No coração de Braga, a Sé Catedral ergue-se como um templo de fé e beleza intemporal, onde cada pedra, cada órgão, cada relíquia conta séculos de devoção e arte. O Cónego José Paulo Abreu, Deão do Cabido, revela nesta entrevista o quotidiano de preservação e celebração de um dos mais emblemáticos monumentos nacionais – um espaço onde o sagrado e o humano se fundem, e onde a espiritualidade, a cultura e o turismo se encontram para projetar a cidade e o país no mundo.
Como descreve a experiência espiritual e artística que um visitante encontra ao percorrer os diferentes espaços da Sé de Braga, do Coro Alto ao Tesouro-Museu?
Visitar a Sé é, antes de mais, um mergulho no sagrado, na transcendência, com maior ou menor fé, conforme a conceção de primazia ao crente ou ao turista, sendo que os dois níveis tendem a fundir-se. No seu estilo românico, parca em luminosidade, a Catedral começa por convidar ao recolhimento. Mas uma vez afeiçoados a esse clima intimista, o espírito vai-se abrindo às maravilhas da criação humana, na capela-mor e cadeiral do cabido, na Capela do Santíssimo, no retábulo de S. Martinho de Dume, na Pia batismal (renascentista e magnífica); a subida ao coro alto é um deslumbre, pela beleza do cadeiral, das pinturas e, sobretudo dos órgãos de tubos (estes em número de cerca de 4 000) que, quando ditam de sua justiça, elevam os ouvintes à maior das belezas. Visitando o Museu, a história da Arquidiocese de Braga fica conhecida, através da lente privilegiada dos Arcebispos da Arquidiocese.

De que forma o Cabido e a Diocese têm trabalhado para preservar, restaurar e valorizar o património material e imaterial da Sé ao longo dos últimos anos?
O Cabido cuida zelosa e diariamente da Catedral, fazendo jus à administração ordinária que lhe cabe, não poupando em despesas e recursos humanos para que tudo se mantenha em pleno e digno funcionamento, além de bem conservado. Na preservação e valorização do património articula-se com o Ministério da Cultura e os seus ramais, uma vez que a Catedral está classificada como Monumento Nacional. Os grande monumentos são sempre grandes maravilhas e grandes tormentos. Há sempre coisas a reparar, elementos em degradação, investimentos a fazer, vigilâncias a efetivar, inovações a acolher. Um grande monumento é uma canseira diária, pelo edificado, por quem o procura (com as suas expetativas e exigências).
Que importância atribui à integração da Sé Catedral de Braga em iniciativas editoriais e culturais que visam unir arte, património e empreendedorismo?
O Cabido, gestor direto da Catedral, tem no seu Estatuto a preocupação pelo cultural. Daí que, dentro dos seus parcos recursos, incentive e acolha concertos, investigações e publicações, atividades turísticas, tertúlias, conferências, colóquios, ações de sensibilização ou formação em torno do património. Têm os capitulares noção da importância da divulgação, das publicações, dos mass media, agora também das vias digitais. E sabe que com esses recursos, a Sé fica mais próxima e é visitada por cada vez mais por turistas/peregrinos, vindos de todo o mundo. Essa mole imensa de turistas certamente traz benefícios a todos, dos transportes, à restauração, do comércio à indústria, da cidade à mundividência de cada um dos cidadãos.
Considera que o turismo religioso e cultural que afluí a Braga está hoje mais consciente da dimensão histórica e espiritual da Sé? Que sinais observa dessa mudança?
A Sé aparece como primeiro momento de visita para muitas das empresas turísticas e para muitos turistas. Sabêmo-lo. A Catedral põe-nos no início da nacionalidade, nas lutas pela independência do país que somos, nas afirmações de Braga como diocese metropolita, no processo de reconhecimento de Portugal como nação independente e de D. Afonso Henriques como primeiro rei. E temos na catedral, sepultados, o conde D. Henrique e D. Teresa, além da guarida fúnebre que no templo se dá a outros ilustres personagens da nossa história, eclesiásticos e civis. Mais ainda: dentro da catedral temos nacos de história que precedem a nacionalidade. Tudo isso se vai contando, em visita, de modo que a viagem que a Catedral oferece é longa e riquíssima. Traz-nos aos dias de hoje. Mas começa no que é “mais velho que a Sé de Braga”.



Entre as histórias e relíquias guardadas na Catedral e no Tesouro-Museu, quais destacaria como símbolos maiores do legado religioso e artístico de Braga?
Há quem escolha a cruz que esteve na celebração da primeira missa, no Brasil; para outros, são interessantes os sapatos, com tacão muito alto, que serviam para aumentar a estatura de D. Rodrigo de Moura Telles; há quem goste do túmulo paleocristão de S. Martinho de Dume (peça mais antiga do Museu da Sé); por todo o mundo são conhecidos o Cálice de S. Geraldo (referência da ourivesaria) e um cofre em marfim (árabe); na escultura sobressai a imagem de Nª S.ora do Leite (primeira imagem concebida do período do renascimento); na tumulária jacente merece referência o túmulo de D. Gonçalo Pereira. Deste mesmo Arcebispo, agora falando do têxtil, conservam-se (verdadeira relíquia) as suas luvas e mitra. Mas o Tesouro/Museu da Sé deslumbra por tudo o mais que é ourivesaria e têxtil. Se quisermos voltar ao interior da catedral, valerá a pena que nos detenhamos, extasiados, diante do retábulo do SS.mo Sacramento, onde nos é oferecido um painel com o Trinfo da Eucaristia – obra de Miguel Coelho; o frontal do altar-mor, que é o que restou do grande retábulo que D. Diogo de Sousa mandou fazer para a capela-mor; uma pia batismal do tempo do renascimento e – com toda a imponência que o barroco oferece, com toda a teatralidade, com toda a riqueza – podemos deslumbrar-nos com o coro-alto, o cadeiral em pau santo, os órgãos de tubos ibéricos, dois, um de cada lado, majestosos, e uma visão panorâmica sobre o corpo da catedral, mais as pinturas onde se refere que “nunca tal assim pudera ser visto e ouvido”.
Que mensagem gostaria de transmitir aos leitores da Revista Business Portugal sobre o papel da Sé como ponte entre fé, cultura e desenvolvimento social?
A Arte é beleza que nos eleva. É mensagem. É reflexo do melhor que as criaturas humanas são capazes de conceber. O impacto que a arte religiosa tem é enorme. Não se pode conhecer a cultura de um povo sem esta vertente do espírito, das crenças, da elevação ao alto, da aspiração ao infinito, da busca do transcendente. Os humanos não são terráqueos de asas partidas. Nasceram para voar, sonhar, extasiar-se, contemplar. Muitas vezes ouvimos dizer – e concordamos – que a arte religiosa é um enorme púlpito, onde a mensagem de Deus se revela. E – curioso – nos dias de hoje, muitos apenas conseguem ouvir a voz do transcendente que ecoa na arte. Também se diz (recordamos S. Gregório Magno ou S. João Damasceno) que a arte é Bíblia sem palavras, catecismo sem letras, uma Bíblia para os não letrados.





