Da Madeira a Alenquer, da enfermagem à liderança de uma clínica, o percurso de Regina Freitas é uma história de recomeços guiados pela coragem e pelo propósito. Diretora Clínica da Medicser, transformou a sua vocação para cuidar numa missão empresarial que alia ciência, escuta e humanização. Com a determinação de quem nunca desistiu dos próprios sonhos, inspira a sua equipa e redefine a forma como a saúde pode ser vivida: com proximidade, afeto e visão integrada.
O seu percurso é marcado pela coragem de recomeçar. Como é que essa determinação molda a forma como lidera a Medicser e inspira a sua equipa?
Recomeçar nunca é fácil. Exige coragem, entrega e muitas vezes, abrir mão de certezas. Sobretudo quando isso implica largar tudo o que conhecemos, a estabilidade, o caminho traçado, a zona de conforto e arriscar numa nova história. Nasci e cresci na Madeira. Comecei a minha vida profissional como enfermeira. Mas, lá no fundo, havia um sonho antigo que me chamava e aos 24 anos, com tudo a dizer que talvez fosse tarde demais, decidi escutar esse sonho e mudar de vida. Voltei à estaca zero. Voltei a estudar. Voltei a acreditar. E foi nesse recomeço, cheio de medo, mas também de fé, que descobri que nunca é tarde quando existe propósito. Esse recomeço ensinou-me que não há tempo certo, há sim coragem certa, e que tudo é possível quando existe propósito.
Hoje, ao liderar a Medicser, é esse fogo que me guia. Não com discursos bonitos, mas com o exemplo de quem já caiu, já duvidou, já recomeçou e nunca desistiu. Porque eu sei, na pele, no coração, que é possível transformar. Que é possível renascer. Que é possível construir algo maior do que nós, se colocarmos amor e entrega em cada passo. Mostro à minha equipa que os sonhos não têm prazo de validade. Que cuidar não é só técnica, é acreditar, é levantar todos os dias com vontade de fazer a diferença, uma nova oportunidade para fazer melhor.
E se há algo que quero deixar como legado, é isto: que a coragem de recomeçar pode mudar tudo. Acredito que o exemplo arrasta. E por isso, a determinação, a resiliência e a paixão movem-me e ajudam-me a inspirar a equipa a crescer, a arriscar, a cuidar com entrega. Que vale a pena lutar por aquilo que nos faz vibrar por dentro. Que quando há amor, tudo se transforma. A Medicser é isso, um projeto que nasceu de um sonho, cresceu com coragem, e vive todos os dias para inspirar e cuidar quem nos procura.

O que a motivou a transformar a sua vocação em saúde num projeto empresarial próprio, e como equilibra a vertente clínica com a gestão estratégica da clínica?
Desde muito cedo percebi que cuidar era mais do que uma profissão, era uma parte de mim. A minha formação em enfermagem deu-me as bases mais humanas da arte de cuidar: a presença, a escuta, o toque, o olhar atento. Sempre senti que a minha forma de estar na saúde tinha de ser próxima, personalizada, com tempo.
Mais tarde, com a medicina, ganhei ferramentas para ir mais longe no diagnóstico e no tratamento, mas nunca deixei para trás aquilo que me move: o vínculo com o outro. E foi esse desejo de unir ciência e sensibilidade que me levou a criar a Medicser.
Queria um espaço onde a escuta fosse uma prioridade, onde as pessoas se sentissem vistas e não apressadas, onde o tempo tivesse outro valor. A Medicser nasceu assim, como um impulso de liberdade, um lugar onde pudesse exercer a medicina como acredito que deve ser: com qualidade clínica, mas também com verdade emocional.
Equilibrar a vertente clínica com a gestão estratégica é um dos maiores desafios que enfrento. O tempo dedicado a mim é raro na minha vida. É contado ao segundo. De dia, vivo a clínica com intensidade absoluta. Quando chego a casa, desligo da parte clínica, mas a gestão entra em modo ativo.
Curiosamente, muitas das melhores ideias não surgem no gabinete, mas na minha varanda, ao final do dia. É ali que, com um pouco de silêncio, consigo olhar para o projeto de forma mais estratégica e criativa. Claro que este equilíbrio só é possível graças ao apoio incondicional da minha família. A paciência deles, perante o meu ritmo e as constantes “fora de horas”, é uma ajuda enorme e um dos pilares que me permite manter o foco, mesmo nos dias mais exigentes.
No fundo, é esta alternância entre cuidar e gerir, aliada a uma rede de apoio sólida, que garante que a Medicser cresce sem perder a sua essência.
Hoje sinto que estou no lugar certo. Aqui consigo cuidar de forma holística, integrada e profundamente humana. Porque acredito que só assim faz sentido. Porque tenho amor pelo que faço. E porque respeito profundamente cada pessoa que cruza a porta da Medicser à procura de mais saúde, mais bem-estar e, muitas vezes, mais sentido.
Chegou a Alenquer por uma escolha prática, mas criou ali um verdadeiro “porto seguro”. Que papel tem o território e a comunidade local no sucesso da Medicser?
Na verdade, acho que foi Alenquer que me escolheu. Vim para cá numa fase inicial da minha carreira, por uma necessidade prática, como tantos médicos que começam longe de casa. Mas o que era para ser apenas uma etapa tornou-se um ponto de viragem.
Esta terra acolheu-me de uma forma tão calorosa, tão genuína, que rapidamente deixou de ser apenas o lugar onde trabalhava e passou a ser casa. As pessoas fizeram-me sentir como se sempre aqui tivesse pertencido.
E a Medicser nasce dessa relação, é um espaço de confiança, feito à medida das pessoas. É reflexo dessa confiança construída no dia a dia, desse vínculo que ultrapassa a medicina. Aqui, não cuidamos de estranhos. Cuidamos de vizinhos, de amigos, de famílias inteiras. Conhecemos as suas histórias, as suas rotinas, as suas necessidades reais, e isso faz toda a diferença, a ligação com tudo e todos é o que nos enraíza, dá sentido ao que fazemos e transforma cada dia num reencontro. Cuidamos com identidade local e coração aberto.

Fala da Medicser como uma Família. Que valores e práticas cultiva para manter a equipa coesa, motivada e alinhada com a missão da clínica?
Na Medicser, ninguém é apenas um número ou uma função. Cada pessoa conta. Valorizo cada pessoa, cada gesto, cada detalhe. Sempre acreditei que para cuidar bem de alguém, temos de começar por cuidar bem uns dos outros. Por isso, criámos um ambiente onde há espaço para escutar, partilhar, crescer. Rimos juntos, choramos juntos. Estamos lá uns para os outros, nos bons e nos maus momentos. E, acima de tudo, cuidamos uns dos outros, para podermos cuidar melhor de quem nos procura. Acredito profundamente que uma equipa feliz e alinhada é a base de qualquer projeto que pretenda durar. Somos verdadeiramente uma família.
Lidero com presença. Não exijo nada que eu própria não esteja disposta a dar ou a fazer. Gosto de estar perto, de acompanhar de forma genuína. Trabalho com competência e com alma, e incentivo todos a fazerem o mesmo. Valorizo muito a entreajuda, o respeito mútuo e o compromisso com o bem comum. Aqui ninguém caminha sozinho. Acredito na força da comunicação clara e constante, na importância de cada pessoa se sentir vista, ouvida e valorizada, não só como profissional, mas como ser humano. E é isso que nos mantém unidos. Saber que fazemos parte de algo maior, de um propósito comum, é o que nos move todos os dias. Na Medicser, somos mesmo uma família. E é essa união que dá alma a tudo o que fazemos.
O que considera ser o fator distintivo da Medicser, e de que forma essa diferença impacta a experiência dos utentes?
O nosso diferencial está na proximidade. Cada pessoa é recebida como se fosse da casa. O cuidado começa muito antes do diagnóstico. Começa no olhar, na escuta sem pressa, no tempo que damos a quem já vem cansado de não ser ouvido. Aqui, ninguém entra e sai indiferente. Sabemos os nomes, lembramo-nos das histórias, conhecemos os medos. Cuidamos não só do corpo, mas também daquilo que não se vê e que tantas vezes pesa ainda mais: a ansiedade, a solidão, o cansaço. Trabalhamos com conhecimento, sim, mas é a dedicação, o tempo e a empatia que fazem realmente a diferença.
Cada consulta é única porque cada pessoa é única. E isso sente-se. O utente sente. O nosso compromisso não é com números, é com vidas. Com o bem-estar. Por isso, não tratamos apenas doenças. Cuidamos de pessoas, como gostaríamos que cuidassem de nós. É isso que nos distingue: a humanização do cuidado, a escuta, a vontade genuína de ajudar.
Considera que a sua diferença está “na escuta e no acolhimento”. Como é que essa abordagem humanizada influencia os resultados clínicos e o vínculo com os pacientes?
Para mim, cuidar é muito mais do que tratar. É ser, estar e fazer, associado a presença, empatia e verdade. Só quando conseguimos reunir essas três dimensões é que estamos verdadeiramente a cuidar do outro como um todo.
As pessoas não procuram apenas diagnósticos. Procuram um lugar onde possam baixar a guarda e sentir que a sua dor é levada a sério. O que elas precisam, muitas vezes, é de cuidado, de serem ouvidas, respeitadas e compreendidas. A escuta ativa, a empatia, são terapêuticas. E isso não se ensina só nos livros, vem da forma como escolhemos estar com o outro. É este vínculo que nos distingue e que transforma o cuidado em algo memorável.
Quando nos sentimos escutados com atenção, respeitados sem julgamento e acompanhados com presença, tudo muda. A confiança cresce, a adesão ao tratamento melhora, e os resultados clínicos aparecem naturalmente.
Porque a pessoa sente-se parte ativa do processo, sente-se segura. Às vezes, o que cura não é só o medicamento, é a forma como se é tratado. Na Medicser, é isso que procuramos: não apenas resolver problemas de saúde, mas cuidar verdadeiramente de quem nos procura. Porque o vínculo cura. E a escuta, quando feita com alma, é o primeiro passo para essa cura acontecer.

A Medicser tem vindo a crescer. Como garante que esse crescimento não compromete a proximidade, a personalização e os valores que estão na origem do projeto?
A Medicser nunca nasceu para ser apenas um espaço de consultas. Nasceu com a missão de cuidar de pessoas. E isso é algo que preservamos em cada etapa deste crescimento.
Desde o início, temos crescido a partir da escuta. Escutamos aquilo que os nossos utentes nos dizem e também o que não dizem, mas sentem. É por isso que o nosso crescimento não é aleatório, mas sim orientado por um propósito.
Não queremos ser os maiores, queremos ser os mais próximos. Crescer, sim, mas com critério, com consciência, com responsabilidade. Cada passo é estruturado com organização, com foco na qualidade e sempre com a essência de ser uma casa que cuida, onde cada pessoa se sente verdadeiramente acolhida.
Um exemplo muito claro dessa evolução é a Consulta Multidisciplinar de Obesidade. Vivemos tempos em que muitas pessoas carregam um enorme cansaço físico e emocional, sentem-se cansadas do próprio corpo, da relação com a comida, da perda de autoestima, da frustração constante. E tratar isso exige muito mais do que uma abordagem isolada. Exige equipa. Exige visão integrada. Foi com esse espírito, e em parceria com o Edgar Gomes, um profissional vindo da área do desporto, com quem partilho não só conhecimentos técnicos, mas também uma visão profundamente humana do cuidado, que criámos uma abordagem integrada: avaliação médica, plano alimentar, treino personalizado, suplementação e acompanhamento próximo, contínuo. Porque sabemos que mudar o corpo é também mudar hábitos, crenças, emoções. E ninguém deve fazê-lo sozinho.
Da mesma forma, a minha aposta na Medicina Estética, atualmente aprofundada através do mestrado que estou a finalizar em Madrid, vem exatamente do mesmo lugar: cuidar do bem-estar de forma completa. A estética, para mim, não é vaidade, é ferramenta de reconstrução. É saúde emocional. É identidade.
A forma como nos vemos ao espelho impacta profundamente a forma como nos apresentamos ao mundo. E há mulheres e homens que se apagaram ao longo do tempo. Ajudá-los a reencontrarem-se, com confiança e dignidade, é também cuidar, ajudar cada pessoa a viver com mais leveza e mais bem-estar.
Esta evolução natural da Medicser está a preparar o terreno para uma nova fase. Um projeto que, em breve, irá traduzir num conceito estruturado na nossa experiência clínica e visão integrada de cuidado através da criação de uma marca própria para elevar o padrão de resultados e oferecer uma experiência mais diferenciada, científica e personalizada. Brevemente irá nascer algo que vai marcar a forma como olhamos para a saúde, o bem-estar e a estética.
Por isso, o crescimento da Medicser nunca será apenas numérico. O que nos move não é o número de consultas, é a profundidade do impacto. Continuamos a chamar pelo nome, a ajustar horários, a lembrar a história de cada utente. Porque mais do que tratar, continuamos a querer cuidar com ciência, com humanidade e com beleza. A Medicser é, e continuará a ser, uma casa, uma família que cuida da sua.
Enquanto mulher na liderança de um projeto clínico e no exercício da medicina, sentiu, em algum momento, a necessidade de se afirmar mais para conquistar credibilidade? Que desafios enfrentou – ou que oportunidades identificou – por ser mulher num setor ainda marcado por assimetrias?
Senti, muitas vezes. Mas não apenas por ser mulher. Senti por vir de uma família humilde. A vida nunca me deu nada de mão beijada. Tive de construir o meu caminho com trabalho, com sacrifício, com noites mal dormidas e dias que começavam antes do nascer do sol. Tive de construir tudo com esforço, com trabalho duro, com sacrifícios que poucos viram.
Os meus pais deram-me tudo o que podiam: valores, força e amor. Não me deram luxos, deram-me dignidade. A minha mãe é a mulher mais resiliente que conheço. Nunca baixou os braços, mesmo quando a vida lhe tirava o chão. Foi ela que me mostrou como se resiste com dignidade, mesmo nos momentos mais duros. E o meu pai, o meu pai era o meu refúgio. Aquele que, sem precisar de muitas palavras, estava sempre lá. Sou a menina do papá. E esse amor incondicional, mesmo em tempos difíceis, deu-me coragem para sonhar. Para acreditar que eu podia chegar onde ninguém esperava que eu chegasse.
Tive de ouvir muita coisa ao longo do caminho. Houve quem me olhasse de cima, quem não levasse a sério os meus sonhos, quem tentasse convencer-me a ser “mais realista”. Mas nunca deixei que as dúvidas dos outros se tornassem verdades para mim. Temos de ser a nossa própria força. A nossa própria arma. Sempre fui muito exigente comigo. Perfecionista, focada, impaciente com a mediocridade. O meu maior desafio fui eu. Nunca precisei gritar para ser ouvida. A minha presença fala. A minha entrega fala por mim. E hoje, olho para tudo o que construí e para tudo o que ainda quero construir com orgulho, mas também com consciência de que o caminho é duro. Ser mulher, liderar, empreender, cuidar, tudo ao mesmo tempo, não é fácil. Mas é possível. É uma luta constante. Mas é possível. É real. E é minha.
Quero ser ponte para outras mulheres que vêm de famílias humildes, que carregam sonhos maiores do que o lugar onde nasceram. Quero dizer-lhes: não desistam. Mesmo que duvidem de vocês. Mesmo que o mundo vos diga que não é para vocês. Sonhar alto não é arrogância, é resistência. Nada me foi dado. Mas tudo o que conquistei foi com verdade. Com esforço. Ser mulher é ter uma força discreta que não se vê à primeira vista, mas que nunca falha. E é essa força que me trouxe até aqui. Tudo pode ser conquistado.
Ser mulher é também ter uma sensibilidade única, uma escuta mais fina, uma força que não grita, mas que persiste.

Que mensagem deixaria a outras mulheres que ambicionam criar o seu próprio caminho na área da saúde? Que conselho genuíno partilharia, à luz da sua experiência?
Eu sou uma sonhadora. Sempre fui. Já a minha mãe dizia: “Sonha de noite, para fazer de dia”. E é isso que tenho feito toda a vida. Porque só assim, sonhando com coragem e fazendo com determinação, é que conseguimos garantir o nosso caminho.
A quem quer começar, digo: não tenham medo de sonhar grande, mesmo que venham de pequeno. O mundo pode tentar convencer-vos a ser menos, a querer menos, a caber em moldes apertados. Mas não aceitem. Sejam fiéis à vossa essência. Não se percam para agradar. O mundo não precisa de cópias perfeitas, mas sim de mulheres reais, determinadas, com garra e sensibilidade.
O caminho não vai ser fácil. Mas não é para ser. Mas é vosso. E só vocês podem traçá-lo. Vai doer. Vai haver silêncios duros, portas fechadas, dias em que vão pensar em desistir. Mas também vão existir vitórias que aquecem o coração, pessoas que chegam na hora certa, momentos em que percebem: “Estou a construir algo com as minhas próprias mãos”. Rodeiem-se de quem soma, não de quem vos drena. Aceitem ajuda quando for preciso. Aprendam com os erros. Celebrem as pequenas vitórias. Honrem a vossa história.
E se um dia a voz do medo vos falar mais alto, lembrem-se disto: quem sonha com verdade e faz com alma, constrói. Inspira. Abre caminhos. Mesmo quando começamos com quase nada.
Resiliência, determinação e persistência: é esse o caminho.
E tudo o que nos magoa, não nos derruba. Ensina-nos. Prepara-nos. Torna-nos ainda mais fortes. É isso que vos vai levar onde quiserem chegar. Nada é garantido, mas tudo é possível.






