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O propósito da arquitetura no bem-estar

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Lúcia Vaz Pato é Arquiteta e tem construído um percurso marcado pelo cruzamento entre arquitetura, design, investigação e impacto social. Nesta entrevista, aborda a aproximação à Neuroarquitetura e a forma como o conhecimento científico pode contribuir para uma arquitetura mais consciente e centrada nas pessoas.

O seu percurso na arquitetura tem sido marcado por uma abordagem multidisciplinar e, mais recentemente, por um envolvimento crescente com a Neuroarquitetura.  O que a levou a aproximar-se desta área e de que forma veio transformar a sua visão sobre o papel da arquitetura na vida das pessoas?

A aproximação à Neuroarquitetura começou com uma dúvida muito concreta da minha prática: a insegurança na escolha das cores para os meus projetos. Procurei formação complementar e foi nesse contexto que ouvi falar desta área.  Fiquei curiosa com a possibilidade de aprofundar as evidências científicas que sustentam algumas das boas práticas que a arquitetura explora empiricamente há décadas. A investigação ajuda-nos a compreender melhor essas respostas.

Foi fascinante descobrir o crescente conhecimento sobre a relação entre o ambiente construído, a percepção e o comportamento.

Não diria que a Neuroarquitetura transformou a minha visão sobre o papel da arquitetura; antes, completou-a e fortaleceu uma convicção que já existia: a arquitetura influencia profundamente a vida quotidiana, positiva ou negativamente. Para mim, o valor deste conhecimento está precisamente em informar o processo criativo sem o limitar, permitindo decisões mais conscientes e fundamentadas, sem perder a dimensão cultural, sensível e criativa da arquitetura.

 

Lúcia Vaz Pato, Arquiteta

 

 

A Neuroarquitetura procura compreender de que forma os espaços influenciam as emoções, o comportamento e o bem-estar. Na sua prática profissional, que princípios considera fundamentais para criar ambientes verdadeiramente centrados nas pessoas?

Para mim, o primeiro princípio é aprofundar o conhecimento sobre “o outro”: quem vai usar, viver, sentir e atravessar o espaço. Isso implica observar, escutar e compreender necessidades, comportamentos, limitações e expectativas, mas também procurar conhecimento científico que nos permita perceber de que forma determinadas características do ambiente influenciam a nossa experiência. É aqui que o evidence-based design assume particular importância na minha prática. Cor, luz, proporções, acústica, materiais, relação com a natureza, mobilidade ou orientação espacial não são apenas opções estéticas ou funcionais: podem influenciar a percepção, o comportamento e o bem-estar. Nos projetos da CAuSA, esta abordagem é evidente. O Dar Cor, Prémio BPI Sénior 2023, explorou o papel da cor na vida quotidiana de idosos institucionalizados. O Percursos de Cor, apoiado pelo Portugal 2030, através da Portugal Inovação Social 2030, aprofunda essa abordagem com estratégias de cor, wayfinding, design biofílico, design ativo e iluminação, através de uma metodologia multidisciplinar. É nesta relação entre conhecimento científico, contexto, experiência humana e criatividade que encontro hoje grande parte do sentido da minha prática.

Ao longo do seu percurso, tem desenvolvido projetos que cruzam arquitetura, design de interiores, investigação e impacto social. Como esta abordagem se traduz na sua prática profissional e quais os projetos que melhor representam hoje a sua visão de arquitetura?

A minha prática profissional, paralela à coordenação da CAuSA, sempre foi multidisciplinar. Não vejo arquitetura, design de interiores, iluminação, mobiliário ou comunicação como áreas estanques, mas como diferentes ferramentas para responder às necessidades de quem utiliza os espaços.

Entre 2011 e 2017, no Brasil, trabalhei com a consagrada realizadora e cenógrafa Bia Lessa, desenvolvendo projetos para museus e exposições, experiência que me ensinou muito sobre narrativa, percepção e a capacidade transformadora dos espaços. Desenvolvi também projetos de interiores, iluminação, mobiliário e identidade para diferentes clientes, entre os quais a Poças e a Cauny, além de intervenções em edifícios classificados e património.

Mais recentemente, a CAuSA acrescentou uma dimensão particularmente significativa: a arquitetura como instrumento de impacto social. O Dar Cor foi o primeiro projeto em que testámos, num contexto real, como determinadas decisões de desenho poderiam contribuir para o bem-estar de pessoas idosas institucionalizadas. O Percursos De Cor representa hoje um aprofundamento dessa investigação, através de uma abordagem baseada em evidência e de uma colaboração entre arquitetura, neurociência e terapia ocupacional.

São experiências muito diferentes, mas com um princípio comum: compreender profundamente o contexto e as pessoas antes de desenhar a resposta.

 

Centro de Visitas das Caves Poças Junior | Foto Créditos: João Ferrand

 

A presença feminina tem vindo a ganhar expressão na arquitetura, no design de interiores e nas áreas relacionadas com a Neuroarquitetura. Que importância atribui à diversidade de perspetivas na transformação destas áreas e que conselho deixaria às novas gerações de profissionais?

Não sei se a crescente presença de mulheres na Neuroarquitetura corresponde a uma tendência específica, e talvez não seja essa a questão mais importante. Para mim, qualquer profissional que desenhe espaços deve procurar compreender o impacto das suas decisões sobre as pessoas, independentemente da especialização ou género.

As proporções, a iluminação, a relação com a natureza, a mobilidade, a orientação, a acústica e os materiais influenciam a forma como percebemos e utilizamos os ambientes e podem ter impacto no bem-estar. Recordo uma frase do meu professor, o Arquiteto Manuel Vicente, que dizia haver um projeto que jamais aceitaria: desenhar uma prisão. Aquela afirmação fez-me questionar profundamente o papel do arquiteto. Hoje compreendo ainda melhor a razão daquela inquietação e a sua dimensão social e política.

Às novas gerações diria: não procurem apenas um “rótulo”. Procurem conhecimento, mantenham a curiosidade e questionem aquilo que fazem. A arquitetura é uma profissão criativa, mas também uma profissão de enorme responsabilidade. E, sobretudo, não percam de vista as pessoas para quem estão a desenhar, que nem sempre é o cliente que nos contrata.

 

Utentes do Centro Social do Orvalho participam no projeto Dar Cor Foto Créditos: Proj. Dar Cor – Prémio BPI, Fundação La Caixa, Sénior 2023

 

O projeto Percursos De Cor está atualmente em implementação e representa uma nova etapa no trabalho que tem vindo a desenvolver. Que futuro imagina para esta abordagem e que projetos gostaria de desenvolver nos próximos anos?

O projeto Percursos De Cor permite aprofundar, durante três anos e num contexto real, uma abordagem iniciada com o Dar Cor. Estamos no primeiro ano de implementação e, para além da transformação física dos espaços, desenvolvemos uma avaliação pré e pós-intervenção com uma equipa multidisciplinar que envolve neurociência, investigação em iluminação, arquitetura, terapia ocupacional e profissionais de cuidados. Gostaria que este conhecimento não ficasse limitado a um único projeto. Um dos objetivos é perceber como esta metodologia pode ser replicada e adaptada, particularmente em espaços destinados ao envelhecimento e aos cuidados. Mas não quero que fique confinada à terceira idade. Compreender a relação entre ambiente construído e funcionamento humano pode enriquecer a arquitetura de escolas, habitação, espaços de trabalho, saúde e muitos outros contextos. No futuro, gostaria de continuar a cruzar prática profissional, investigação e impacto social, sem que a evidência científica substitua a qualidade arquitetónica. O objetivo não é criar uma “arquitetura neuro” como nova linguagem estética, mas utilizar melhor o conhecimento que temos para fazer arquitetura mais consciente, humana e responsável.

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