O Cella Bar nasceu de uma ausência e tornou-se presença incontornável: entre arquitetura, paisagem e hospitalidade, o projeto de Filipe Paulo, Fábio Matos e Mauro Fernandez ajudou a projetar o Pico para o mundo, sem nunca deixar de pertencer ao lugar que o moldou.
De que forma é que o Cella Bar conseguiu transformar uma intervenção arquitetónica em linguagem de marca, tornando-se simultaneamente um espaço de hospitalidade e um símbolo da identidade do Pico?
Não partimos de uma marca, partimos de uma falta. Ao voltar de Lisboa ao Pico, faltava aqui um sítio para conversar com calma, beber um copo e comer com cuidado. Demos carta branca ao arquiteto, sem conceito fechado, e nasceu um volume que cada pessoa descreve à sua maneira: um barco, uma baleia, uma pipa de vinho. Essa ambiguidade tornou-se a nossa assinatura, mais fácil de fixar do que um logótipo. A garrafeira, as janelas viradas ao mar e a madeira deixada à vista falam antes de qualquer palavra. No fundo, atualizámos a velha tradição açoriana de receber à volta de um copo, numa adega.

Que papel tiveram a paisagem, o mar, o vinho e o basalto na construção da proposta estética e emocional do Cella Bar, como é que esses elementos reforçam a autenticidade açoriana da marca?
Nada disto faria sentido noutro sítio. O Cella foi pensado à medida daquela costa, com a montanha atrás e o canal para o Faial em frente. O basalto, na velha casa recuperada, prende-nos à ilha; a madeira de criptoméria, uma árvore daqui, cresce no corpo novo e envelhece à vista. O mar entra pela vista e pela memória de quem sabe que o Atlântico tanto dá como tira. Em 2017, uma ondulação invulgar fez estragos, mas a estrutura aguentou, porque foi pensada para isso. O vinho fecha o conjunto: a forma lembra pipas e a garrafeira começa pelos vinhos do Pico. A autenticidade não se declara, pertence ao lugar.
O reconhecimento internacional do Cella Bar ajudou a colocar a ilha do Pico nas bocas do mundo. Que impacto concreto é que essa visibilidade teve para a notoriedade dos Açores enquanto destino de excelência?
O prémio da ArchDaily, em 2016, mudou a escala da conversa. As imagens do bar da Barca correram a internet e chegaram a quem nem situava o Pico no mapa. O efeito mais concreto vê-se na razão por que as pessoas vêm: antes subia-se a montanha, hoje há quem venha de propósito conhecer o Cella e descubra depois as vinhas de lajido, o canal para o Faial, o queijo, o peixe. Quando um lugar dos Açores entra nessas listas, arrasta atenção para os outros. A nomeação recente para as Novas 7 Maravilhas de Portugal trouxe esse reconhecimento de volta a casa, à escala do país.

Passados anos sobre a sua abertura, o que é que o Cella Bar representa hoje: um caso de sucesso da arquitetura contemporânea, um negócio de hospitalidade ou uma nova forma de afirmar a cultura e o território açorianos?
É as três coisas, e seria pouco honesto escolher só uma. Como arquitetura, continua a estudar-se e a visitar-se, e a obra aguenta o olhar atento. Como negócio, paga as contas e emprega gente da ilha, e só se sustenta se as pessoas voltarem. Mas a parte que mais nos diz respeito é outra: aos poucos, o Cella tornou-se uma espécie de sala de visitas do Pico, que recebe quem chega de fora e serve também a comunidade. Não gostamos da palavra ícone. Preferimos um sítio que pertence a este lugar e que, por isso mesmo, interessou ao resto do mundo.








