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“As mulheres chegam ao topo, mas muitas vezes chegam lá feridas”

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Durante anos, chegar ao topo significou, para muitas mulheres, provar que eram capazes de fazer tudo sozinhas. Daniela Sousa, especialista em comunicação consciente, inteligência emocional e liderança, acredita que esse caminho tem um preço: “As guerreiras carregam uma armadura muito pesada” e podem chegar ao topo “muito feridas”. Com mais de uma década de experiência, defende uma transformação de dentro para fora, baseada no autoconhecimento, inteligência emocional e numa comunicação mais consciente, e trabalha com mulheres empreendedoras para promover redes de apoio em vez de competição.

Ao longo do seu percurso profissional, que experiências e aprendizagens foram determinantes para definir a abordagem que atualmente orienta o seu trabalho?

Sou educadora social de formação e comecei o meu percurso profissional na área do envelhecimento. Gostava muito, mas percebi que estava a trabalhar no “fim de linha”. O meu papel era tornar essa fase da vida mais bonita e menos penosa, mas havia transformações que já não podia fazer. Pensei então que poderia projetar a minha energia, competências e vontade de fazer a diferença alguns anos mais atrás, focando-me assim no trabalho com público mais jovem.

Cruzei-me com muitas mulheres e percebi que muitas se sentiam sozinhas e que a sua voz não era ouvida. Vi mulheres com capacidades incríveis sem confiança para levar os seus sonhos por diante. E eu própria já fui essa mulher. Já tive medo de me expor, receio do julgamento. Foi aí que percebi que podia usar a minha experiência para ajudar outras mulheres a transformar-se.

 

Daniela Sousa, Especialista em comunicação consciente, Inteligência emocional e Liderança

 

 

A comunicação é determinante no posicionamento profissional. Quais são os principais desafios?

Antes de aprendermos a comunicar melhor, temos de nos conhecer. Quanto mais me conheço e confio em mim, mais clara e segura se torna a minha comunicação, porque ela nasce da minha autoestima, não da técnica.

Muitas vezes preocupamo-nos demasiado com o exterior, mas podemos ter uma imagem extraordinária e, internamente, estar inseguras. Defendo um caminho de dentro para fora: quanto mais me fortaleço interiormente e acredito no meu valor, mais facilidade tenho em colocar a minha voz no mundo.

Há também uma questão cultural, muitas mulheres cresceram com a ideia implícita de que destacar-se é arriscado, e essa ideia transforma-se, sem darmos conta, numa crença que trava a forma como nos expressamos. Antes de trabalhar a comunicação, é preciso trabalhar a identidade, perceber que crenças estão por trás do silêncio ou da hesitação, e desconstruí-las. Só aí a voz se liberta de verdade.

Que competências considera fundamentais para uma liderança eficaz?

Autoconhecimento e capacidade de gerir as emoções, são os dois pilares de qualquer liderança eficaz. Não posso liderar o outro se ainda não sei liderar-me a mim própria. Quando não me conheço, é fácil apontar o dedo, criticar, julgar, porque é mais fácil olhar para fora do que para dentro.
A maioria dos conflitos nasce exatamente aí: da incapacidade de gerir aquilo que sentimos. O ego fala mais alto, sentimo-nos incomodadas e reagimos, e, sem perceber, estamos a discutir connosco próprias, não com a outra pessoa. É por isso que defendo a auto liderança: liderar o outro começa sempre por liderar-se a si própria. Quanto melhor me conheço, melhor lido com quem está à minha volta, e é aí que nasce a verdadeira empatia.

Quais são os desafios que encontra com maior frequência no acompanhamento de mulheres?

A exaustão emocional é um dos maiores desafios. Muitas vivem com a sensação de estar sempre em esforço sem nunca chegar a lado nenhum. Trabalham, esforçam-se, conquistam coisas extraordinárias, mas parece que nunca é suficiente. Custa-lhes também reconhecer as próprias conquistas. Perante um elogio, a resposta quase automática é “não, não é nada de especial.” É como se reconhecer o nosso valor fosse pecado.

E é precisamente essa crença que precisamos desconstruir.
Foi a observar este padrão, que nasceu o meu método de Transformação 360, que trabalha três dimensões em conjunto: o EU, identidade, autoconfiança e crenças; o TU, a forma como me apresento e me relaciono com o mundo, através da comunicação assertiva, do posicionamento e da liderança; e o NÓS, o negócio que construo, com processos, método e estrutura. No caso das mulheres, esta ligação entre identidade pessoal e negócio é particularmente forte, não se separa uma coisa da outra

Que condições considera essenciais para promover uma maior participação das mulheres em posições de liderança?

As mulheres precisam, antes de mais, de investir nelas próprias. Uma mulher preparada, com uma personalidade bem sustentada e uma mente forte consegue alcançar aquilo que quiser. Mas é preciso trabalho. Queremos muitas vezes resultados sem querer pagar o preço do processo. Se quero colher, tenho de semear. Defendo o desenvolvimento pessoal acompanhado pelo desenvolvimento profissional.

Também defendo que as mulheres precisam de se afirmar. Não necessariamente de se tornarem iguais aos homens, mas de afirmarem quem são.

Eu própria senti isso ao longo do meu percurso, numa experiência profissional num setor mais masculino e conservador, onde sentia sempre uma pressão extra para provar o meu valor, uma pressão que os meus colegas homens raramente sentiam.

Como articula comunicação, liderança e desenvolvimento profissional no acompanhamento das suas mentoradas?

Não acredito que seja possível trabalhar apenas a comunicação, ou apenas o negócio, e alcançar resultados extraordinários e sustentados. É preciso trabalhar a pessoa que está por trás de tudo isso, é essa a lógica do meu método 360: primeiro o interior, a identidade, as crenças e o autoconhecimento; depois a forma como a pessoa comunica e se relaciona com o mundo; e só então o negócio, criando uma estrutura alinhada com quem ela é e com aquilo que quer alcançar. Sem esta ordem, constrói-se em cima de uma base que não aguenta o peso do crescimento.
Outra dimensão essencial é a disciplina. Não acredito que a motivação possa ser o único “motor de ação”, ela oscila. É a disciplina e a consistência que nos permitem continuar precisamente quando a motivação falha.
Tenho vários papéis na minha vida, sou mãe, filha, companheira, profissional, e a premissa que me guia é sempre a mesma: dar o meu melhor, e não apenas fazer o possível.

“Quais são as principais ambições para a evolução do seu trabalho?

Quero chegar a mais pessoas. Quero ajudar outras mulheres a transformarem-se e contribuir para um movimento real de ação, conquista e transformação, não apenas de intenção. No fundo quero deixar um legado.

Quando trabalhava com idosos, ouvi muitas vezes: “Aproveita a vida, e não trabalhes só.” Essas palavras ficaram comigo e despertaram em mim uma urgência genuína de viver com significado, e de fazer com que aquilo que faço valha verdadeiramente a pena. Foi também por isso que escolhi trabalhar por conta própria: o modelo profissional tradicional limitava a minha liberdade de criar e de ser quem sou.

A afirmação das mulheres nasce de uma necessidade de afirmação ou também de uma vontade de confronto com os homens?

Acredito que nasce, em primeiro lugar, de uma necessidade individual de afirmação, não de confronto. Para mim, a questão essencial é sempre a mesma: as mulheres precisam de se afirmar por aquilo que são e que valem, não em oposição a ninguém.
Quando trabalhei em ambientes tradicionalmente masculinos e conservadores, senti, de forma muito clara, que tinha de provar o meu valor com mais insistência do que seria exigido a um homem na mesma posição. E não fui a única: muitas mulheres em setores predominantemente masculinos sentem que têm de adotar comportamentos mais duros ou mais “masculinos” para serem levadas a sério, como se a sua forma natural de liderar e comunicar não fosse suficiente.

Essa experiência ensinou-me que as mulheres têm de se afirmar. Não é sobre confrontar os homens é sobre reconhecermos o nosso valor, sem termos de nos igualar a ninguém. Não quero ser igual a ninguém. Quero poder afirmar aquilo que sou, ser respeitada pelo meu trabalho e pelas minhas capacidades, sem ter de deixar de ser mulher para isso. Essa é, para mim, a verdadeira afirmação: não precisarmos de nos transformar em alguém diferente para sermos reconhecidas, precisamos ser fiéis a nós próprias.

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