PUB

PUB

Ciência, liderança e humanização na Medicina

Data:

Partilhar

Ana Mafalda Reis, Diretora do Serviço de Neurorradiologia do Hospital Pedro Hispano e Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia, construiu um percurso que cruza a prática clínica, a investigação, a docência e a liderança científica, assente numa visão da Medicina como espaço de conhecimento, responsabilidade e serviço às pessoas. Entre a Neurorradiologia, a História da Medicina e a inovação tecnológica, defende uma liderança exigente e humanizada, onde o rigor científico se articula com a ética, a capacidade de escuta e a valorização das equipas.

Licenciada em Medicina, especialista em Neurorradiologia e doutorada em Ciências Médicas pelo ICBAS/UP onde é responsável pela História da Medicina, é diretora do Serviço de Neurorradiologia do Hospital Pedro Hispano e presidente da Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia. Que valores, encontros e circunstâncias foram dando forma a este percurso profissional, científico e humano?

Nunca houve um plano rígido, mas a preocupação de fazer o que considerava prioritário, trabalhando com seriedade e aceitando desafios que me permitissem aprender e ser útil. O doutoramento, a docência, a Neurorradiologia, a investigação e as responsabilidades de direção estão unidos pelo mesmo princípio: colocar o conhecimento ao serviço das pessoas. Recordo sempre um verso de António Machado que um dia o Dr. Paulo Mendo me ofereceu como forma de testemunho: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. O caminho faz-se caminhando, mas nunca sozinho. Trago uma herança familiar de afeto, trabalho e honestidade, mas sou também resultado dos mestres, colegas, amigos, alunos e doentes que encontrei. A marca que deixamos não se mede pelos títulos, mas pela diferença que fazemos na vida dos outros.

 

Ana Mafalda Reis, Diretora do Serviço de Neurorradiologia do Hospital Pedro Hispano e Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia

 

Acumula direção de serviço, presidência de uma sociedade científica, atividade académica e investigação. Como organiza o seu tempo e energia, e que critérios usa para dizer “sim” ou “não” a novos projetos?

Mais do que organizar o tempo, importa escolher o que o merece. Procuro dizer “sim” ao que tem propósito: melhorar os cuidados, desenvolver a equipa, valorizar a Neurorradiologia, criar conhecimento ou abrir caminhos às novas gerações. Servir bem exige também cuidar da saúde, da família e dos afetos.

A vida oferece encontros e oportunidades inesperadas, que devemos reconhecer sem perder a coerência. Trabalho e rigor são essenciais, mas também a gratidão, a escuta e a capacidade de parar. Uma decisão científica pode mudar um percurso clínico; um gesto simples ou um abraço pode mudar o dia de alguém. Ambas as dimensões pertencem à mesma responsabilidade humana.

A pós-graduação em Gestão na Saúde, contribuiu para ampliar a sua perspetiva médica e influenciar a forma como dirige um serviço hospitalar e lidera uma sociedade científica?

A formação em Gestão na Saúde ampliou a minha perspetiva clínica e ensinou-me a transformar intenção em organização, estratégia e resultados. Dirigir um serviço exige conjugar ciência, qualidade, inovação, sustentabilidade, estratégia, liderança e humanização, acompanhando o percurso do doente e utilizando responsavelmente os recursos.

Atrair e reter profissionais diferenciados é essencial. Além da remuneração, contam reconhecimento, confiança, autonomia, pertença e oportunidades de desenvolvimento. Um diagnóstico atempado orienta a terapêutica e reduz internamentos; a intervenção vascular cerebral e da coluna recupera funcionalidade. Investir na especialidade cria valor clínico, social e económico.

Na Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia, esta visão ajudou-nos a promover a profissionalização, formação e investigação, defender a diferenciação da especialidade e reforçar a cooperação nacional e internacional. Liderar é escutar, criar confiança e permitir que as pessoas cresçam. A tecnologia só tem valor quando contribui para diagnósticos mais precoces, tratamentos mais precisos e melhores resultados.

A investigação da dor por ressonância magnética funcional conduziu-a à formação em Medicina da Dor. Como transformou esse encontro científico numa compreensão mais ampla da dor crónica e no desenvolvimento de novas respostas assistenciais em Neurorradiologia? E que lugar ocupa a História da Medicina na sua forma de investigar, ensinar e cuidar no momento atual com as novas tecnologias?

Tudo se veio a alinhar e a desenvolver ao longo dos tempos. A pós-graduação em Medicina da Dor surgiu no âmbito de um projeto de estudo da dor por ressonância magnética funcional. Esta formação multidisciplinar permitiu-me compreender os seus mecanismos cerebrais e aproximar a imagem da experiência clínica. Revelou-me a complexidade e o impacto da dor crónica.

Essa consciência levou-me a desenvolver uma equipa de intervenção que participa na avaliação multidisciplinar e realiza procedimentos minimamente invasivos da coluna. Não tratamos imagens: cuidamos de pessoas. As decisões integram clínica, imagem, funcionalidade, expectativas e contexto humano, procurando reduzir a dor e devolver autonomia.

A História da Medicina, no âmbito do meu doutoramento, acrescentou profundidade à minha visão. Nos clássicos reencontramos a ética, a prudência e os limites. Os princípios éticos continuam a ser uma bússola. Ensiná-la transmite valores, humildade e sentido crítico, lembrando que o conhecimento é uma construção coletiva e que inovar não é perder a memória. A formação deve também unir a ciência com comunicação, pensamento crítico, gestão, liderança e estratégia. Pedro Hispano-Papa João XXI, e Egas Moniz, entre muitos outros, projetaram no tempo a medicina portuguesa além-fronteiras. Em 2027 celebraremos o centenário da angiografia cerebral de Egas Moniz, legado ainda central na Neurorradiologia. Queremos tornar este património vivo, aproximando Medicina, literatura, arte e ciência. Cada vez mais no contexto atual, a Medicina expõe-nos a decisões de alto risco e pressão. Devemos preparar os jovens para gerir o stress, comunicar, trabalhar em equipa e lidar com o erro. Tal como os atletas de alta competição, precisam de treino, simulação e análise do desempenho. Reconhecer o erro e transformá-lo em aprendizagem exige uma cultura justa, sem medo nem ocultação. Procuramos profissionais resilientes, seguros e humanos. A Neurorradiologia sempre viveu próxima da tecnologia. A Inteligência Artificial reconhece padrões e apoia decisões, mas não substitui o neurorradiologista: amplia a sua capacidade. O raciocínio clínico, o contexto e a responsabilidade permanecem humanos.

Ao longo de um percurso com responsabilidades clínicas, académicas e institucionais, como foi construindo a sua identidade enquanto mulher e líder? Que importância atribui à família, aos afetos e às redes de confiança na possibilidade de exercer uma liderança exigente sem perder a autenticidade?

A minha identidade construiu-se entre responsabilidades profissionais, vida familiar e aprendizagens. Houve contextos em que senti ser necessário demonstrar mais para que a competência fosse reconhecida, mas procurei não deixar que isso definisse a minha forma de agir. A competência não tem género e liderar não exige que abdiquemos de quem somos. Desejo um futuro ético e inclusivo, com mulheres e homens a partilhar os lugares de decisão.

A família, os afetos e as redes de confiança sustentam a realização profissional. Ensinaram-me a escutar, pedir ajuda e reconhecer que ninguém lidera sozinho. Procuro uma liderança próxima, exigente e inclusiva, conciliando decisão com empatia. Às novas gerações diria que preservem a autenticidade, escolham bem quem caminha ao seu lado e não confundam sucesso com ausência de limites. O sucesso só é inteiro quando não nos afasta das pessoas e dos valores que nos trouxeram até aqui.

Newsletter