pelo papel do Estado e pela necessidade de uma estratégia de desenvolvimento sustentada, o responsável defende uma abordagem assente na ambição, na capacidade de execução e na criação de condições para um crescimento económico duradouro.

Reformar para crescer

Antes de abordar temas como a competitividade ou as exportações, José Manuel Fernandes identifica aquele que considera ser o principal desafio nacional: combater a pobreza e criar condições para uma melhor qualidade de vida da população. “Portugal enfrenta um desafio de fundo na sua sociedade e como nação, que é neutralizar a faixa da população que ainda vive no limiar da pobreza”, afirma. Na sua perspetiva, esta meta exige uma transformação abrangente que envolva várias áreas das políticas públicas, desde a educação até à economia, passando pela habitação e pela reforma do Estado. O Presidente do Conselho Geral da AEP critica a incapacidade de concretizar projetos considerados essenciais, apontando como exemplo as dificuldades na execução das verbas do Plano de Recuperação e Resiliência destinadas à habitação social. Para o dirigente empresarial, o problema não reside apenas na falta de recursos, mas sobretudo na excessiva burocracia da administração pública, que continua a atrasar investimentos fundamentais para o desenvolvimento do país. Ao mesmo tempo, considera que persiste um clima de desconfiança entre o Estado e os empresários, situação que prejudica a economia e limita o investimento privado. “Não podemos viver num clima permanente de desconfiança entre quem governa e quem é governado, sobretudo na área da economia”, sublinha, defendendo que os governos devem ouvir mais quem conhece diariamente a realidade empresarial.

 

José Manuel Fernandes, Presidente do Conselho Geral da AEP

 

Internacionalização como condição de futuro

A internacionalização ocupa um lugar central na visão estratégica de José Manuel Fernandes. Convencido de que a reduzida dimensão do mercado interno impede um crescimento sustentado, considera que Portugal está “condenado” a olhar para o exterior. “Nós não temos outra opção. Um país com a dimensão que temos precisa de ter mais de 60% do seu Produto Interno Bruto proveniente das exportações e da internacionalização”, afirma.

É precisamente neste contexto que destaca o trabalho desenvolvido pela AEP na promoção das empresas portuguesas nos mercados internacionais. A associação organiza regularmente missões empresariais, acompanha empresas exportadoras e promove contactos com novos mercados, permitindo que muitas pequenas e médias empresas adquiram experiência internacional. Segundo José Manuel Fernandes, a organização tem acumulado um conhecimento profundo sobre a realidade dos mercados externos, conhecimento esse que deveria ser mais valorizado pelos decisores políticos. “Temos de ser cada vez mais ouvidos. A matéria-prima para definir estratégias está dentro das empresas”, defende.

Para o Presidente do Conselho Geral da AEP, a internacionalização não se esgota no aumento das exportações. O processo implica uma estratégia empresarial sólida, assente no conhecimento dos mercados, na capacidade de adaptação e na criação de estruturas organizacionais capazes de responder às exigências dos clientes internacionais. Neste sentido, considera fundamental que as empresas invistam na especialização dos seus recursos humanos, na preparação das equipas comerciais e na consolidação de uma cultura empresarial orientada para o exterior, capaz de garantir uma presença consistente e competitiva nos mercados internacionais.

No entanto, alerta que a internacionalização exige igualmente dimensão empresarial. Para o responsável, muitas PME portuguesas possuem produtos competitivos, mas não dispõem da estrutura necessária para responder ao crescimento da procura internacional ou para garantir a continuidade do negócio. Por isso, defende que os programas públicos de apoio à economia devem incentivar o redimensionamento das empresas e apostar numa maior especialização dos recursos humanos envolvidos na atividade exportadora.

Menos burocracia, mais competitividade

Entre os principais constrangimentos ao crescimento económico, José Manuel Fernandes identifica o excesso de burocracia e a elevada carga fiscal, fatores que, na sua perspetiva, continuam a comprometer a competitividade das empresas portuguesas e a limitar a sua capacidade de investimento. Defende que a reforma do Estado deve constituir uma prioridade, permitindo reduzir os custos da máquina pública e, consequentemente, aliviar a carga tributária. “O sistema de tributação que temos em Portugal desincentiva a criatividade na área da economia”, afirma, considerando que uma fiscalidade mais equilibrada, estável e orientada para o crescimento empresarial é essencial para estimular o investimento e reforçar a confiança dos agentes económicos.

O Presidente do Conselho Geral da AEP considera igualmente indispensável simplificar os processos administrativos e melhorar o funcionamento da Administração Pública, apontando as conservatórias e a justiça económica como dois dos principais obstáculos ao desenvolvimento da atividade empresarial. Na sua visão, a complexidade dos procedimentos, aliada à lentidão das decisões, dificulta a criação de riqueza, afasta investimento e condiciona a competitividade da economia nacional. “Quanto mais dificuldade gerarmos sobre aquilo que é pedido, mais facilidade estamos a gerar os caminhos da corrupção”, alerta. Para José Manuel Fernandes, uma justiça célere e uma Administração Pública mais eficiente constituem pilares fundamentais para um ambiente económico mais competitivo. Sustenta que litígios empresariais não podem prolongar-se durante anos, sob pena de comprometerem a sustentabilidade das empresas e a confiança dos investidores. Defende, por isso, uma profunda simplificação dos procedimentos administrativos e judiciais, acompanhada por regras claras e decisões mais rápidas, capazes de criar um contexto favorável ao investimento, à inovação e ao crescimento económico.

 

José Manuel Fernandes e Fernando R. da Silva

 

 

Conhecimento como fator de diferenciação

Outro dos pilares da sua visão prende-se com a valorização do capital humano. José Manuel Fernandes acredita que a competitividade das empresas depende cada vez mais da qualificação dos trabalhadores, da gestão do conhecimento e da capacidade para reter talento. “A educação de hoje faz a economia do amanhã”, recorda, defendendo uma maior aproximação entre universidades e empresas e uma aposta contínua na formação especializada.

Na sua perspetiva, os jovens devem ser integrados nas organizações numa lógica de sucessão e crescimento, permitindo que adquiram competências antes de assumirem funções de maior responsabilidade. Considera igualmente que os empresários devem investir na motivação das equipas e reconhecer o valor de cada colaborador. “Todo o ser humano se considera uma pessoa importante”, afirma, explicando que esta ideia orientou sempre a sua forma de liderar empresas e equipas.

Para José Manuel Fernandes, o conhecimento representa atualmente um dos ativos mais valiosos das organizações. Sempre que uma empresa perde colaboradores qualificados, perde também experiência, inovação e capacidade competitiva. Por isso, defende modelos de gestão mais participativos, capazes de criar ambientes de trabalho estáveis e de promover o desenvolvimento profissional dos trabalhadores.

Relativamente à política salarial, assume uma posição crítica em relação ao conceito de salário mínimo nacional enquanto principal referência remuneratória. Defende que cabe aos empresários criar condições para oferecer salários acima desse patamar, através do aumento da produtividade, da valorização dos recursos humanos e da criação de maior valor acrescentado. Considera, contudo, que esse esforço deve ser acompanhado por políticas públicas que apoiem os setores mais expostos à concorrência internacional. Na sua perspetiva, a competitividade das empresas portuguesas depende cada vez mais da aposta em produtos tecnologicamente mais sofisticados e diferenciadores, capazes de competir pela inovação e pela qualidade, e não pelo baixo custo da mão de obra.

Uma economia de maior valor acrescentado

Numa perspetiva de futuro, o presidente do Conselho Geral da AEP considera que Portugal deve abandonar modelos produtivos assentes em mão de obra pouco qualificada e apostar em setores tecnologicamente mais avançados. Defende empresas capazes de produzir bens e serviços diferenciados, de elevado valor acrescentado e preparados para responder às exigências dos mercados internacionais. Essa visão encontra igualmente expressão na obra Caminhos do Exportador, livro que escreveu durante o período da intervenção da troika. Segundo explica, o objetivo foi transmitir aos empresários portugueses a experiência acumulada ao longo de décadas de internacionalização e incentivar as empresas a procurarem novas oportunidades além-fronteiras.

Hoje, admite que uma nova edição incluirá temas como a digitalização, o comércio eletrónico e a cultura B2B, áreas que considera decisivas para o futuro das PME portuguesas.

Apesar dos desafios, José Manuel Fernandes mantém uma visão otimista sobre o potencial do país. Contudo, deixa uma condição essencial: Portugal precisa de mais ambição, maior capacidade de execução e uma estratégia comum que coloque o desenvolvimento económico acima das divisões políticas. Só assim, conclui, será possível construir uma economia mais competitiva, inovadora e preparada para enfrentar os desafios globais.

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