Nascida do instinto comercial de um ribatejano de Arruda dos Vinhos que cruzava o país para comprar laranjas no Algarve, a Frigarruda transformou-se, ao longo de décadas, num dos consistentes produtores e comerciante de citrinos da região sul. Fundada por José Francisco e pela sua mãe, e enraizada num modelo familiar, a empresa alia tradição agrícola a uma gestão profissionalizada, explorando hoje mais de 200 hectares de pomares, assumindo uma filosofia centrada na frescura e na qualidade.
A origem da empresa está profundamente ligada à história pessoal do fundador, José Francisco, natural do Ribatejo, que, ainda jovem, iniciou a sua atividade no comércio de fruta. “Eu sou de Arruda dos Vinhos. Mas vinha ao Algarve comprar laranja, acima de tudo, para vender na região de Lisboa mais propriamente no mercado da Malveira e Vila Franca de Xira”, conta. Foi nestes mercados que deu os primeiros passos: “Vendia no mercado da Malveira e Vila Franca de Xira. Foi onde comecei a trabalhar”.
A empresa, no entanto, ainda não existia formalmente nessa fase. “A empresa, não. Eu já trabalhava com a compra e venda de fruta, só mais tarde o negócio tomou uma forma mais estruturada: “Depois, que formámos a empresa, eu com a minha mãe. Ela também estava ligada ao negócio da fruta”, revela. Com o tempo, a atividade deixou de se concentrar apenas na revenda e passou à produção agrícola própria. O Algarve tornou-se, assim, não apenas ponto de fornecimento, mas também base de operação. “Comecei a dedicar-me à produção aqui no Algarve. Fui arrendando alguns pomares de citrinos e fui ampliando a produção”, explica. A expansão foi feita de forma gradual e sustentada. “Comecei com pouco, como toda a gente, acho eu. Depois, fui adquirindo mais um pomar ou outro, mais um terreno aqui ou ali”, diz. Parte significativa da área atual resulta de aquisições mais recentes: “Os mais novos é que são quase todos de compra. Comprei o terreno e depois plantei”, salienta José Francisco.

Hoje, a empresa conta com pomares modernos e aposta na ampliação do comércio e distribuição da fruta. “A maior parte da produção que temos é de pomares novos. Por isso é que agora estamos a expandir um bocadinho mais a venda da fruta”, refere.
Ao longo deste percurso, há datas e momentos marcantes que se destacam na memória do fundador como pilares do crescimento: a entrada no mercado da Castanheira, a constituição da empresa em parceria com a mãe, os primeiros arrendamentos no Algarve e, por fim, a transição para a produção própria e aquisição de terrenos, hoje conta com a ajuda de dois filhos que também fazem parte deste crescimento. A história da Frigarruda, empresa agrícola com raízes familiares e sede no Algarve, mostra que o crescimento sustentável exige um forte esforço, tempo e dedicação. Hoje, a empresa explora cerca de 200 hectares, entre terrenos próprios e arrendados.

A aposta da Frigarruda na produção é na qualidade
A produção é centrada nos citrinos, com clara predominância da laranja. “Mais do que tudo, 80% será a laranja”, afirma. Mas há espaço para alguma diversidade. “Tenho algumas variedades de mandarinas. Por isso, será 80% laranja e 20% mandarinas”, sublinha José, dando destaque às marcas da empresa: Encosta Algarvia uma marca com sucesso no mercado francês e a marca Avô, sendo esta a sua marca de destaque nos mercados.
No que toca à laranja, a diversidade é grande – não apenas nas espécies, mas também na calendarização. “A temporada começa em outubro e vai até ao final de setembro. São várias variedades que dão espaço a estas datas. Existe várias variedades de laranja cada uma tem a sua data de colheita assim conseguimos preencher estas datas. E justifica a escolha: “Nós, tentamos prolongar um pouco mais as variedades por uma questão de qualidade”. Ao longo da entrevista, o produtor faz questão de destacar a aposta constante na qualidade do produto: “Há pessoas que apostam mais na imagem, na estética. Mas a realidade da fruta deve ser apreciada pela qualidade”, sublinha, acrescentando que a experiência sensorial é essencial. “O melhor não é só o açúcar. O melhor é a textura, o sumo e o açúcar, são estes fatores que marcam a diferença. Eu gosto, e acho que a maioria das pessoas também, de dar uma trincadela numa boa laranja e senti-la estalar nos dentes e ter todo o sumo, açúcar e o verdadeiro gosto da laranja”. Mas garantir esta qualidade não depende apenas da técnica agrícola, porque a relação com a terra exige respeito e equilíbrio.
Frescura em tempo recorde
Se há um princípio que orienta a atuação da Frigarruda, é o da frescura absoluta. “Dois ou três dias depois de colhê-las na árvore, já estão à venda ao público no mercado nacional. Isso é o fresco”, afirma o fundador da empresa, com convicção. A rapidez no processo – desde a apanha até à chegada às prateleiras – é, para a empresa, um fator determinante na qualidade do produto final. Este nível de eficiência exige uma logística afinada e custos elevados., afirma, dando ainda a conhecer que a Frigarruda exporta regularmente para Espanha, França e Bélgica. Questionado sobre a competitividade da produção nacional face à laranja importada, o empresário é pragmático: “Tem anos que não é. Há alturas, em que o citrino chega a um preço ao agricultor muito abaixo em relação ao custo de produção”. Nessas situações, a pressão do mercado internacional, combinada com a estratégia das grandes cadeias de distribuição, coloca os produtores nacionais numa posição frágil. Apesar das dificuldades, há uma ideia de que o produtor defende com convicção: “A imagem de uma fruta estrangeira mais bonita vende, mas não é sinónimo de qualidade”.

Desafios do futuro
Atualmente, a empresa dá emprego direto a cerca de 40 pessoas. “Neste último ano, atingimos os 40 funcionários do quadro”, afirma. A operação divide-se entre o campo e o armazém: “São 30 e tal pessoas no armazém e os restantes no campo”. Além disso, a Frigarruda recorre a empresas de trabalho temporário, sobretudo na colheita da fruta.
O setor agrícola ligado à produção de citrinos em Portugal vive um momento de contradições: por um lado, moderniza-se e profissionaliza-se; por outro, enfrenta sérias limitações estruturais e ambientais. Esta é a perspetiva de José Francisco: “É um setor que está modernizado, bem organizado, mas ainda tem mais para fazer”, afirma. Apesar dos avanços técnicos e logísticos, José Francisco identifica entraves importantes ao crescimento da atividade, com destaque para os condicionalismos ambientais e legais. “Devido a algumas condicionantes por falta de água e ampliações nas áreas de plantação. Mesmo com mais disponibilidade hídrica, há muita resistência a ampliar a produção”. O desafio, segundo diz, é aumentar a produtividade sem expandir a área cultivada: “Temos de produzir mais com aquilo que já temos. E já está tudo a ser usado ao máximo”.
A margem de crescimento da Frigarruda não passa necessariamente pela expansão territorial, mas pela maturidade dos pomares. “Temos muitos pomares novos que ainda não produzem nem 20% do que poderão vir a produzir em plena capacidade”, explica. O horizonte de plena produção está projetado para os próximos sete a oito anos.
No entanto, o presente traz desafios significativos. Um deles é a falta de mão de obra. “Na Frigarruda, menos de 10% dos trabalhadores são portugueses. O restante são imigrantes oriundos de países como Brasil, Roménia, Marrocos, Paquistão, Nepal e Índia. “São pessoas em que se pode confiar, trabalhadores que ajudam no crescimento da empresa. Trato-os como irmãos, e eles a mim”, sublinha, acrescentando que a excelência de muitas atividades em Portugal “depende da mão de obra estrangeira”. Apesar das adversidades, o futuro da Frigarruda parece assegurado. Os dois filhos do fundador já estão integrados na empresa. “Têm gosto, dão o seu melhor e estão preparados para continuar”. Agradece também o empenho e a dedicação de alguns colaboradores, fator que também tem contribuído para o crescimento da empresa. “A ideia é crescer, sim, mas com equilíbrio e responsabilidade”, conclui José Francisco.





