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Cuidar do sono para transformar a qualidade de vida

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A relação entre sono, comportamento e adesão terapêutica está no centro de uma nova abordagem aos cuidados respiratórios. Nesta entrevista, Ana Borges, Patient Manager na Gasoxmed e especialista em Psicologia do Sono, explica como a componente humana e comportamental pode transformar resultados clínicos, organizacionais e a qualidade de vida dos doentes.

A Gasoxmed assume um papel determinante na prestação de cuidados respiratórios ao domicílio. Enquanto especialista em Psicologia do Sono, de que forma a ligação entre qualidade do sono e doenças respiratórias se traduz em ganhos concretos na qualidade de vida, adesão terapêutica e eficiência dos cuidados?

A interligação entre sono e doenças respiratórias é muito direta e, na prática, bastante visível. Não estamos apenas a apoiar o tratamento de uma condição clínica, estamos a intervir na forma como a pessoa vive o seu dia a dia. Muitas destas patologias comprometem a qualidade do sono e isso acaba por ter impacto em várias dimensões: energia, concentração, humor e até na motivação para aderir ao tratamento.

E aqui entra um ponto essencial: a adesão terapêutica. Não basta existir uma solução clínica eficaz. Se não fizer sentido para a pessoa, se não for integrada na sua rotina, dificilmente vai resultar. É por isso que a componente comportamental é tão importante para ajudar o doente a perceber, a aceitar e a adaptar o tratamento à sua realidade.

 

Ana Borges, Psicóloga

 

Num contexto empresarial cada vez mais exigente e orientado para resultados, o sono continua a ser frequentemente desvalorizado. Que desafios e oportunidades identifica para integrar o sono como um pilar estratégico da saúde, não só individual, mas também organizacional?

Ainda existe muito a ideia de que dormir é quase secundário, quando na verdade é a base para tudo o resto.

O maior desafio é cultural. Falta trazer o sono para a conversa de forma mais estratégica. Muitas organizações ainda não fazem essa ligação direta entre sono e desempenho, mas ela existe, e é clara: menos foco, mais erro, menor capacidade de decisão.

Ao mesmo tempo, vejo aqui uma grande oportunidade. Quando começamos a falar de sono numa linguagem mais próxima do contexto empresarial – impacto, produtividade, sustentabilidade, o tema ganha outra relevância e passa a ser levado mais a sério.

Enquanto líder de um Programa de Coaching Comportamental para profissionais de saúde na Gasoxmed, focado na adesão terapêutica, de que forma o conceito de “ensinar a cuidar” contribui para uma liderança mais eficaz e para melhores resultados clínicos e operacionais?

“Ensinar a cuidar” é, no fundo, ajudar os profissionais a irem além da técnica. O conhecimento clínico é essencial, mas não é suficiente por si só. No Programa de Coaching, trabalhamos competências como a comunicação, empatia, gestão emocional – competências habitualmente designadas por soft skills, mas que na Gasoxmed tratamos como competências críticas de negócio. O impacto é muito claro: quando as nossas equipas desenvolvem estas competências, criam uma relação mais próxima e eficaz, o que se reflete diretamente na adesão terapêutica e no sucesso do tratamento.

E depois há um efeito que muitas vezes não é imediato, mas é muito relevante: a mudança na cultura organizacional. As equipas tornam-se mais alinhadas, mais conscientes, mais colaborativas. E isso acaba por influenciar não só os resultados clínicos, mas também o ambiente de trabalho.

Numa área onde a exigência técnica é elevada, mas a relação humana é decisiva, que competências de liderança considera fundamentais para gerar confiança, influenciar comportamentos e promover mudanças sustentáveis em doentes e equipas?

A confiança é a base. E constrói-se, muitas vezes, em pequenos detalhes: na forma como ouvimos, como explicamos, como nos adaptamos à pessoa que temos à nossa frente.

Competências como a inteligência emocional e a comunicação são fundamentais. Saber simplificar, tornar a informação acessível, perceber o ritmo do outro, tudo isso faz a diferença.

A nível das equipas, a liderança tem também um papel importante na criação de um ambiente seguro, onde as pessoas se sintam à vontade para crescer e melhorar. Quando isso acontece, o impacto reflete-se naturalmente na qualidade dos cuidados prestados.

O setor dos cuidados respiratórios ao domicílio encontra-se em clara evolução. Na sua perspetiva, quais serão as principais transformações nos próximos anos e que papel terão áreas como a psicologia, a literacia em saúde e o acompanhamento comportamental na diferenciação das organizações que atuam neste setor?

A tecnologia vai continuar a evoluir, isso é claro, sobretudo na monitorização e no acompanhamento remoto. Mas há um ponto que se mantém: a tecnologia não garante, por si só, que o doente adere ao tratamento.

E é aqui que a componente comportamental ganha cada vez mais importância. Perceber hábitos, resistências, crenças e trabalhar isso de forma estruturada vai ser determinante.

Acredito que as organizações que conseguirem equilibrar tecnologia com uma abordagem mais humana e investir no desenvolvimento das suas equipas vão conseguir diferenciar-se de forma mais consistente.

Num percurso que cruza especialização técnica, intervenção clínica e desenvolvimento humano, que conselhos deixa a profissionais que ambicionam construir uma carreira com impacto, mantendo equilíbrio e sentido de propósito?

Diria que é importante começar por perceber o que realmente faz sentido para cada pessoa. Ter clareza ajuda muito a tomar decisões ao longo do caminho.

Depois, aceitar que nem sempre vai ser linear. Há fases mais exigentes, dúvidas faz parte do processo.

E talvez o mais importante: cuidar dos outros exige energia. E isso implica saber cuidar de si também. O equilíbrio não é algo fixo, vai sendo ajustado ao longo do tempo mas é essencial para conseguir manter um impacto consistente.

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