Num setor ainda marcado pelo tradicionalismo, Bruna Silva, CEO da Wander Housing, propõe uma nova forma de habitar: flexível, consciente e sustentável. Inspirada por uma transformação pessoal, a marca redefine o conceito de casa como um espaço em movimento, que acompanha as mudanças da vida sem perder o sentido de pertença.
A Wander Housing nasceu num momento de transformação pessoal. De que forma essa experiência influenciou a visão que hoje define o projeto?
A Wander Housing nasceu num momento de transformação pessoal muito marcante, durante o período pós-parto, que me trouxe uma nova perspetiva sobre o que procuro num espaço de habitação. As minhas prioridades mudaram profundamente: passei a valorizar mais o conforto, a funcionalidade e o bem-estar no dia a dia, sem necessariamente me sentir presa a um espaço físico fixo.
Essa experiência levou-me a repensar o conceito de casa, não apenas como um lugar, mas como uma sensação de equilíbrio, liberdade e adaptação às diferentes fases da vida – princípios que hoje estão no centro da visão da Wander Housing.

Fala-nos mais sobre essa tensão que identifica entre liberdade de movimento e necessidade de pertença. Como é que a Wander Housing tenta resolvê-la na prática?
Existe naturalmente uma tensão entre a liberdade de movimento e a necessidade de pertença – queremos explorar, mudar, adaptar-nos, mas ao mesmo tempo precisamos de sentir segurança, identidade e ligação a um lugar. A Wander Housing nasce precisamente dessa dualidade e procura resolvê-la criando espaços que não dependem de uma localização fixa para gerar esse sentimento de “casa”. Na prática, isso traduz-se em soluções habitacionais pensadas para serem flexíveis, confortáveis e emocionalmente acolhedoras, permitindo que as pessoas levem consigo aquilo que realmente importa: a sensação de pertença. Este posicionamento acaba também por refletir – e atrair – uma mentalidade diferente. A Wander não é uma solução para todos, mas para quem procura viver melhor, com maior consciência sobre a qualidade de vida, a escolha dos materiais e o impacto da sustentabilidade no dia a dia. Mais do que um espaço físico permanente, a Wander propõe uma nova forma de habitar – onde a casa se adapta à vida, e não o contrário, conciliando mobilidade com enraizamento emocional.
Que desafios encontrou ao introduzir um modelo industrializado de construção num setor ainda muito tradicional em Portugal?
Introduzir um modelo industrializado de construção num setor ainda muito tradicional em Portugal trouxe vários desafios, sobretudo ao nível da perceção e da confiança. Existe ainda uma forte associação entre construção industrializada e menor qualidade, quando na realidade acontece o contrário: permite maior controlo, precisão e consistência nos resultados.
Outro desafio importante foi a resistência à mudança dentro do próprio setor – desde processos mais burocráticos até à adaptação de parceiros e fornecedores a uma lógica diferente, mais eficiente e planeada. Ao mesmo tempo, há também um trabalho contínuo de educação do cliente final, ajudando-o a compreender as vantagens deste modelo: prazos mais curtos, maior previsibilidade de custos e uma abordagem mais sustentável, com menos desperdício.
Apesar destes desafios, acreditamos que esta transição é inevitável. A Wander posiciona-se como parte dessa mudança, mostrando que é possível construir de forma mais inteligente, sem comprometer a qualidade, o conforto ou a identidade do espaço.
A sustentabilidade é apresentada como um princípio estruturante. Pode dar-nos exemplos concretos de como esta preocupação se traduz nas soluções que desenvolvem?
A sustentabilidade na Wander Housing não é apenas um conceito, mas um princípio que orienta todas as decisões do projeto. Traduz-se, desde logo, na escolha criteriosa de materiais – privilegiamos soluções duráveis, de baixo impacto ambiental e, sempre que possível, de origem responsável. Este pensamento começa logo na fase de projeto de arquitetura, onde as soluções são desenvolvidas tendo em conta as medidas standard dos perfis metálicos.
Isso permite um maior aproveitamento dos materiais, reduzindo cortes, desperdício e promovendo uma utilização mais eficiente dos recursos desde a origem.
Temos também consciência de que o aço é um material com impacto ambiental significativo. No entanto, ao garantir uma durabilidade estrutural de 30 anos, conseguimos diluir a sua pegada carbónica ao longo de um período mais alargado, tornando-o uma solução mais sustentável quando analisada numa perspetiva de ciclo de vida. O próprio modelo de construção industrializada reforça esta abordagem, ao permitir um controlo mais rigoroso dos processos, reduzir significativamente o desperdício em obra e garantir maior eficiência na utilização de recursos.
Ao nível do uso, os espaços são pensados para maximizar o conforto térmico e a eficiência energética, reduzindo a necessidade de consumo excessivo de energia. A flexibilidade das soluções também contribui para a sustentabilidade, ao permitir que a habitação se adapte a diferentes fases da vida, evitando construções descartáveis ou obsoletas. Mais do que cumprir requisitos, procuramos promover uma forma de habitar mais consciente – onde cada escolha, do material ao desenho do espaço, tem impacto na qualidade de vida das pessoas e no equilíbrio com o ambiente.

A adaptabilidade é uma das ideias centrais da Wander Housing. Como funciona, na prática, esta modularidade e de que forma pode responder às mudanças na vida das pessoas?
A modularidade funciona através de uma lógica de unidades base que podem ser combinadas, acrescentadas ou reorganizadas, permitindo criar diferentes configurações de espaço ao longo do tempo.
Na prática, isto significa que a casa pode evoluir com a vida das pessoas. Pode começar como um espaço mais compacto e, à medida que surgem novas necessidades – como o crescimento da família, a criação de um espaço de trabalho ou novas dinâmicas de uso – é possível expandir ou reconfigurar a habitação sem partir do zero.
Esta abordagem não só responde a mudanças funcionais, como também promove uma utilização mais consciente dos recursos, evitando construções excessivas ou substituições desnecessárias. Mais do que modularidade física, a Wander propõe uma nova forma de pensar a habitação: flexível, evolutiva e alinhada com a realidade dinâmica da vida contemporânea, onde a casa deixa de ser um elemento estático para se tornar parte ativa desse percurso.
Olhando para os próximos anos, que papel acredita que a construção sustentável pode desempenhar na resposta à crise habitacional portuguesa?
Só existe crise na habitação porque, em grande parte, há interesse em que ela exista – seja pela inércia do setor, pela especulação ou pela resistência à mudança de modelos já estabelecidos. Quando já existem sistemas industrializados certificados, capazes de responder de forma rápida, eficiente e com elevada qualidade, torna-se evidente que a limitação não é técnica, mas estrutural. Hoje, a construção industrializada permite desenvolver edifícios – inclusive em altura – com elevados padrões de eficiência energética, conforto e otimização de recursos. Estes sistemas garantem maior controlo de qualidade, redução significativa de prazos e uma utilização mais racional dos materiais, tornando a construção mais acessível e previsível. A construção sustentável pode – e deve – desempenhar um papel central na resposta a este problema, mas isso implica repensar profundamente a forma como se constrói e para quem se constrói. Não se trata apenas de aumentar a oferta, mas de criar soluções mais eficientes, acessíveis e alinhadas com as necessidades reais das pessoas. Nos próximos anos, modelos mais inteligentes, como a construção industrializada, terão um papel fundamental ao permitir reduzir prazos, aumentar a previsibilidade de custos e democratizar o acesso à habitação. Paralelamente, a sustentabilidade garante que esta resposta é duradoura, equilibrando impacto ambiental com qualidade de vida. Esta mudança exige também uma nova mentalidade – mais aberta à inovação, à flexibilidade e a formas alternativas de habitar. Projetos como a Wander Housing procuram mostrar que é possível fazer diferente: construir melhor, com mais consciência, e responder à crise não apenas em quantidade, mas sobretudo em qualidade e propósito.






