Num país onde o cancro digestivo representa cerca de um terço de todos os diagnósticos oncológicos, a prevenção e o diagnóstico precoce continuam a ser determinantes para salvar vidas. Miguel Afonso, Gastrenterologista e Diretor Clínico da Gastroclinic, alerta para a importância de antecipar a doença através do rastreio e da adoção de hábitos saudáveis, sublinhando que o maior desafio não está na falta de meios, mas na baixa adesão da população às estratégias de deteção atempada.
O cancro digestivo é um problema grave de saúde pública em Portugal, representando cerca de 1/3 de todos os cancros e causando cerca de 10% a 12% da mortalidade oncológica. Que importância pode ter a estratégia de prevenção e de diagnóstico precoce no sentido de mitigar a incidência do cancro digestivo?
A chave está em antecipar. Grande parte do cancro digestivo evolui a partir de lesões que conseguimos identificar e tratar antes de malignizarem. Se diagnosticarmos cedo, mudamos completamente o prognóstico. O problema não é falta de meios – é o atraso no diagnóstico e baixa adesão ao rastreio.

O cancro colorretal é um dos cancros digestivos mais comuns. Que principais medidas deviam ser mais incentivadas, como a realização de colonoscopias, especialmente considerando as recomendações atuais em Portugal para se iniciarem rastreios a partir dos 45 anos?
A colonoscopia continua a ser central. Não é apenas diagnóstico – é prevenção ativa, porque permite remover pólipos no mesmo ato. Iniciar aos 45 anos faz todo o sentido. O maior desafio não é técnico, é garantir adesão ao rastreio atempado.
De que forma a endoscopia digestiva alta se destaca como o exame de eleição no diagnóstico precoce do cancro gástrico na Gastroclinic, permitindo não só a deteção de lesões iniciais como a realização imediata de biópsias e intervenções terapêuticas?
A endoscopia digestiva alta permite visualização direta da mucosa, realização de biópsias e, em muitos casos, intervenção terapêutica imediata. Isso tem impacto direto no prognóstico. Na Gastroclinic, a prioridade é não deixar lesões iniciais por diagnosticar.
Quais os principais fatores de risco das doenças digestivas que a Gastroclinic aborda no seu apoio especializado a pacientes, e como recomenda hábitos preventivos diários para controlo de peso e redução de riscos?
Os fatores de risco são bem estabelecidos: excesso de peso, dieta pobre em fibra e rica em alimentos processados, consumo de álcool, tabaco, sedentarismo e infeção por Helicobacter pylori. A intervenção passa por hábitos consistentes – alimentação equilibrada, controlo ponderal e vigilância clínica adequada.
No âmbito do Mês da Saúde Digestiva, que iniciativas ou mensagens a Gastroclinic pretende reforçar para consciencializar os portugueses sobre a prevenção das doenças digestivas, em geral, e para a prevenção do cancro digestivo, em particular?
A mensagem é clara: não esperar pelos sintomas. Quando surgem, muitas vezes a doença já está numa fase mais avançada. O foco deve ser rastreio, vigilância e modificação de fatores de risco. A prevenção traduz-se diretamente em redução de incidência e mortalidade.






