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Videojogos Made in Açores: A visão de Marco Bettencourt

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A partir de Angra do Heroísmo para mais de 120 países, a Redcatpig desafia a geografia e afirma-se como um dos principais estúdios independentes de videojogos em Portugal. Nesta entrevista, Marco Bettencourt, CEO da Redcatpig, explica como a exigência imposta pela insularidade se transformou numa vantagem competitiva, revela a estratégia que sustenta o crescimento internacional da empresa e reflete sobre o papel dos Açores como novo polo criativo e tecnológico.

A Redcatpig tem conseguido afirmar-se num setor global altamente competitivo. Que fatores considera determinantes para este posicionamento e de que forma a origem açoriana influencia essa trajetória?

Não escondo a origem açoriana, uso-a. Quando dissemos, em 2019, que ia nascer um estúdio de videojogos em Angra do Heroísmo, a reação mais comum foi de estranheza. Fazia pouco sentido no papel: ilha, mercado pequeno, longe de tudo. Foi exatamente essa distância que nos obrigou a fazer as coisas bem desde o primeiro dia, porque não podíamos competir por proximidade, só por qualidade. O KEO nasceu assim e chegou a mais de dois milhões de downloads em 120 países, sem nunca sair da Terceira. Hoje, somos o maior estúdio independente de videojogos em Portugal, com equipas na Terceira, em Lisboa e na Madeira. Os Açores não são um detalhe bonito do nosso discurso de amor ao sítio onde vivemos, é parte da nossa cultura.

 

Marco Bettencourt, CEO

 

Num contexto em que a indústria dos videojogos evolui rapidamente, como define a visão estratégica da empresa para garantir crescimento sustentado e relevância internacional?

A minha visão é simples: continuar a crescer sem perder o controlo sobre o que fazemos bem. Temos dois motores a funcionar em paralelo, o desenvolvimento de PI própria, como o KEO e agora o HoverShock, e o trabalho de co-desenvolvimento para estúdios AAA internacionais. Um financia o risco do outro. Isto dá-nos margem para experimentar sem depender de uma única fonte de receita, o que neste setor pode significar a diferença entre sobreviver a um ano difícil ou fechar portas. Não acredito em crescer por crescer. Prefiro que cada contrato novo, cada projeto novo, reforce a reputação técnica que já temos, em vez de a diluir.

A Redcatpig integra uma equipa com dimensão e diversidade internacional. De que forma essa diversidade contribui para a inovação e qualidade das experiências desenvolvidas?

Temos mais de 40 pessoas, de mais de oito nacionalidades diferentes, a trabalhar a partir de vários países e claro dos nossos escritório em Portugal. Isso muda a forma como se resolve um problema de design ou de código, porque ninguém chega à mesma solução pelo mesmo caminho. Um programador formado na Alemanha e um artista formado no Brasil não veem o mesmo obstáculo da mesma maneira, e é nessa fricção saudável que aparecem as melhores decisões. Não gerimos a diversidade como uma política de recursos humanos. Gerimos como parte do processo criativo, porque um jogo pensado só por pessoas parecidas acaba por parecer só isso, parecido com tudo o resto.

Como é que a empresa equilibra a ambição global com a manutenção de uma identidade ligada aos Açores, e que valor acrescentado resulta dessa ligação ao território?

Não há equilíbrio para gerir, porque nunca tratámos isto como dois lados opostos. A sede continua na Terceira, e é lá que ficam as decisões mais importantes. O facto de termos escritórios em Lisboa e na Madeira, ou de apresentarmos os nossos jogos em stands nos Estados Unidos, no Japão ou na Alemanha, não muda essa morada. O valor que isto traz à região é concreto e vai para além de um postal. Nós estamos a criar postos de trabalho qualificados a partir de uma ilha, formação técnica que fica cá, e a prova de que se pode competir com estúdios de Tóquio ou de Londres sem sair de casa, mesmo que todos nos digam que é impossível.

 

 

O talento é um dos pilares das indústrias criativas. Que estratégias têm sido adotadas para atrair, desenvolver e reter talento, particularmente a partir de uma região ultraperiférica?

A escassez de talento especializado é o maior risco que qualquer estúdio enfrenta, e numa ilha esse risco duplica. Resolvemos isto de duas formas. Primeiro, com um programa de referral interno, em que a própria equipa recomenda pessoas que conhece, porque ninguém filtra melhor um perfil do que quem já trabalha cá. Segundo, apostando fortemente em trabalho remoto e híbrido, o que nos permite competir por talento em qualquer parte do mundo em vez de ficar limitados a quem está disposto a mudar-se para uma ilha no meio do Atlântico. Recebemos cerca de 700 candidaturas nos últimos seis meses. Prevemos chegar aos 100 colaboradores em 2027, partindo dos atuais. Isto acontece porque tratamos a retenção como prioridade de gestão, não como assunto de recursos humanos e as nossas pessoas estão no centro das nossas preocupações.

Na sua perspetiva, que papel pode a Redcatpig desempenhar na consolidação dos Açores enquanto polo emergente nas áreas criativa e tecnológica?

Gostava que a Redcatpig fosse a prova de que se pode montar um negócio de tecnologia e criatividade a sério nos Açores, e não só a exceção que se cita numa conferência. Já fomos citados num relatório da Comissão Europeia sobre ecossistemas de inovação em zonas rurais, e fomos a primeira startup açoriana a entrar no programa ALPHA da Web Summit. Isso interessa-me menos pelo reconhecimento e mais pelo que prova, que dá para construir aqui um estúdio competitivo à escala global. Se outras empresas de tecnologia se instalarem na região por causa disto, o esforço valeu a pena a dobrar.

 

 

Olhando para o futuro, quais são as principais ambições da Redcatpig e que impacto gostaria que a empresa continuasse a ter na projeção internacional dos Açores?

A curto prazo, o foco é o lançamento do HoverShock, o nosso jogo de tiro competitivo em desenvolvimento para PC, previsto para 2027. A médio prazo, quero consolidar a Redcatpig como parceira de confiança para estúdios AAA europeus em co-desenvolvimento, mantendo sempre o desenvolvimento de PI própria como o coração do negócio. O que gostava que ficasse, daqui a dez anos, é que quando alguém em Angra do Heroísmo disser que quer trabalhar em videojogos, isso deixe de soar a piada e passe a soar a plano de carreira.

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