Com presença em 15 países e uma vocação internacional desde a origem, a Miranda consolidou uma posição singular nos mercados lusófonos emergentes. Em entrevista, Nuno Cabeçadas, Managing Partner da Miranda, explica como a experiência local, a integração da rede e uma visão de longo prazo sustentam o apoio a investidores e operações transnacionais.
A Miranda Alliance destaca-se por operar em 15 países, em quatro continentes, com forte presença em mercados emergentes de língua portuguesa. De que forma esta génese “de fora para dentro” influencia a vossa abordagem ao serviço jurídico e a construção de relações de longo prazo com clientes multinacionais?
A Miranda nasceu internacional. Quando o Agostinho Pereira de Miranda fundou o escritório, em 1987, África já fazia parte do projeto. Nunca olhámos para África como expansão, porque África foi o ponto de partida. Habituámo-nos a olhar para os problemas a partir do terreno e não a partir de Lisboa, porque soluções que funcionam no papel não funcionam necessariamente em Luanda, Maputo ou Abidjan. Daí a insistência em advogados locais e presença permanente, em vez de visitar mercados só quando há uma operação. As relações de longo prazo constroem-se assim e, sobretudo, nos ciclos difíceis: os clientes que nos acompanham há décadas são, quase sempre, aqueles ao lado de quem estivemos quando os mercados se complicaram.

Num contexto de crescente complexidade regulatória e de transformação digital, como equilibra a Miranda/Miranda Alliance a exigência de padrões internacionais de qualidade com a necessidade de um conhecimento profundo das práticas e costumes locais em jurisdições tão diversas como Angola, Moçambique, Macau ou Timor-Leste?
Não vivemos isso como uma tensão, nem acolho a ideia de que a qualidade vem de fora e o local traz apenas o contexto. Os nossos colegas em Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Gabão são profissionais de primeiro nível, e o que a rede acrescenta é a escala: formação, métodos e exigência comuns, incluindo em proteção de dados e segurança da informação, onde não há geometrias variáveis. O conhecimento das instituições e dos costumes locais não é um complemento “simpático”: o local knowledge é, as mais das vezes, o fator mais importante para um bom aconselhamento. E nisso, com quase 40 anos de experiência, o nosso posicionamento no mercado é ímpar.
A rede Miranda Alliance tem sido reconhecida em diretórios internacionais como Chambers e Legal 500 em múltiplas jurisdições. Que fatores consideram mais decisivos para sustentar esta liderança e para diferenciar a aliança de outras redes jurídicas globais?
O reconhecimento é consequência da qualidade do trabalho. Pesam três fatores: continuidade, porque estamos nestes mercados sem entradas e saídas ao sabor dos ciclos, profundidade, porque trabalhamos com advogados locais e não com deslocações pontuais a que os ingleses chamam parachute lawyering, e integração, porque o cliente tem um ponto de contacto único e uma gestão coerente dos seus assuntos em vários países. É o que nos distingue de redes construídas por mera acumulação de bandeiras.
Tendo em conta a expansão recente de grandes redes jurídicas internacionais em África e na Lusofonia, como vê a Miranda/Miranda Alliance o futuro da advocacia transnacional nestas regiões, e que papel pretende desempenhar na facilitação de investimentos, projetos de infraestrutura e operações cross-border nos próximos anos?
A tendência é irreversível, e as razões são demográficas antes de serem económicas: este ano, uma em cada três crianças nascidas no mundo será africana e, em 2050, a força de trabalho africana será maior do que a da China e da Índia somadas. Isso significa décadas de procura em energia, infraestruturas e recursos naturais. A chegada das grandes redes internacionais confirma-o e não nos preocupa. Várias delas são nossas clientes nestas jurisdições. O nosso papel é o de sempre, com mais escala: ajudar quem investe a estruturar e implementar operações complexas com equipas que dominam, em cada jurisdição, o direito e o contexto em que ele se aplica.






