Fundados em 2011, os Instantâneos tornaram-se uma referência na improvisação teatral em Portugal. Marco Graça, um dos fundadores do coletivo, recorda os momentos que definiram o percurso do grupo e revela como a improvisação se transformou num terreno de experimentação, risco e encontro direto com o público.

O primeiro passo: criar onde não existia
O percurso dos Instantâneos começou num território quase inexplorado em Portugal: a improvisação teatral. Desde cedo, a companhia enfrentou dificuldades em aprofundar a formação e desenvolver a técnica. “Nós já éramos todos atores, trabalhávamos em companhias diferentes, mas quando surgiu a vontade de improvisar percebemos que não havia continuidade formativa nem formadores em Portugal”, explica.
Foi dessa lacuna que nasceu a ideia de criar um festival. Portugal não era, até então, um ponto de passagem para improvisadores internacionais. “Não havia um espaço que permitisse acolher improvisadores dos Estados Unidos ou da Europa”, sublinha. A criação do Espontâneo tornou-se, assim, o primeiro grande momento de afirmação da companhia, abrindo portas à circulação internacional e à participação em festivais fora do país. Treze anos depois, o festival mantém-se como um motor essencial, não só para os Instantâneos, mas para a própria improvisação teatral em Portugal, ainda “um ilustre desconhecido” para grande parte do público.
Do intimismo às grandes salas
Ao longo do seu percurso, os Instantâneos passaram por salas emblemáticas como o Coliseu dos Recreios, a Casa da Música ou o Teatro Villaret. Essa transição de espaços alternativos para grandes palcos obrigou a repensar a própria linguagem artística. “O que muda é o espetáculo que nós levamos”, afirma. A improvisação vive de proximidade e inspiração direta no público, algo que se transforma radicalmente numa sala com mil pessoas.
A companhia trabalha hoje com cerca de 15 criações originais, todas adaptáveis à escala do espaço e do público. “Podemos fazer um espetáculo para 50 pessoas ou para mil, mas aquilo que acontece em palco é completamente diferente.” Em grandes salas, a abordagem aproxima-se mais da comédia direta e rápida; em espaços pequenos, o espetáculo torna-se intimista e irrepetível. “É um espetáculo que estreia e acaba no próprio dia”, porque a improvisação vive desse carácter único. Foi também a pensar nos grandes públicos que surgiu o Campeonato Mundial de Improviso, uma proposta inédita em Portugal que transforma o palco num espaço de competição lúdica, onde equipas de vários países competem pelas gargalhadas do público.
Improvisar em diferentes culturas
Levar o improviso português além-fronteiras revelou-se um exercício constante de adaptação cultural. Em países como a Alemanha ou a Hungria, onde os festivais são dedicados exclusivamente à improvisação, o público domina a técnica e exige propostas mais complexas. “Aí estamos quase em competição com outras companhias, o espetáculo tem de trabalhar o virtuosismo da técnica”, explicam. Nestes contextos, os espetáculos são frequentemente apresentados em inglês e a estrutura assume um papel central.
Em festivais ou mostras de teatro generalistas a lógica é outra. O objetivo passa por mostrar o que é a improvisação, sem exigir narrativas demasiado intrincadas. “O público precisa perceber que tudo está a ser criado no momento”, sublinha.
O Espontâneo como lugar de encontro
Desde 2012, o Espontâneo afirma-se como o único festival internacional de improvisação em Portugal. A sua evolução tem sido marcada pela recusa da repetição. “Cada edição apresenta sempre algo que ainda não foi visto em Portugal”, garantem. Paralelamente, o festival assume-se como uma plataforma para companhias nacionais, criando um espaço de visibilidade e crescimento conjunto.
O diálogo artístico estende-se aos workshops e à formação intensiva, onde improvisadores portugueses e estrangeiros partilham métodos e linguagens. Esse intercâmbio gerou ramificações internacionais: atualmente, o Espontâneo acontece também na Colômbia e prepara-se para chegar ao México, fruto de parcerias criadas a partir do festival português.
Improvisação fora do palco
Para além da criação artística, os Instantâneos descobriram cedo o potencial da improvisação no contexto empresarial. “A improvisação é uma competência universal, aplicável a todas as dimensões da vida e do trabalho”, afirma Marco Graça. Mais do que teatro, interessa-lhes o processo: escuta ativa, aceitação do erro, adaptação constante e colaboração.
Nos workshops corporativos, não há hierarquias nem discursos teóricos longos. Há jogo, experimentação e riso. “Promovemos o erro e a colaboração”, conscientes de que não transformam equipas num dia, mas criam uma memória emocional duradoura. As empresas procuram-nos porque vivem num contexto de mudança permanente, e a improvisação ajuda a combater a resistência à adaptação.
Escutar, aceitar, arriscar
Entre as soft skills mais desafiantes para os participantes estão a construção conjunta e a escuta ativa. “Estamos muito habituados a ouvir o suficiente para responder”, observa. Nos exercícios, é preciso ouvir para se adaptar, não para contrariar. O medo do erro surge como um bloqueio recorrente, e é precisamente aí que a improvisação atua, retirando peso ao falhanço e abrindo espaço à experimentação.
Quando o trabalho é totalmente personalizado, seja em workshops ou espetáculos para empresas, o processo começa sempre pela escuta dos objetivos. “O vazio não existe”, dizem, evocando a ideia de que há sempre estímulos disponíveis. As histórias do quotidiano da empresa tornam-se base para cenas improvisadas, onde o público vê-se refletido, ainda que de forma ligeira e divertida.


Experiência como futuro
Para os Instantâneos, o futuro da improvisação passa pela criação de experiências imersivas. O teatro clássico, dizem, vive uma crise prolongada, sobretudo junto das gerações mais novas. Em resposta, a companhia tem explorado formatos que rompem com a sala convencional. Labirinto, apresentado na Quinta da Ribafria, em Sintra, é um exemplo disso: um espetáculo noturno, itinerante, onde o público participa desde o primeiro momento, seguindo personagens e influenciando a narrativa.
“A improvisação permite esse grau de imersividade”, defendem. O público procura hoje experiências, mais do que a simples contemplação. Arriscar, sair do lugar comum e ser arrojado faz parte desse caminho.

Um desafio constante
Os objetivos futuros dos Instantâneos resumem-se numa ideia simples: continuar a desafiar-se. Não colocar barreiras ao que pode ser feito, seja no plano artístico, seja no trabalho com empresas. Através de dinâmicas onde os colaboradores são desafiados a prototipar ideias e serviços, os Instantâneos transformam a visão interna da organização. Este processo de ‘olhar para dentro’ revela talentos ocultos e gera soluções estratégicas que o guião tradicional não alcança. “Caso não fosse desafiante, não improvisávamos”, conclui. Improvisar é aceitar o risco, viver no presente e construir sentido a partir do inesperado. É nesse território instável que os Instantâneos continuam a existir, a criar e a surpreender, espetáculo após espetáculo, sempre sem guião. Cada performance é uma oportunidade de experimentar, de explorar novos caminhos e de envolver o público de formas únicas. Ao recusar a previsibilidade, a companhia mantém viva a essência da improvisação: a liberdade de inventar, de adaptar e de transformar o ordinário em extraordinário. É esta coragem que sustenta o seu percurso e que promete levar a improvisação portuguesa a novos horizontes.







