Ao longo do seu percurso, a Futurismo Azores Adventures tem vindo a afirmar um caminho distinto, ancorado na relação profunda entre território, comunidade e vida selvagem. Nesta entrevista, Ruben Rodrigues, Diretor-Geral, explica como a empresa tem vindo a transformar a experiência turística num instrumento de conhecimento, preservação e identidade nos Açores.
De que forma a Futurismo Azores Adventures interpreta e traduz a identidade açoriana nas experiências que desenvolve, garantindo autenticidade sem comprometer a sustentabilidade do território?
Para nós, a identidade açoriana não é um cenário a reproduzir nem um conjunto de símbolos a vender. É a relação, construída ao longo de gerações, entre pessoas, oceano, paisagem, trabalho e comunidade. A Futurismo nasceu em 1990 e fez parte da transição da baleação para a observação de cetáceos; essa história ensinou-nos que o turismo deve ajudar a evoluir a relação com um lugar, não simplificá-lo. Por isso, cada experiência é desenhada para interpretar, e não apenas mostrar: com equipas locais, guias, biólogos, vigias, parceiros e uma atenção contínua aos limites do território. O nosso lema – Explorar, Amar, Proteger – traduz essa sequência: descobrir com respeito, criar ligação e assumir responsabilidade. A autenticidade só existe quando a comunidade, a natureza e a vida selvagem não são cenário, mas parte viva e respeitada da experiência.

Num contexto de crescente procura por destinos de natureza, como é que a marca se posiciona para se diferenciar no mercado internacional de turismo de aventura, mantendo uma proposta distintiva e coerente com os valores dos Açores?
Há muitos anos que a Futurismo escolheu trilhar um caminho próprio, muitas vezes fora dos circuitos mais óbvios do turismo. Procurámos parceiros, redes e eventos internacionais onde se discutia não apenas crescimento, mas propósito, impacto, conservação, cultura e a capacidade transformadora das viagens. Fizemo-lo porque nunca acreditámos que os Açores devessem competir apenas por preço, volume ou imagens bonitas. Essa procura ajudou-nos a construir uma visão distintiva: não queremos ser apenas uma empresa que organiza atividades; queremos usar o turismo para gerar conhecimento, valor local e uma relação mais consciente entre pessoas, território e vida selvagem. A nossa diferença nasce dessa integração entre Pessoas, Planeta e Vida Selvagem, e da consistência de quem há décadas procura fazer da operação turística uma plataforma de ciência, educação, cultura e proteção.
Num setor tantas vezes orientado para o consumo rápido de lugares, escolhemos um caminho mais exigente: ajudar quem nos visita não apenas a ver os Açores, mas a compreendê-los, respeitá-los e levar consigo uma ligação que permaneça depois da viagem.
A ligação ao território é um dos pilares da vossa atuação. Como integram tradição, conhecimento local e inovação na conceção das vossas atividades?
Tradição não é, para nós, decoração; é conhecimento vivo. Recuperámos vigias baleeiras, investimos na construção de botes baleeiros com técnicas ancestrais, acompanhámos esse processo no documentário Mestre do Mar e criamos, com o Clube Naval de Ponta Delgada, a Casa dos Botes. Nestes projetos, a memória da baleação não é apagada nem romantizada: é compreendida como parte do caminho que levou os Açores a uma nova relação com o mar e os cetáceos. O conhecimento local está também nas nossas equipas, nos mestres, vigias, biólogos, guias e parceiros. A inovação entra para servir essa ligação: através de dados, investigação, formação e melhores práticas a todos os níveis. Inovar, para nós, não é substituir o que nos trouxe até aqui. É dar-lhe continuidade com mais consciência e futuro.

Que papel assume o storytelling na construção da experiência do cliente e na forma como comunicam a essência dos Açores junto de diferentes públicos?
Na Futurismo, o storytelling não começa quando se liga uma câmara nem termina numa fotografia. Começa na forma como preparamos cada experiência, no conhecimento das nossas equipas e na capacidade de ajudar quem nos visita a ver mais do que aquilo que está à sua frente. É por isso que temos investido na formação dos nossos guias em interpretação turística: não apenas para transmitir informação, mas para revelar significado, criar ligação e valorizar o património natural, cultural, material e imaterial dos Açores.
Uma paisagem pode ser observada por todos; compreendê-la exige contexto, sensibilidade e mediação.
A nossa comunicação procura fazer o mesmo. Temos hoje dois filmes a voar com a TAP e o nosso trabalho audiovisual foi reconhecido internacionalmente em distinções como o ART&TUR e o Adventure in Motion, entre outras. Mais do que prémios, são sinais de que é possível comunicar emoção sem reduzir os Açores a imagens bonitas ou a um consumo superficial da natureza.
Queremos contar os Açores na sua profundidade: a beleza, mas também a fragilidade; o oceano, mas também os seus limites; a cultura, mas também as pessoas que a mantêm viva. O objetivo é que cada visitante parta com memórias, naturalmente, mas sobretudo com uma forma diferente de olhar, sentir e relacionar-se com este lugar.
De que modo a Futurismo contribui para a valorização e preservação dos recursos naturais e culturais da região, garantindo um equilíbrio entre exploração turística e responsabilidade ambiental?
Para nós, o equilíbrio começa por reconhecer que nem tudo o que pode ser vendido deve ser vendido. A cessação da natação com golfinhos foi uma decisão clara nesse sentido. A proteção da vida selvagem está nas regras de observação, na formação das equipas, na investigação e no uso dos dados recolhidos no mar para colaborar com universidades e redes científicas. Está também em projetos como os Guardiões dos Açores, que transformam a recolha de resíduos em participação cívica, nas limpezas costeiras regulares e no Projeto Miradouro, desenvolvido com a Euroscut, que está a converter uma área resultante de obras rodoviárias num espaço de restauro ecológico, educação e envolvimento comunitário. Sustentabilidade não é uma etiqueta: mede-se nas escolhas, nos limites e na capacidade de devolver ao território mais do que dele se retira.
Considerando a projeção dos Açores além-fronteiras, que impacto acreditam que a vossa atividade tem tido na afirmação da região como destino de excelência, e quais os próximos desafios nesse posicionamento?
Ao longo de mais de três décadas, acreditamos ter contribuído para projetar os Açores como um lugar onde natureza, cultura e conhecimento podem coexistir numa proposta turística de qualidade. O reconhecimento internacional que temos recebido, em áreas como turismo responsável, impacto e comunicação, é importante, mas vale sobretudo como responsabilidade acrescida: representar bem um território que é sempre maior do que qualquer empresa.
O impacto que mais nos importa não se esgota nos prémios, nas chegadas ou nas dormidas. Vê-se quando uma equipa encontra estabilidade e propósito, quando um jovem se aproxima da ciência, quando uma tradição ganha continuidade, quando um visitante compreende melhor o oceano ou quando uma experiência gera valor que permanece no território depois de a viagem terminar.
Este trabalho de construção de sentidos continua, contudo, a ser pouco visível num setor ainda muito medido por volume, receita e ocupação. Há hoje muitos discursos sobre sustentabilidade, propósito e regeneração; o desafio é impedir que essas palavras se tornem decorativas enquanto tudo o resto permanece igual.
O futuro do turismo exige experiências capazes de criar valor económico, claro, mas também cultural, social, científico e ecológico. É nessa exigência, fazer com que cada experiência deixe mais do que uma recordação, que queremos continuar a afirmar a Futurismo e os Açores.








