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Aquacultura de nova geração

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A partir do Cadaval, a Baía Impecável está a redefinir os limites da aquacultura europeia ao produzir camarão Litopenaeus vannamei em ambiente totalmente indoor, com controlo biológico e energético de elevada precisão. Num país sem clima tropical e num continente sem histórico consolidado neste modelo, a empresa liderada por Paulo Marques transformou constrangimentos climáticos e económicos em alavancas de inovação, criando um sistema autónomo, replicável e sustentável que dispensa o mar, elimina antibióticos e posiciona Portugal na vanguarda da Economia Azul.

Quais os principais obstáculos climáticos e económicos que a Baía Impecável superou para viabilizar a produção indoor de camarão Litopenaeus vannamei em Portugal, e como isso justificou a certificação como startup pela StartUp Portugal?

Portugal não é território tropical – produzir Litopenaeus vannamei a 28°C em clima atlântico exigiu engenharia de sistemas, não improvisação. O principal obstáculo foi a equação energética: manter temperatura estável no inverno sem inviabilizar o projeto economicamente. A solução passou por uma UPAC de 145 kWp com kit de baterias e biomassa como redundância térmica, reduzindo a dependência da rede e o custo por kg. O mercado europeu carecia de um modelo indoor escalável e replicável – não existia, em toda a Europa, um único benchmark consolidado para esta espécie neste formato. Foi essa inovação de modelo – e não apenas a tecnologia – que sustentou a certificação pela StartUp Portugal: produção definida, autónoma, gerida por dois operários com telemetria e IA, posicionando a Baía Impecável na vanguarda da Economia Azul europeia. O paradoxo que nos define: fazemos aquacultura marinha sem depender do mar.

 

Paulo Marques, CEO

 

Pode detalhar o papel da bateria de areia finlandesa e dos painéis solares no aquecimento eficiente da água a 28 graus, comparando com os sistemas tradicionais de lagoas costeiras que exigem renovação diária de água?

A lógica das lagoas costeiras assenta em renovação diária de água do mar – consumo massivo de recursos hídricos, zero controlo biológico e dependência absoluta do clima. O nosso sistema inverte esse paradigma por completo. Os painéis solares aquecem um acumulador de areia de alta capacidade térmica que aquece o pavilhão de forma contínua e estável – mantendo o ambiente interior nas condições ideais sem aquecimento direto da água. A biomassa funciona em paralelo como redundância, garantindo resiliência em qualquer condição climática. O sistema opera em circuito fechado de água marinha, onde um consórcio de microalgas unicelulares e bactérias é mantido em equilíbrio biológico permanente – regenerando continuamente a qualidade da água sem necessidade de renovação.

De que modo a microalga unicelular introduzida nos tanques não só regenera a água por sete a dez anos, como otimiza o rácio de conversão alimentar para 1,4 kg de ração por kg de camarão, eliminando a necessidade de fármacos?

A essência do sistema: não filtramos a água marinha – transformamo-la. O consórcio de microalgas e bactérias converte amónia (tóxica) em biomassa microbiana e fitoplâncton (nutritivos), sustentando a qualidade da água por 7 a 10 anos sem renovação total.

Nas produções convencionais, a acumulação de compostos nitrogenados obriga ao uso de antibióticos ou troca de água – aqui, isso simplesmente não existe. Os flocos microbianos constituem suplementação proteica contínua in situ, reduzindo a ração exógena necessária – daí o rácio de conversão de 1,4 kg, cerca de 30% inferior à média da indústria. Sem antibióticos, sem hormonas: um camarão limpo, rastreável, alinhado com os padrões mais exigentes da regulamentação europeia.

Quais as vantagens específicas de experimentar larvas de Tenebrio molitor como complemento alimentar, considerando a sua taxa de conversão proteica semelhante à do camarão e a autorização europeia para consumo humano?

A farinha de peixe é o calcanhar de Aquiles da aquacultura global – cara, dependente de stocks selvagens sob pressão crescente e com pegada ecológica insustentável. A proteína de inseto surge como alternativa estrutural: elevada taxa de conversão, perfil de aminoácidos compatível com o L. vannamei, produção controlável em ambiente indoor – sem sazonalidade, sem sobrepesca. Algumas espécies, como o Tenebrio molitor, já dispõem de autorização europeia para consumo humano, facilitando a aceitação regulatória. Produzimos ração de subprodutos orgânicos, integramos o inseto na cadeia de valor e fechamos o ciclo na mesma instalação. Aquacultura de nova geração – resiliente, rastreável e desacoplada das pressões sobre os oceanos.

Como posiciona o camarão fresco da Baía Impecável face às importações asiáticas congeladas, especialmente num mercado europeu em crescimento?

O camarão importado chega à Europa com 3 a 6 semanas de cadeia de frio, proveniente da Ásia e da América Latina, invariavelmente congelado, sem rastreabilidade efetiva e produzido com métodos que destroem ecossistemas de mangal. O nosso produto é estruturalmente diferente – não apenas melhor: fresco, com 24–48h da produção ao ponto de venda, rastreável lote a lote – o consumidor sabe exatamente de onde vem, como foi produzido e em que condições. Sem antibióticos, sem hormonas, em conformidade com as normas europeias mais exigentes: qualidade inequivocamente superior. Num mercado de €6,4 mil milhões com crescimento de 17%, a procura por camarão fresco de origem europeia certificada está estruturalmente subservida. A proximidade geográfica é um argumento de qualidade, sustentabilidade e soberania alimentar – pilares da Economia Azul que a Europa procura consolidar.

Dado o modelo replicável, quais os planos para expandir unidades de engorda juvenil e adulta em locais estratégicos, como entradas de grandes cidades, aproveitando a maternidade central no Cadaval?

A grande vantagem do sistema é a dissociação da produção relativamente ao mar. A maternidade no Cadaval produz juvenis transportáveis e engordados em qualquer ponto do território – inclusive periferias de grandes centros urbanos, onde a distribuição de produto fresco é mais eficiente e os canais HoReCa estão concentrados. O modelo está definido e validado: 4 pavilhões, 2 operários por unidade, telemetria centralizada e IA para otimização do bem-estar animal. A replicabilidade não é uma promessa – é uma consequência da padronização. A expansão natural aponta para Espanha e sul da Europa, aproveitando proximidade e crescente procura por camarão fresco europeu certificado. Cada nova unidade multiplica capacidade sem replicar a maternidade. Este projeto não teria sido possível sem dois pilares fundamentais: o financiamento do MAR2030, através do FEAMPA – num investimento total da ordem dos 3,4M€, com um apoio da União Europeia de 1,6M€, reconhecendo o potencial inovador desta abordagem para a Economia Azul e a aquacultura europeia sustentável – e o apoio determinante da Câmara Municipal do Cadaval e do seu presidente Ricardo Pinteus, que demonstrou visão estratégica ao apostar neste projeto como alavanca de desenvolvimento económico local, posicionando o Cadaval como referência em aquacultura de nova geração.

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