Joana Dias, Board Member e Diretora de Marketing da Longa Vida – Lactalis Nestlé Portugal, fala sobre liderança com propósito, diversidade de perspetivas e a forma como a coragem de inovar ajuda a construir marcas e organizações mais fortes.
Ao integrar recentemente o Board da Longa Vida – Lactalis Nestlé Portugal, que mudança de perspetiva sentiu no seu papel enquanto líder e decisora estratégica?
A maior mudança foi a amplitude do impacto que consigo ter. Enquanto Diretora de Marketing, sempre tomei decisões a pensar no negócio como um todo. O crescimento de uma marca só faz sentido quando cria valor para a empresa. Mas, ao integrar o Board, passei a poder contribuir diretamente para decisões que vão muito para além da minha área de responsabilidade.
Hoje, participo na definição da estratégia da empresa em temas como operações, logística, finanças ou sustentabilidade, procurando sempre ligar diferentes perspetivas em torno de um objetivo comum. É um papel que exige uma visão ainda mais integrada e um equilíbrio constante entre o curto e o longo prazo.
O que mais me entusiasma é precisamente isso: continuar a trazer o olhar do consumidor e das marcas para cima da mesa e promover a discussão estratégica para decisões que ajudam a construir o futuro da empresa de uma forma mais transversal.

Num setor altamente competitivo como o alimentar, de que forma a liderança feminina pode introduzir diferenciação real – quer ao nível da gestão de marca, quer na cultura organizacional?
Acredito que a diferenciação não vem de termos mais mulheres ou mais homens à volta da mesa, vem de termos perfis diversos. Homens e mulheres trazem experiências, formas de pensar e sensibilidades distintas, e isso só enriquece a qualidade das decisões. Mas a diversidade vai muito além do género, também passa pela cultura, pelos percursos, pelas gerações e pelas experiências de vida. Num mundo cada vez mais global, quanto mais diversas forem as perspetivas dentro de uma equipa, maior é a probabilidade de construirmos estratégias mais relevantes e inovadoras.
Curiosamente, na área do marketing acontece muitas vezes o contrário: as equipas são maioritariamente femininas. E também aí acredito que a pluralidade faz falta. Quando gerimos marcas que falam para milhões de consumidores, é importante que quem está a tomar decisões represente essa diversidade. Não queremos equipas que pensem todas da mesma forma, queremos equipas que se desafiem mutuamente e que olhem para os problemas por ângulos diferentes.
No final do dia, é isso que cria melhores marcas e também melhores organizações.
O seu percurso cruza marketing, gestão e agora governação. Que competências considera terem sido determinantes para esta evolução e quais continuam a ser essenciais no contexto atual?
Se tivesse de escolher as competências que mais marcaram o meu percurso, destacaria a curiosidade, a capacidade de adaptação e a vontade de aprender continuamente. Ter trabalhado em categorias tão diferentes ensinou-me que não existem fórmulas universais. O que funciona numa marca ou num mercado pode não funcionar noutro, e isso obriga-nos a questionar, a ouvir e a reaprender constantemente.
A experiência internacional em Espanha também teve um papel muito importante. Trabalhar noutro país permitiu-me contactar com outras formas de liderar, de colaborar e de tomar decisões. Percebi que há diferentes caminhos para chegar a bons resultados e que estar exposto a outras culturas e formas de trabalhar torna-nos mais completos enquanto profissionais. Hoje, num mundo cada vez mais global, acredito que essa capacidade de integrar diferentes perspetivas é uma enorme vantagem.
Hoje, mais do que nunca, estas competências são essenciais. Vivemos num contexto em que tudo muda muito depressa e em que não existem respostas perfeitas. Por isso, acredito que a melhor liderança não é a que tem sempre razão, mas a que mantém a curiosidade para aprender, a capacidade de se adaptar e a coragem para decidir e seguir em frente.
Enquanto Diretora de Marketing de uma marca com forte presença no quotidiano dos consumidores, a Longa Vida, como equilibra inovação com consistência de marca num mercado cada vez mais exigente e volátil?
A categoria dos iogurtes está presente em cerca de 96% dos lares portugueses. Quando trabalhamos numa categoria tão presente no dia a dia das pessoas, temos uma enorme responsabilidade: continuar a mantê-la relevante.
Na Longa Vida, enquanto empresa challenger, acreditamos que a inovação é a melhor forma de o fazer. Não inovamos apenas para lançar novidades, inovamos para responder à evolução das necessidades dos consumidores, desenvolver a categoria e criar mais valor. É por isso que cerca de 35% do nosso investimento é dedicado à inovação. Faz parte do ADN das nossas marcas e da forma como procuramos crescer e diferenciar-nos. Mas inovar não significa mudar tudo. A consistência vem de nunca perdermos de vista aquilo que a marca representa e a necessidade que procura responder na vida das pessoas. O consumidor de hoje já não procura exatamente as mesmas soluções que procurava há dez ou vinte anos, e cabe-nos acompanhar essa evolução. O consumidor não nos pede inovação pela inovação. Pede-nos soluções que façam sentido na sua vida de hoje. Para mim, inovar é precisamente isso: encontrar novas formas de criar valor, acompanhando a evolução das necessidades dos consumidores, sem perder aquilo que fez com que confiassem na marca desde o primeiro dia.
A Joana tem também uma vertente empreendedora. De que forma essa experiência influencia a sua abordagem à tomada de decisão em estruturas corporativas?
Ter criado o meu próprio negócio foi uma experiência que me marcou muito. Enquanto vivi em Espanha, lancei um pequeno e-commerce, muito por vontade de experimentar o empreendedorismo e de perceber como era construir algo de raiz. Foi uma experiência desafiante, porque quando temos um negócio nosso fazemos um pouco de tudo. Aprendemos rapidamente a trabalhar com recursos limitados, a tomar decisões de forma pragmática e a adaptar-nos constantemente. Essa capacidade de fazer mais com menos, continua comigo até hoje. Mas talvez a maior aprendizagem tenha sido outra. Percebi que gosto muito de construir projetos, mas também que gosto de o fazer em equipa. Gosto da dinâmica das multinacionais, da velocidade do FMCG e da possibilidade de trabalhar com pessoas de diferentes áreas e competências para resolver problemas complexos. Essa experiência ajudou-me a perceber onde consigo ter maior impacto enquanto líder.
Hoje acredito que ter passado pelos dois lados, o empreendedorismo e o contexto corporativo, tornou-me uma profissional mais completa. Deu-me uma maior sensibilidade para o negócio, mais pragmatismo e uma enorme capacidade de adaptação, características que procuro levar para qualquer desafio.
Na sua opinião, quais são, ainda hoje, os principais desafios que as mulheres enfrentam em cargos de liderança em Portugal, e que mudanças considera urgentes no tecido empresarial?
Temos assistido a uma evolução muito positiva nos últimos anos, mas continuo a acreditar que um dos maiores desafios está na forma como a maternidade ainda impacta a carreira de muitas mulheres.
Quando uma mulher é mãe, há inevitavelmente um período em que está afastada da empresa. Num contexto em que os mercados, as organizações e as equipas evoluem a um ritmo muito acelerado, esse tempo pode traduzir-se numa sensação de ter perdido acontecimentos, projetos ou oportunidades. E esse impacto continua, na maioria dos casos, a recair mais sobre as mulheres do que sobre os homens. Ao mesmo tempo, acho que é importante mudar a forma como olhamos para esse período. Muitas mulheres regressam com uma enorme vontade de voltar a contribuir e trazem consigo competências que também enriquecem a liderança: maior capacidade de priorização, resiliência, empatia e uma perspetiva diferente sobre o que é realmente importante. A maternidade não diminui o talento; acrescenta experiências que também podem tornar uma líder mais completa. Mais do que criar políticas, o desafio está em mudar mentalidades. Precisamos de organizações que avaliem as pessoas pelo seu potencial e pelo impacto que geram, e não por uma pausa temporária no percurso profissional.
Na Longa Vida, este é um tema que procuramos viver na prática. Temos tido o cuidado de criar condições para que o regresso seja feito de forma gradual e acompanhada, e já tivemos situações em que pessoas foram promovidas mesmo durante períodos de ausência, precisamente porque o foco está no contributo e no potencial, e não apenas na presença contínua. É um tema que levamos com naturalidade e com um espírito muito acolhedor, porque acreditamos que isso faz parte de uma cultura verdadeiramente inclusiva.
Quando conseguimos olhar para o talento desta forma, todos ganham: as empresas, as equipas e as próprias pessoas.
Ao longo do seu percurso, houve algum momento particularmente desafiante que tenha redefinido a sua forma de liderar? Que aprendizagens retirou?
Uma das experiências que mais me marcou foi, sem dúvida, a oportunidade de trabalhar em Espanha durante três anos.
Foi a primeira vez que tive de liderar num contexto diferente, com outra cultura, outra forma de comunicar e outra forma de trabalhar. Apesar da proximidade entre Portugal e Espanha, rapidamente percebi que aquilo que funciona num contexto nem sempre funciona noutro. E isso obrigou-me a ouvir mais, a observar mais e a adaptar a minha forma de liderar.
Sempre acreditei muito na proximidade com as equipas e em construir relações de confiança. Essa convicção não mudou. O que mudou foi perceber que essa confiança se conquista de formas diferentes, consoante as pessoas e os contextos.
Foi uma experiência que me tornou uma líder mais flexível e mais consciente de que liderar não é aplicar uma fórmula. É perceber quem temos à nossa frente e criar as condições para que cada pessoa possa dar o seu melhor. Essa continua a ser uma das aprendizagens que mais levo comigo.
Que conselho daria a uma nova geração de mulheres que ambiciona construir um percurso sólido em áreas como marketing, gestão e liderança executiva?
Diria, antes de mais, para não terem medo de sair da zona de conforto. As maiores oportunidades de crescimento raramente aparecem quando nos sentimos totalmente preparados. São precisamente aqueles desafios que nos dão “borboletas na barriga” que mais nos fazem evoluir.
Também as incentivaria a trazerem mais mundo para o seu percurso. Trabalhar em diferentes categorias, e se possível viver ou trabalhar noutro país, conhecer pessoas com perspetivas diferentes das nossas, tudo isso enriquece muito a forma como vemos o negócio e tomamos decisões. Acredito que é precisamente essa diversidade de experiências que torna as carreiras mais ricas e interessantes, porque nos obriga a sair do automático, a questionar e a continuar a aprender.
Por fim, diria uma coisa que hoje valorizo muito mais do que no início da minha carreira: cuidem também da vossa vida pessoal. Adoro o que faço e sou ambiciosa profissionalmente, mas acredito que só conseguimos estar verdadeiramente bem no trabalho quando existe um equilíbrio com a vida pessoal. A minha família e os meus filhos dão-me esse equilíbrio, ajudam-me a relativizar e são também uma grande fonte de energia para continuar a crescer profissionalmente. Procurem contextos que permitam esse equilíbrio entre desenvolvimento e bem-estar. No fundo, acredito que o sucesso depende muito dessa delicadeza entre ambição e equilíbrio, entre aquilo que queremos conquistar e aquilo que nos mantém bem no caminho.








