É difícil traduzir em palavras a exigência física e mental que um piloto sente dentro de um carro de competição. Falo por experiência própria: assim que as mãos agarram o volante e o motor acorda, todos os sentidos ficam em alerta máximo. Mas é na visão que tudo começa. É o olhar atento à próxima curva, à distância dos adversários e às mudanças subtis da pista que nos permite antecipar reações, calcular riscos e definir a melhor estratégia.
Não é por acaso que cerca de 90% da informação recebida por um condutor chega através dos olhos, e é por isso que, para quem compete, perceber e reagir a essa informação é fundamental para a performance (e para a segurança, claro). No automobilismo, não há margem para hesitações. Quando cada milissegundo conta, reagir rapidamente faz toda a diferença, especialmente em condições mais exigentes.

Conduzir, em pista ou fora dela, traz desafios visuais constantes, desde as mudanças de luminosidade até à necessidade de mudar rapidamente o foco entre diferentes distâncias. Não basta ver bem ao longe; é preciso ter uma visão ampla e nítida, perceber o que acontece na periferia, distinguir bem os contrastes e as cores, e conseguir reagir quando algo inesperado acontece, como a travagem brusca de um adversário/outro condutor ou a alteração repentina das condições da pista/estrada.
Mais do que a minha experiência pessoal, os dados confirmam a importância da visão na condução. Um levantamento da Shamir Optical procurou perceber os principais desafios de quem conduz, entre condutores comuns e profissionais. Dos utilizadores de lentes multifocais, 24% disseram que têm dificuldades em alternar o foco de longe para o painel de instrumentos, e cerca de 19% reconhecem limitações no campo de visão ao longe. Para quem compete, as dificuldades crescem com a chuva ou a escuridão, quando as luzes dos adversários e da pista refletem nos pisos molhados, tornando mais difícil perceber distâncias e velocidades.
Comparando lentes desenhadas para condução com lentes comuns, há diferenças claras: o tempo de fixação do olhar foi 16% menor, o que mostra menos esforço para processar informação visual. Já o tempo dos movimentos rápidos dos olhos entre pontos de interesse (os chamados movimentos sacádicos) aumentou 13%, sugerindo mais atenção ao que se passa à volta. As fixações também foram mais rápidas (em 4%), e a sua distribuição 30% superior traduz-se num olhar mais amplo. O campo de visão horizontal cresceu 33% e o vertical 18%, dando ao condutor uma perceção mais abrangente, essencial para antecipar movimentos de outros veículos e obstáculos, especialmente em competição.
Hoje em dia, com a tecnologia óptica a integrar já Inteligência Artificial e análises avançadas de movimento ocular, sinto que investir na performance visual é, cada vez mais, visto como fator-chave para quem quer fazer a diferença nas provas. Se a investigação confirma esse impacto, o meu percurso enquanto piloto também mostra que a visão pode ser aquilo que separa o êxito do erro. Estes fatores não ficam só nos gráficos; sentem-se em cada volta cronometrada, cada ultrapassagem, cada situação de risco.
Quem conduz sabe bem que sentir os olhos cansados ou perder um segundo a ajustar o foco pode ser decisivo. Toda a preparação técnica e física só funciona se tiver o apoio de um sistema visual eficiente, para nos ajudar a antecipar situações e a manter a confiança ao volante. Conduzir bem não é só técnica ou ousadia; é transformar tudo o que vemos em decisões rápidas e seguras. No desporto motorizado, ver bem é mesmo competir melhor.




