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O progresso só vale a pena quando chega às pessoas

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Quinze anos são tempo suficiente para perceber quanto o mundo mudou. Vivemos uma aceleração tecnológica, atravessámos uma pandemia, assistimos ao regresso da guerra à Europa e enfrentamos alterações climáticas, envelhecimento demográfico e desigualdades cada vez mais marcadas. O maior desafio talvez seja a perda de confiança nas instituições e na capacidade coletiva de construir um futuro melhor.
Portugal tem talento, conhecimento e capacidade para se afirmar no mundo. Tem fragilidades que não podem ser adiadas. Uma economia com baixa produtividade, um Estado lento, assimetrias territoriais, dificuldade em reter jovens qualificados e serviços públicos sob pressão. O país precisa de ambição e continuidade. Não há transformação séria quando cada ciclo político interrompe o anterior e recomeça tudo.
Precisamos de um compromisso nacional de longo prazo. Crescimento económico, inovação e competitividade são indispensáveis, mas não constituem fins em si mesmos.

 

Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos

 

 

Devem traduzir-se em melhores condições de vida, igualdade de oportunidades, proteção dos mais vulneráveis e confiança no futuro. Uma sociedade não se avalia apenas pelo que produz. Avalia-se também pela forma como cuida dos seus.
A saúde é um exemplo claro. Não é apenas uma área da despesa pública. É uma infraestrutura do desenvolvimento, do investimento, da coesão social e da democracia. Um país em que a qualidade dos cuidados depende do local onde vive, dos recursos de cada família ou da capacidade de cada pessoa se orientar num sistema complexo está a aceitar uma desigualdade profunda.
Reformar a saúde não pode significar tratar menos pessoas, impor cortes cegos ou multiplicar anúncios. Exige organização, governação clínica, avaliação de resultados, reforço dos cuidados de saúde primários, valorização dos profissionais, prevenção e literacia. Exige também libertar médicos e outros profissionais de burocracias inúteis, devolvendo o seu tempo ao que importa. Escutar, diagnosticar, tratar e acompanhar cada doente com qualidade, segurança e humanidade.
A inovação oferece-nos uma oportunidade extraordinária. A Inteligência Artificial, a medicina de precisão, o uso responsável dos dados e a investigação podem melhorar diagnósticos, personalizar tratamentos e tornar os sistemas mais eficientes. Mas a tecnologia deve servir a pessoa, não afastá-la. Nenhum algoritmo substitui a responsabilidade clínica, a confiança ou o encontro humano entre quem sofre e quem cuida. O progresso só merece esse nome quando é ético.
Precisamos de uma nova cultura de liderança. Liderar não é ocupar um cargo, é mobilizar pessoas e assumir responsabilidade. É saber ouvir sem confundir diálogo com indecisão. É construir consensos sem abdicar da coragem de escolher. Portugal tem demasiadas vezes confundido prudência com imobilismo.
Num mundo interdependente, nenhum país se protege sozinho. Pandemias, ameaças ambientais, desinformação e crises humanitárias ignoram fronteiras. Portugal deve afirmar-se pela ciência, cooperação, solidariedade e defesa da dignidade humana. A visão de Uma Só Saúde (One Health), que integra saúde humana, animal e ambiental, deve orientar decisões concretas.
A medicina ensina-nos que o futuro não se constrói apenas com conhecimento. Constrói-se com confiança, responsabilidade e esperança. Portugal pode ser mais inovador, justo e desenvolvido.

Esse futuro só dependerá de nós.

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