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Liderar com emoção e autenticidade

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Ana Palma, Marketing Manager das marcas Alfa Romeo e DS Automobiles, defende uma liderança assente na competência, na inteligência emocional e na autenticidade. Numa indústria historicamente masculina, acredita que a intuição e a emoção são aliados estratégicos e que o verdadeiro poder nasce da capacidade de inspirar, humanizar e gerar valor com propósito.

Enquanto mulher líder numa indústria ainda amplamente masculina, que estratégias considera fundamentais para afirmar a sua voz e liderança sem comprometer a autenticidade?

Mais do que ‘afirmar’ a minha voz, procuro torná-la essencial. Numa indústria, historicamente, masculina – sendo, contudo, cada vez mais, dominada por mulheres – a melhor estratégia é sempre o domínio técnico/competência aliado à inteligência emocional. Não sinto necessidade de reproduzir determinados comportamentos para ser ouvida; a competência é, sem dúvida, a maior vantagem competitiva e um dos maiores escudos contra o preconceito. Por outro lado, inteligência emocional não é sobre “ser simpático”. É a capacidade estratégica de identificar, compreender e gerir as nossas próprias emoções e as dos outros para alcançar resultados, manter a produtividade e sustentar relações de confiança. Humaniza-nos e, atualmente, a humanização traz equipas mais leais e resilientes, porque a mudança é uma constante. Ter uma chefia que nos prepara e nos “acolhe” durante os momentos de mudança é muito importante para nos sentirmos ouvidos. Outra estratégia importante é reivindicar mérito e visibilidade, o que é, muitas vezes, um problema para as mulheres. Receiam ser olhadas como pretensiosas. Como em tudo é preciso “conta, peso e medida”. A modéstia excessiva pode ser interpretada como falta de ambição e se temos objetivos é importante verbalizá-los. Temos de falar dos nossos pontos fortes, das nossas conquistas, dos nossos resultados de forma factual, sem medos. Quando a sua entrega é inquestionável, o género torna-se apenas um detalhe.

 

Ana Palma, Marketing Manager

 

Que papel desempenha a emoção e a intuição – frequentemente associadas à liderança feminina – na sua forma de gerir equipas e de definir estratégias de marca?

A relação entre emoção e intuição é profunda e quase indissociável, especialmente no contexto de liderança. Vejo a intuição como um ‘processamento de dados invisível’, ou seja, não conseguimos tomar todas as nossas decisões com base 100% em dados, porque isso muitas vezes significa chegar tarde demais. Então, a intuição, que provém da nossa experiência, trabalha como um processamento de dados que legitima as decisões. Na gestão de equipas, acontece o mesmo: a intuição permite-nos ler nas entrelinhas e antecipar necessidades antes que se tornem problemas. Contudo, neste âmbito, temos o fator humano, e por isso, devemos adicionar o fator empatia.  Ser empáticos, colocarmo-nos no lugar do outro e gerir relações com inteligência emocional, torna-nos líderes muito mais próximos e eficientes. Então a intuição é a bússola que me indica a direção certa e a emoção é o sentimento que entrego a toda a trajetória até chegar ao destino. Gerir com o coração e decidir com a cabeça é o segredo do equilíbrio. No marketing de marcas como a Alfa Romeo ou a DS Automobiles, a emoção é o que separa um objeto de consumo de um objeto de desejo. As marcas premium não vendem apenas engenharia; vendem legados e sensações. Na DS Automobiles, a experiência foca-se no savoir-faire do luxo francês. Não se fala apenas de bancos de pele; fala-se de “pele nappa com acabamento Bracelet” e costuras “ponto pérola”. A experiência é sensorial. Na Alfa Romeo, o foco é a herança, a Itália e o cuore sportivo. A experiência é visceral, centrada na condução e na ligação homem-máquina. Duas marcas muito diferentes, em termos de posicionamento, mas que assumem as mesmas razões para a aquisição: a emoção. O consumidor premium não compra o que fazemos, compra o que o fazemos sentir.

A sua carreira cruza o universo automóvel e o marketing. Que aprendizagens transporta de cada uma destas áreas para o exercício atual da liderança?

Tudo o que fazemos, na nossa vida profissional ou na nossa vida pessoal, dá-nos ferramentas para enfrentar os desafios que o dia a dia nos coloca. O setor automóvel é uma indústria fascinante que alia a alta tecnologia ao design, construindo máquinas que são desejadas por características muito específicas: a marca per si (Love Brands), a emoção, ou tão somente pela sua funcionalidade – levar-nos do ponto A ao ponto B. Todos os carros são a extensão da identidade dos seus condutores. Um automóvel é o segundo maior investimento da vida das pessoas, o ciclo de decisão é longo e o processo de relação com o cliente é um processo de construção de confiança. Ter a confiança dos consumidores de uma marca é efetivar um processo de fidelização, que pode durar muitos anos e ser transversal a diversas fases da vida do consumidor. E por outro lado, numa indústria em constante evolução e efervescência, é importante saber lidar com a resiliência e saber adaptar-se às mudanças. O marketing dá-nos a lente do cliente: nada importa se não criarmos ligações reais com os clientes. E no marketing automóvel nada faz mais sentido que esta ideia. É imperativo criar emoções no consumidor e trabalhar para sustentar essas relações durante anos.

Confiança, Resiliência, Emoção e, acrescentaria Competência ao leque de aprendizagens que tenho sempre presentes comigo e das quais não abdico, nem para mim, nem de as passar à minha equipa. São condições basilares para fazermos um bom trabalho e obtermos o respeito da nossa equipa e dos nossos pares.

De que forma acredita que marcas, como a Alfa Romeo e a DS Automobiles, podem contribuir para promover uma cultura empresarial mais diversa e equitativa?

Marcas com o peso histórico da Alfa Romeo e a sofisticação da DS Automobiles têm algo que poucas têm: o poder de moldar a cultura e de inspirar. Quando marcas que ditam o que é “desejável” e “prestigiado” assumem o compromisso com a diversidade, elas não estão apenas a mudar a sua cultura interna, estão a influenciar a cultura da sociedade. Ao promovermos a diversidade internamente e ao quebrarmos estereótipos nas nossas narrativas externas, estamos a dizer que o prestígio e a inovação não têm género. É uma responsabilidade ética transformar o aspiracional em inclusivo. Se queremos que o mundo seja mais diverso e equitativo, o nosso produto e a nossa organização têm de ser o espelho dessa vontade. Promover a diversidade não é uma questão de ‘marketing social’, é uma estratégia de inovação. Equipas diversas pensam melhor, criam soluções mais ricas e conectam-se de forma mais profunda com um mercado global que já não aceita modelos únicos.

O conceito de “liderança no feminino” é, muitas vezes, debatido: para si, trata-se de um estilo de liderança diferente ou de uma nova forma de olhar para o poder e a influência?

Acredito que estamos a assistir a uma redefinição profunda do conceito de liderança, não só pela maior participação das mulheres em cargos de liderança, mas muito impulsionada por este facto. A ‘liderança no feminino’ não é um subgénero; é uma nova gramática do poder. O modelo de liderança tradicional tendia para a forma piramidal, com um movimento vertical e baseado na autoridade; o novo modelo é circular e baseado na colaboração. A liderança acontece de dentro para fora, facilitando o fluxo de comunicação e a troca de ideias. O foco deixa de ser: “Eu decidi”, para a ideia de “Como é que vamos chegar lá juntos?” Esta ideia cria uma ideia de pertença que é vital para a retenção de talentos. Outro ponto muito importante é a questão da vulnerabilidade. A humanização e vulnerabilidade criam um ambiente de segurança psicológica, onde a equipa se sente segura para arriscar, inovar e errar, sabendo que o erro faz parte do processo de aprendizagem e estamos todos a aprender, inclusive o líder. Se a “liderança no feminino” é exclusivo das mulheres? Não. O poder já não é sobre se quem tem o comando é um homem ou uma mulher, mas sobre quem tem a capacidade de inspirar e potenciar o talento alheio. Não é o género da certidão de nascimento, é um compromisso com uma forma mais humana, empática e sustentável de gerar valor e influenciar o mundo.

Que mensagem gostaria de deixar às mulheres que hoje aspiram a cargos de direção ou a criar o seu próprio caminho no mundo dos negócios e do empreendedorismo?

O meu conselho é simples: não tentem ser uma versão masculina do sucesso. Sejam vocês próprias! O mundo dos negócios precisa desesperadamente de autenticidade e de uma perspetiva nova acerca de liderança. Preparem-se tecnicamente, conheçam os números, mas nunca sacrifiquem a vossa intuição, nem a emoção com que trabalham. Se vão questionar-se muitas vezes acerca das vossas competências?! Sim, vai acontecer! Muitas mulheres, ao chegarem a cargos de direção, sentem que são “fraudes” e que o seu sucesso se deve à sorte, e não ao mérito.  Os resultados são factos. É importante manter um “registo de vitórias” – dados concretos, KPIs atingidos, elogios de parceiros. Quando a dúvida surgir, olhem para os números. E mostrem vulnerabilidade! Quando um líder assume que não sabe tudo, retira poder à “voz do impostor”. Se não fingem ser perfeitas, ninguém vos pode “desmascarar”. Falem com outras mulheres sobre estas temáticas: retira-nos peso e normaliza a sensação. O medo é, na verdade, um sinal de que estamos a crescer e a ocupar espaços novos e desafiantes. Isso é força! O vosso lugar à mesa não é um favor que vos fazem, é um valor que acrescenta.

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