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Da urgência humanitária à responsabilidade empresarial

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Da urgência humanitária à responsabilidade empresarial: o papel das empresas num mundo em  deslocação

Artigo por Isabel L. Roth, Responsável de Alianças Estratégicas da Portugal com ACNUR

Algumas imagens permanecem na memória coletiva porque conseguem traduzir, num único instante, crises inteiras. Há uma década, a fotografia de uma criança síria encontrada afogada numa praia turca tornou-se um símbolo universal do drama do deslocamento forçado, sintetizando a vulnerabilidade e o sofrimento de milhões de pessoas obrigadas a abandonar as suas casas para procurar segurança, proteção e um futuro possível. Desde aquele triste retrato, que comoveu e mobilizou pessoas em todo o mundo, a crise humanitária global pautada pelos deslocamentos forçados intensificou-se.

No início de 2026, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) estimava a existência de 117 milhões de pessoas deslocadas à força em todo o mundo, com projeções que apontam para mais de 136 milhões até ao final do ano. O crescimento destes números reflete a acumulação de conflitos prolongados, crises políticas, fenómenos climáticos extremos e novos focos de instabilidade internacional.

Nos últimos meses, a comunidade internacional assistiu a marcos que evidenciam esta tendência. Assinalaram-se quatro anos da guerra na Ucrânia e três anos do conflito no Sudão, duas crises que continuam a provocar deslocações em larga escala. Paralelamente, a escalada da violência no Médio Oriente agravou ainda mais o cenário humanitário global. Desde o início deste novo ciclo de tensão, mais de um milhão de pessoas foram forçadas a deslocar-se no Líbano, enquanto centenas de milhares de famílias sofreram deslocamentos temporários noutras zonas afetadas da região.

Por trás de cada número existe uma realidade humana concreta: famílias separadas, trajetórias interrompidas, crianças sem acesso à educação e pessoas que perderam não apenas as suas casas, mas também a previsibilidade do futuro.

Esta é uma das grandes questões do nosso tempo: o deslocamento forçado deixou de ser um fenómeno distante ou localizado. Tornou-se uma realidade estrutural à escala global.

O compromisso empresarial numa sociedade interdependente

Num contexto de elevada interdependência económica e social, os desafios humanitários já não podem ser entendidos exclusivamente como responsabilidade dos governos ou organizações internacionais. As empresas assumem hoje um papel cada vez mais influente na forma como as sociedades respondem a desafios coletivos.

Os dados mais recentes em Portugal revelam sinais claros desta transformação. Em 2024, os donativos empresariais atingiram um máximo histórico de 332 milhões de euros, envolvendo cerca de 74 mil empresas (Informa, 28/01/2026). Um dado particularmente relevante prende-se com a diversidade dos participantes: embora as grandes empresas tenham contribuído com uma parte significativa do montante total, as microempresas representaram 81% do número total de empresas doadoras.

As pequenas e médias empresas, a base do tecido económico português, também têm demonstrado uma capacidade significativa de mobilização e proximidade às comunidades onde operam. Além do apoio financeiro direto, as PMEs podem contribuir através de campanhas de sensibilização, mobilização de colaboradores, criação de iniciativas junto de clientes e parceiros ou da integração de objetivos sociais nas suas práticas empresariais. Pequenos contributos, quando multiplicados à escala de milhares de organizações, podem gerar um impacto significativo.

Num contexto empresarial cada vez mais orientado por critérios de sustentabilidade e propósito, as PMEs (pequenas e médias empresas) têm também a oportunidade de reforçar a sua identidade, criar relações mais fortes com os seus públicos e afirmar um posicionamento alinhado com valores sociais amplamente reconhecidos.

Responsabilidade social num mundo sem fronteiras

É natural que muitas empresas concentrem os seus esforços nas comunidades locais onde operam. Contudo, a crescente internacionalização dos negócios levanta uma questão relevante: se as cadeias de valor, os mercados e os impactos económicos se tornaram globais, não deverá também a responsabilidade social acompanhar essa realidade?

As empresas operam atualmente em ecossistemas profundamente interligados. As consequências de crises humanitárias podem refletir-se em cadeias de abastecimento, dinâmicas migratórias, estabilidade regional e desenvolvimento económico.

Pensar o impacto social apenas numa perspetiva geográfica limitada pode revelar-se insuficiente perante desafios cuja escala ultrapassa fronteiras.

É precisamente neste contexto que as parcerias estratégicas entre empresas e organizações internacionais assumem particular importância. Estas colaborações permitem canalizar recursos, conhecimento técnico, capacidade operacional e inovação para respostas humanitárias estruturadas e sustentáveis. Mais do que ações pontuais, tornam possível criar soluções de longo prazo com impacto mensurável.

Quando as parcerias geram soluções concretas

As colaborações entre o setor privado e organizações humanitárias demonstram que impacto social e visão estratégica podem caminhar lado a lado.

Um exemplo relevante é a parceria de mais de duas décadas entre a Fundação “la Caixa” e o ACNUR, uma das colaborações estratégicas mais consistentes do setor privado nesta área. Ao longo dos anos, esta parceria apoiou programas em diversos países de África e da Ásia, incluindo intervenções em contextos de emergência e iniciativas na área da saúde.

Desde 2017, um dos focos centrais passou pela implementação do Projeto MOM, desenvolvido em campos de refugiados na Etiópia com o objetivo de reduzir a mortalidade infantil e melhorar o estado nutricional de crianças e mães grávidas ou lactantes.

A iniciativa apostou não apenas em assistência direta, mas também em inovação metodológica e tecnológica: desde novas abordagens de nutrição em contextos de emergência até ferramentas não invasivas para o diagnóstico precoce de anemia infantil.

Os resultados demonstram a importância de intervenções sustentadas. Só em 2022, o projeto beneficiou mais de 277 mil pessoas, incluindo dezenas de milhares de crianças e mulheres grávidas, além de iniciativas dirigidas ao reforço do apoio parental e ao desenvolvimento infantil.

Este exemplo ilustra uma dimensão frequentemente subestimada das parcerias: não se trata apenas de financiar respostas imediatas, mas de criar capacidade, gerar inovação e construir soluções que permanecem ao longo do tempo.

Mais do que filantropia: investimento social estratégico

Em 2024 foram registadas dezenas de emergências ativas em diferentes regiões do mundo, num dos períodos mais exigentes para a ação humanitária internacional. Em simultâneo, verificaram-se níveis históricos de pressão sobre os recursos disponíveis.

Perante este cenário, o papel das empresas ultrapassa a dimensão financeira. A mobilização do setor privado contribui para ampliar conhecimento, gerar envolvimento social, fortalecer redes de apoio e acelerar respostas.

Ao mesmo tempo, estas parcerias produzem benefícios relevantes para as próprias organizações: reforçam reputação, fortalecem a ligação com colaboradores e consumidores, contribuem para objetivos de sustentabilidade e criam posicionamentos alinhados com expectativas cada vez mais exigentes por parte dos investidores e da sociedade. Mais do que iniciativas de filantropia, estas alianças representam investimentos sociais estratégicos.

Entre a sensibilização e a mudança existe um espaço de responsabilidade. Num mundo onde o número de pessoas deslocadas continua a crescer, as empresas têm hoje uma oportunidade singular: não apenas participar na resposta às crises humanitárias, mas contribuir ativamente para construir soluções duradouras. Porque, perante desafios globais, o impacto coletivo depende cada vez mais da capacidade de criar parcerias com propósito.

** Portugal com ACNUR, a parceira nacional da Agência das Nações Unidas para os Refugiados, nasceu em 2021 e tem como objetivo sensibilizar e angariar fundos para apoio aos programas de ajuda humanitária do ACNUR: nutrição, cuidados médicos, água potável e saneamento, educação, abrigo e infraestruturas básicas, assistência jurídica e proteção internacional, entre outros. Tal como outros parceiros nacionais presentes noutros países, procurará sensibilizar o público em geral sobre a situação e as necessidades das pessoas refugiadas, deslocadas e apátridas e maximizar as contribuições recebidas do setor privado, setor público descentralizado e sociedade civil em Portugal, para o ACNUR.

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