O presidente do Chega, André Ventura, criticou no dia 22 de outubro, durante um almoço-debate do International Club of Portugal, subordinado ao tema “Europa e Portugal: a mudança política a acontecer à nossa frente”, a opção de Pedro Passos Coelho de falar publicamente sobre o aborto, considerando que a direita deve ser “estratégica” na escolha dos temas em debate.
“Será que num momento de crise em que as pessoas estão a viver mal, com problemas, não é isto que a esquerda quer que a gente faça? Nós temos que ser estratégicos do ponto de vista daquilo que queremos para o futuro de Portugal”, afirmou Ventura, que disse ter “grande admiração” pelo antigo primeiro-ministro, mas questionou se “será o momento” para colocar o aborto na discussão pública.
O líder do Chega defendeu que os portugueses afetados pelo custo de vida “estão-se nas tintas para o aborto” e querem “ver a sua vida resolvida”, sublinhando que o partido não deve deixar à esquerda temas como o salário mínimo, as portagens ou a idade da reforma. “Eu não aceitarei fazer o jogo que a esquerda quer que nós façamos, que é tornar-nos uma elite minoritária que discute coisas entre nós”, declarou.

Crítica a Montenegro
Na mesma intervenção, Ventura criticou o silêncio do primeiro-ministro, Luís Montenegro, sobre a crise da habitação e os protestos dos últimos dias. “Mas onde é que anda o primeiro-ministro? Nós não sabemos do primeiro-ministro há dias”, questionou, acrescentando: “Para ir à bola aparece, para resolver questões de habitação não aparece”.
O presidente do Chega considerou que esta ausência pode ser “um rastilho” para o escalar da contestação e apelou ao Governo para não pensar que Portugal é “uma espécie de país manso” que poderá “sempre controlar”.

Ventura defendeu ainda que a solução para a habitação passa por criar “confiança no mercado”, com investidores e senhorios dispostos a colocar casas no mercado de arrendamento e com uma justiça mais célere. “Se continuarmos a ter processos que demoram oito anos, 10 anos, 15 anos até estarem resolvidos, nós não temos nenhuma confiança no mercado”, afirmou.
A intervenção de André Ventura no International Club of Portugal deixou duas mensagens centrais: por um lado, uma crítica à oportunidade política do debate sobre o aborto, que o líder do Chega considera desfasado das preocupações imediatas dos portugueses; por outro, um ataque direto à gestão da crise da habitação pelo Governo de Luís Montenegro. Ao colocar a questão da habitação no centro do discurso e ao avisar para o risco de escalada da contestação, Ventura procurou afirmar o Chega como alternativa à direita tradicional, defendendo uma agenda centrada no custo de vida, no mercado de arrendamento e na confiança dos investidores.







