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O Poder de ouvir: Como criar espaço para o talento

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A conferência Contra-Tendências reuniu líderes e especialistas para refletir sobre comunicação, talento e gestão, mostrando que ouvir com atenção é tão importante quanto agir nas organizações.

Comunicar é ouvir: lições de uma viagem pelo mundo

Num tempo em que todos falam, mas poucos escutam, Carla Rocha partiu numa viagem de dois meses para ouvir o mundo. Descobriu uma verdade simples: complicamos demasiado a comunicação.

Na conferência Contra-Tendências, explicou que comunicar bem depende de autenticidade e presença. Recordou a experiência na rádio, onde aprendeu que a ligação com o ouvinte nasce da confiança e do silêncio, não da pressa.

Percorreu 12 países e entrevistou dezenas de pessoas. “As conversas que mais me surpreenderam foram as que não estavam marcadas”, contou. No Butão, encontrou uma monja que, quando questionada sobre a vida ou o mosteiro, respondeu apenas: “Nada”, explicando que pensar nos outros a tornava mais feliz.

“A comunicação é mais simples do que imaginamos; basta deixar o silêncio entrar para realmente ouvirmos o outro”, concluiu Carla. Para ela, comunicar é saber parar, porque é no silêncio que se encontra a verdadeira ligação entre as pessoas.

 

 

 

Performance, Potencial e a Redefinição do Talento

Durante anos, o foco nas estrelas excecionais trouxe pressões: quem o é sente que tem de provar-se; quem não o é, sente-se excluído. No painel “Performance CABI e se o talento não fosse assim tão especial?”, Elsa Diniz moderou a conversa com Rita Távora (IKEA) e Anabela Silva (EY), inspirada em Hidden Potential, de Adam Grant.

Anabela Silva explicou que, na EY, “mais do que indivíduos excecionais, queremos equipas excecionais”, valorizando a aprendizagem contínua e a diversidade. Rita Távora afirmou que, na IKEA, “todos somos ou temos um talento”, e que o erro é essencial para o crescimento: “só quem está a dormir não comete erros”. Ambas concordaram: talento é menos um dom raro e mais a capacidade de aprender, adaptar-se e contribuir.

O recado final foi claro: o verdadeiro talento está em reconhecer o potencial de cada pessoa e construir equipas que crescem juntas, sustentáveis e excecionais.

Flexibilidade como estratégia e confiança no trabalho

O painel sobre trabalho flexível debateu se o sonho do Work From Anywhere se tornou num desafio para produtividade, cultura e ligação emocional. Miguel Balboa trouxe a perspetiva da indústria e do C-Level, reforçando a importância da flexibilidade estratégica.

Paulo explicou que a Coverflex é uma empresa totalmente remota: “Não temos escritório. A nossa infraestrutura é confiança e autonomia.” Salientou que a cultura se constrói em torno de propósito e colaboração, e que flexibilidade não é um benefício opcional, mas uma infraestrutura do negócio.

Miguel comentou que na indústria o trabalho remoto é mais complexo, sobretudo no chão da fábrica, onde ainda prevalece o controlo rígido: “Ainda controlamos muito o tempo. A pessoa só sai quando o administrador já saiu.” Ambos concordam que é essencial medir resultados de forma mais ampla, incluindo colaboração e bem-estar.

O painel destacou ainda a mudança de prioridades: o desempenho já não é o foco exclusivo; hoje o bem-estar e a motivação das pessoas são fundamentais. Paulo acrescentou: “Se não introduzirmos flexibilidade, vamos perder os melhores talentos.”

Assim, flexibilidade exige cultura, equilíbrio e confiança, reconhecendo as diferentes necessidades de cada função e pessoa, e transformando-se num elemento estratégico para a sustentabilidade das empresas.

 

 

Consumidor consciente, empresas responsáveis

O debate sobre sustentabilidade e ESG (Environmental Social Governance), continua a ganhar importância, mas muitas vezes o tema perde brilho quando se transforma apenas em obrigação ou marketing. João Mestre, da Fidelidade, defende que a sustentabilidade só deixa de ser relevante se não gerar impacto real nos negócios e na sociedade. “Uma empresa que não olhe para este tema dificilmente sobreviverá a longo prazo”, afirma, defendendo que resiliência e sustentabilidade devem caminhar juntas.

Cláudia Simões, da Luís Simões, explicou que a logística enfrenta o desafio de reduzir emissões sem perder eficiência ou competitividade. “Estamos a implementar combustíveis de nova geração e a otimizar a cadeia para reduzir o impacto ambiental, sem comprometer o serviço ao cliente”, refere.

Para Catarina Barreiros, da Plataforma do Zero, a sustentabilidade também depende da perceção do consumidor. Muitos ainda não estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis, devido ao preço e à falta de clareza. Defende uma abordagem mais transparente, explicando que “gastar menos ou consumir de forma responsável é mais sustentável”.

No fundo, todos concordam que a sustentabilidade precisa de se integrar nas decisões empresariais e na vida das pessoas, sendo tanto uma oportunidade de negócio como uma responsabilidade social.

Quando o talento escolhe outro caminho
No CABI Talks, Inês Sousa moderou uma conversa com Filipe Varejão, engenheiro de software, e Maria Amaral, Senior Manager de Talent & Organization Strategy na Accenture, sobre o que move quem tem talento mas não quer seguir uma carreira tradicional.

Inês recordou que a crítica às novas gerações não é nova: “Nos anos 80, a Time descrevia os baby boomers como egocêntricos, exatamente o que hoje se diz dos millennials e da geração Z”. Filipe Varejão explicou que esta geração “não é anti-trabalho, mas procura propósito e autonomia”, e Maria Amaral acrescentou: “Não é falta de ambição, é um novo equilíbrio: carreira não está acima da saúde, família ou tempo pessoal”.

Ambos destacaram que a tecnologia e o trabalho remoto trazem desafios, mas o essencial continua a ser manter a ligação humana e o sentimento de pertença.

O que a música ensina sobre liderança

No diálogo entre os maestros Pedro Raposo e José Eduardo Gomes, a música serviu de pretexto para refletir sobre temas que ultrapassam o palco: a liderança, a escuta e a relação humana. Para Pedro Raposo, “o maestro não toca, faz tocar”, e essa ideia traduz o papel de quem conduz sem dominar, orienta sem impor. José Eduardo Gomes acrescentou que “dirigir é, antes de tudo, escutar”, lembrando que a batuta é apenas um gesto simbólico de algo mais profundo que a capacidade de ouvir o outro.

Ambos reconheceram que a música ensina sobre tempo, empatia e vulnerabilidade. José Eduardo destacou que “na sociedade procuramos resultados imediatos, mas a música mostra-nos a importância da demora e da construção”. Já Pedro Raposo sublinhou que liderar uma orquestra é confiar nas pessoas e aceitar não ter todas as respostas.

Mais do que uma conversa sobre arte, foi uma reflexão sobre a humanidade. Entre pausas e acordes, ficou a certeza de que o verdadeiro talento, seja na música ou nas organizações, está em saber ouvir, inspirar e criar harmonia em torno de um propósito comum.

Repensar a gestão para libertar o talento

No encerramento do dia, Nadiem Habib desafiou a audiência a repensar talento e gestão. “As empresas têm pessoas a mais”, afirma. “O problema não é falta de gente, é falta de espaço para crescer”. Critica líderes que culpam os jovens e defende organizações mais leves e adaptáveis.

Explicou que “a gestão lida com complexidade, a liderança com mudança”, mas muitas empresas mudam apenas “o suficiente para não mudar nada”. Lembra que a pandemia provou que sabemos mudar depressa, só falta vontade.

Para ele, o futuro passa por estruturas mais simples, líderes que ajudam a decidir e culturas alinhadas com a visão. “O desafio não é reter talento”, conclui, “é criar organizações onde ele possa crescer”.

O essencial é criar organizações onde ouvir, confiar e dar espaço ao talento seja parte da cultura, permitindo que cada pessoa se desenvolva e contribua de forma significativa.

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