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A construção do bem-estar

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Com um percurso marcado pela procura de um propósito profissional alinhado com o contacto humano, Renata  Seabra de Sousa encontrou na Psicologia Clínica a verdadeira vocação da sua vida. Atualmente, dedica-se a acompanhar pessoas que enfrentam desafios como a ansiedade, a exaustão emocional e a perda de equilíbrio, defendendo uma abordagem centrada na prevenção, no autoconhecimento e na construção de hábitos saudáveis. Para a psicóloga, cuidar da saúde mental não deve ser uma resposta ao sofrimento instalado, mas um compromisso contínuo com o bem-estar.

Uma missão que nasceu do encontro com as pessoas

Há profissões que se escolhem e outras que parecem escolher quem as exerce. No caso de Renata Seabra de Sousa, foi precisamente o contacto com as pessoas que lhe mostrou que o seu futuro passava por um caminho diferente daquele que inicialmente tinha traçado. Depois de concluir o primeiro ano de licenciatura em Biologia, percebeu que a investigação não preenchia aquilo que procurava profissionalmente. A vontade de compreender o ser humano, de o acompanhar nos momentos mais difíceis e de contribuir para a sua transformação conduziu-a à Psicologia Clínica, uma decisão que, atualmente, descreve como a concretização do seu propósito de vida.

Ao longo de mais de duas décadas de experiência, passou por diferentes contextos profissionais, acompanhando crianças, jovens e adultos, até se dedicar em exclusivo à prática clínica. Mais recentemente, deu um novo passo ao criar o seu próprio projeto, procurando chegar a um número ainda maior de pessoas e sensibilizar para a importância da saúde mental. “Continuo a acreditar que esta é a minha missão: ajudar quem vive em ansiedade, quem vive em exaustão e quem perdeu o equilíbrio a passar da sobrevivência para uma vida verdadeiramente vivida”, afirma. Curiosamente, foi durante este processo de crescimento profissional que a própria psicóloga se confrontou com um desafio que tantas vezes via refletido nos seus pacientes. A dedicação intensa ao trabalho levou-a a negligenciar o descanso, o tempo em família e até o autocuidado. Foi nesse momento que percebeu que também precisava de aplicar em si aquilo que diariamente ensinava em consulta. “Para cuidar dos outros, primeiro tive de aprender a cuidar de mim”, reconhece.

 

 

 

 

A relação terapêutica como ponto de partida para a mudança

Na perspetiva de Renata Seabra de Sousa, nenhuma técnica ou metodologia substitui aquilo que considera ser o verdadeiro alicerce da intervenção psicológica: a relação de confiança estabelecida entre terapeuta e paciente. Mais do que encontrar respostas imediatas, quem procura ajuda precisa de sentir que existe um espaço seguro onde pode falar sem receios, sem julgamentos e sem máscaras.

É precisamente essa escuta genuína que permite iniciar um processo de transformação. Cada pessoa chega à consulta com a sua história, os seus medos e o seu ritmo, pelo que não existem fórmulas universais nem tempos definidos para a mudança. “Antes de qualquer técnica, aquilo de que uma pessoa precisa é de sentir que encontrou um lugar seguro”, explica. Ao mesmo tempo, reconhece que exercer Psicologia implica aprender a encontrar um equilíbrio entre a empatia e a capacidade de não absorver o sofrimento do outro.

Prevenir em vez de remediar

Um dos temas que Renata Seabra de Sousa mais defende é a necessidade de mudar a forma como a sociedade encara a saúde mental. Na sua opinião, ainda existe a ideia de que o psicólogo deve ser procurado apenas quando o sofrimento já se tornou insustentável, quando, na realidade, a prevenção deveria assumir um papel central. A psicóloga compara a saúde mental às restantes áreas da saúde, defendendo que também aqui deveriam existir consultas regulares, mesmo quando tudo parece estar bem. “Defendo que todas as pessoas deveriam ir ao psicólogo pelo menos duas vezes por ano”, afirma, explicando que reconhecer precocemente os sinais de desgaste emocional permite evitar situações muito mais complexas no futuro.

Insónias persistentes, irritabilidade, dificuldade em concentrar-se, alterações no apetite, dores físicas sem explicação médica ou uma sensação constante de cansaço podem ser alguns dos primeiros indicadores de que algo precisa de atenção. Ainda assim, lembra que o sofrimento não deve ser encarado como uma condição permanente. “Aquilo que estou a sentir pode ser normal perante aquilo que estou a viver. O que não pode ser normalizado é permanecer nesse estado”.

Uma sociedade acelerada que desaprendeu a parar

Vivemos num contexto marcado pela rapidez, pela hiperconectividade e pela pressão constante para produzir mais. Na prática clínica, Renata Seabra de Sousa encontra diariamente pessoas que, apesar de manterem uma vida aparentemente organizada, vivem emocionalmente exaustas. Na sua perspetiva, o problema não está apenas nas exigências externas, mas também na forma como cada pessoa interioriza essas exigências. A produtividade passou a ser confundida com valor pessoal e o descanso é frequentemente acompanhado por sentimentos de culpa. “Hoje temos adultos funcionais por fora, mas emocionalmente exaustos por dentro”, alerta.

As redes sociais fazem igualmente parte desta realidade, mas a psicóloga recusa uma visão extremista. Mais do que proibir o seu uso, acredita que o desafio passa por desenvolver a capacidade de escolher. Escolher quanto tempo dedicar ao trabalho, ao lazer, ao descanso ou ao mundo digital. “Entre o estímulo e a resposta existe sempre um espaço. É nesse espaço que está o nosso livre-arbítrio”.

No caso das crianças e dos adolescentes, considera indispensável o envolvimento da família. Os pais desempenham um papel determinante na definição de limites, na criação de momentos de convívio sem tecnologia e, sobretudo, na educação emocional. Para Renata Seabra de Sousa, ensinar um filho a reconhecer e a expressar aquilo que sente é uma das maiores ferramentas que lhe pode oferecer para o futuro. “É preciso ter coragem para sermos vulneráveis. Falar sobre emoções nunca será um sinal de fraqueza”.

Escolher viver e não apenas sobreviver

Ao longo da entrevista, Renata Seabra de Sousa regressa repetidamente a uma ideia simples, mas profundamente transformadora: antes de procurar mudar a vida, é necessário parar e olhar para dentro. Questionar como nos sentimos, perceber aquilo de que realmente precisamos e aceitar que pedir ajuda é um ato de coragem, nunca de fragilidade. Na consulta, oferece frequentemente um pequeno espelho aos seus pacientes, acompanhado de uma mensagem escrita por si: “Que este objeto lhe recorde sempre da pessoa mais importante da sua vida. Cuide de si.” Um gesto simbólico que resume a filosofia que orienta todo o seu trabalho.

Ao longo de cada acompanhamento, há uma ideia que procura transmitir de forma consistente: não temos de sobreviver; a vida é, na verdade, sobre viver. Uma perspetiva que convida cada pessoa a olhar para si com maior consciência, a cuidar da sua saúde mental e a assumir um papel ativo na construção do seu bem-estar.

São muitas as histórias que guarda na memória, mas recorda com particular emoção uma jovem que chegou profundamente marcada por uma relação que lhe tinha destruído a autoestima e a esperança no futuro. Meses mais tarde, regressou para partilhar que tinha reconstruído a sua vida, encontrado um novo relacionamento e estava prestes a constituir família. “Aquilo que aprendi nas consultas mudou a minha vida”, recorda a psicóloga, emocionada.

É precisamente nesses momentos que Renata Seabra de Sousa encontra a confirmação de que escolheu o caminho certo. Porque, para si, a Psicologia vai muito além da intervenção clínica. É uma missão diária de devolver às pessoas a capacidade de se escutarem, de se valorizarem e de compreenderem que o equilíbrio nasce das pequenas escolhas repetidas todos os dias. Afinal, como faz questão de sublinhar, “a vida pode ser mais leve, mas tudo começa quando decidimos cuidar de nós próprios”.

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