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Liderança feminina na contabilidade

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De técnica de contabilidade a CEO de dois projetos: Joana Machado Gomes transformou a pressão de conciliar maternidade e carreira no impulso para criar a Finanças 100 Dúvidas e, mais tarde, a Tomaga Leads. Numa entrevista à Revista Business Portugal, a empresária conta como passou dos balancetes à liderança de equipa, os desafios de ser mulher num setor ainda muito masculino e por que acredita que a contabilidade do futuro será, acima de tudo, apoio à decisão.

Começou na contabilidade e auditoria e acabou a criar a sua própria empresa. Como foi essa passagem de um papel técnico para um papel de liderança, e que desafios sentiu como mulher neste setor?

Sou licenciada em Contabilidade e Auditoria e comecei a trabalhar em 2006, nas áreas de contabilidade, finanças e recursos humanos. Foi aí que ganhei a base técnica, mas também percebi que os números, por si só, não mudam nada: a contabilidade só ganha verdadeiro valor quando ajuda a decidir. O passo para o empreendedorismo surgiu em 2011, quando estava grávida do meu segundo filho. Senti de perto uma pressão que muitas mulheres conhecem: a ideia de que ser mãe e ser uma profissional competente nem sempre parecem compatíveis. Decidi criar a minha própria empresa e exercer por conta própria. O maior desafio foi aprender a ocupar o meu espaço, acreditar em mim própria e perceber que crescer também passa por saber delegar e rodear-me das pessoas certas. Hoje, liderar é também reconhecer onde acrescento mais valor, construir equipa e não perder a proximidade com quem confia em mim.

 

Joana Machado Gomes, CEO

 

O projeto Finanças 100 Dúvidas, da empresa Joana Machado Gomes, Lda., oferece contabilidade 100% online e apoio à gestão para empresas e ENI. O que muda, na prática, para quem deixa o modelo tradicional?

Muda, sobretudo, a relação com o tempo e com a informação. No modelo tradicional, a contabilidade pode chegar depois de algumas decisões já terem sido tomadas. Num modelo digital, os documentos entram na plataforma ao longo do mês, a informação fica organizada e o cliente acompanha com maior proximidade quanto faturou, quanto gastou e que impostos poderá ter de pagar.

Do nosso lado, a tecnologia liberta-nos de tarefas operacionais e dá-nos mais tempo para analisar e acompanhar. Para mim, é aí que está a diferença: a contabilidade cumpre obrigações; o apoio à gestão transforma números em decisões. É perceber porque caiu uma margem, se existe tesouraria para os próximos meses ou se chegou o momento de mudar a estrutura do negócio.

Trabalhamos num modelo misto. Estamos em Portalegre e mantemos o atendimento presencial para quem o valoriza, mas o digital permite-nos trabalhar com clientes em qualquer ponto do país. Online não é sinónimo de distante. Pode significar estar mais perto, com maior frequência e com melhor informação.

Que erros vê com mais frequência nos empresários e trabalhadores independentes na relação com a contabilidade, e o que mudaria se os corrigissem?

Um dos erros mais comuns é olhar para a contabilidade como um “mal necessário”, ao qual só se presta atenção quando chega o momento de pagar impostos. Nessa altura, muitas decisões já foram tomadas. Vejo também muita mistura entre contas pessoais e da empresa, falta de controlo de tesouraria e a ideia de que faturar muito é o mesmo que ganhar dinheiro. A isto junta-se, muitas vezes, falta de informação sobre apoios, incentivos ou oportunidades de financiamento. Quando esta relação muda, muda também a forma de gerir. O IVA, o IRC ou uma quebra de tesouraria deixam de aparecer como surpresas e começam a ser antecipados. Conhecer os números não é um custo; é uma ferramenta de decisão. A contabilidade pode e deve ser um instrumento de apoio à gestão.

A relação entre contabilista e cliente é muitas vezes vista como distante e burocrática. Como é que trabalha essa relação de outra forma?

Com linguagem clara e presença, acima de tudo. Costumo dizer que, se um cliente sai de uma reunião sem perceber aquilo que lhe expliquei, a responsabilidade é minha, não dele. O meu papel também é traduzir informação técnica para algo simples e útil.

Não quero entregar um balancete e esperar que o cliente saiba lê-lo. Quero que perceba o que está bem, o que precisa de atenção e o que deve fazer a seguir.

E há outra coisa essencial: estar presente antes de existir um problema. Quando um cliente me liga e pergunta “Joana, estou a pensar avançar com isto. O que acha?”, sei que a relação está no sítio certo. Deixou de ser apenas burocracia e passou a existir confiança.  E essa confiança constrói-se com tempo, honestidade e disponibilidade.

Além da contabilidade, criou a Tomaga Leads – Marketing Digital e Comunicação, na área do marketing digital, automação e Inteligência Artificial. De que forma essa área complementa o apoio à gestão que dá aos clientes?

Complementa-se de forma natural, porque um negócio não vive apenas de contas certas. Vive também de clientes, visibilidade e capacidade de comunicar bem.

A Tomaga Leads nasceu, em 2024, de uma necessidade minha: dar mais visibilidade on-line ao meu próprio projeto. Ao aprofundar áreas como gestão de tráfego, automações e Inteligência Artificial, percebi que podia aplicar esse conhecimento a outros negócios.

Ao olhar para muitas empresas, vejo que o problema nem sempre está apenas nos custos. Muitas vezes está na entrada: falta visibilidade, procura ou uma comunicação clara sobre aquilo que torna a empresa diferente. Faço questão de manter as duas áreas separadas, mas uso as duas perspetivas. A contabilidade ajuda-me a perceber onde a empresa está; o marketing ajuda a pensar como pode chegar mais longe. Essa visão torna-me uma parceira de gestão mais completa.

Olhando para os próximos anos, como imagina a profissão de contabilista e o que gostava de ver mudar?

Imagino um contabilista cada vez menos preso à parte operacional e cada vez mais próximo do papel de consultor. A tecnologia já faz uma parte importante do trabalho repetitivo e vai continuar a evoluir. Para mim, isso não é uma ameaça, é uma oportunidade.

O que ganha valor é aquilo que a tecnologia não substitui: interpretar, explicar, perceber o contexto de cada empresa e ajudar o empresário a decidir.

Gostava de ver a profissão assumir esse papel com mais confiança e de ver as empresas tratarem o contabilista como parceiro de decisão, e não apenas como uma obrigação. Isso também exige de nós falar de forma clara, antecipar problemas e mostrar, na prática, o valor que acrescentamos.

Sou mulher, mãe de três filhos e empresária, por isso sei que este caminho é exigente. Talvez por isso deseje uma profissão mais humana, mais preparada para mudar e com mais mulheres a liderar com segurança, competência e sem sentirem que têm de escolher entre ser boas profissionais e ter uma vida para além do trabalho.

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