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O desafio de cultivar o sucesso na agricultura

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Na região Oeste, a Agro-Sucesso destaca-se como um exemplo de resiliência e inovação no setor agrícola. Sob a liderança de João Lourenço, a empresa tem vindo a afirmar-se como uma referência na produção hortícola, combinando tradição e tecnologia para impulsionar a qualidade e a sustentabilidade. Em entrevista, partilha a história da empresa, os desafios enfrentados num setor em constante evolução e a sua visão para o futuro da agricultura em Portugal.

 

 

João Lourenço, Administrador da Agro-Sucesso

 

Desde cedo, João Lourenço percebeu que o seu futuro seria ligado ao trabalho prático. “Não quis seguir um percurso académico, queria começar a trabalhar, e como os meus pais já tinham um negócio, acabei por segui-lo”, revela. O envolvimento com o negócio familiar – Luís Lourenço – centrada na comercialização, despertou o seu interesse pela produção agrícola. Em 2018, o agricultor decidiu expandir o negócio, criando a Agro-Sucesso, uma nova empresa focada exclusivamente na produção.

A liderança de João Lourenço trouxe uma maior especialização ao negócio, priorizando a eficiência e a clareza estratégica. “Como gosto muito do que faço, a missão passou também a ser crescer e desenvolver esta área. Quanto mais crescemos, mais necessidade temos de continuar a crescer”, explica. Contudo, sublinha que o crescimento empresarial vai muito além da produção. “Ser empresário agrícola não se trata apenas da produção, mas também da gestão. Muitas vezes, as pessoas desvalorizam esta parte, mas acredito que o mais importante de uma empresa não sou eu – é o escritório”.

Para o CEO, a boa gestão financeira e administrativa é crucial para o sucesso e a sustentabilidade do negócio. “Se o escritório não souber fazer contas corretamente, posso pensar que estou a fazer um grande negócio quando, na verdade, estou a perder dinheiro diariamente”, alerta. O crescimento da Agro-Sucesso tem sido sustentado pela colaboração com uma equipa dedicada e parceiros sólidos. “Temos bons parceiros, bons colaboradores e uma equipa que considero essencial”, conclui João Lourenço, cuja abordagem tem consolidado a empresa como uma referência no setor agrícola.

 A mentalidade competitiva e a falta de mão de obra qualificada

O setor agrícola tem vindo a transformar-se, mas a escassez de profissionais qualificados continua a ser um entrave ao crescimento sustentável das empresas. “Nos períodos de maior trabalho, a falta de mão de obra qualificada recai sobre os patrões, que ficam subcarregados e sem horário de saída. É uma rotina cansativa, mas é a realidade”, enfatiza. A operação de máquinas agrícolas exige conhecimento técnico e de responsabilidade, mas nem sempre é fácil encontrar profissionais dispostos a assumir essas funções. Além disso, a mentalidade dominante no mercado de trabalho ainda não acompanha as necessidades das empresas. “Vejo que há uma mentalidade difícil de mudar. Muitas pessoas estão mais preocupadas com o que os outros ganham do que com o que podem fazer para ajudar a empresa a crescer”, analisa. Para João Lourenço, a dedicação ao trabalho deve ser valorizada e recompensada, mas o sucesso só é possível quando há um esforço conjunto e compromisso de toda a equipa. “Não basta um bom desempenho individual, é fundamental o esforço conjunto”, destaca.

A média de idades dos trabalhadores agrícolas reflete a dificuldade em atrair novas gerações para o setor. Na Agro-Sucesso, a equipa inclui jovens entre os 25 e os 40 anos, mas há uma lacuna de experiência que dificulta a transmissão de conhecimentos. “As gerações mais velhas têm uma ética de trabalho mais rigorosa, enquanto as mais novas nem sempre lidam bem com a pressão e exigência. Trabalhar na terra não é mal remunerado, nem considero um trabalho especialmente pesado, mas há quem prefira não se esforçar”, observa.

Para mitigar as dificuldades, aposta na formação e na promoção de uma cultura do trabalho sólida. “A educação e o compromisso são essenciais. Tento passar essa mensagem diariamente, porque o dinheiro e prestígio vêm com o trabalho árduo de toda a equipa e a consistência”, defende.

 

 

 

A regulação dos preços

Um dos maiores desafios enfrentados pelos agricultores é a falta de regulamentação no mercado interno. João Lourenço defende a implementação de medidas que garantam maior equilíbrio e transparência no mercado: “Em janeiro, a diferença no preço da couve-lombarda chegou a ser de 600% entre o valor pago ao produtor e o valor final na prateleira. Se o agricultor tivesse um preço mínimo fixo de venda, teria a garantia de que nunca venderia abaixo desse valor”. Esta medida permitiria uma distribuição mais justa dos ganhos ao longo da cadeia de valor, beneficiando tanto produtores como consumidores.

A falta de regulação permite que intermediários, especialmente as grandes superfícies, obtenham margens de lucro elevadas, enquanto os produtores continuam a enfrentar dificuldades financeiras. “Se houvesse uma distribuição mais justa dos lucros, o setor agrícola seria muito mais sustentável. Se os grandes distribuidores tivessem uma margem de 100% e os agricultores também recebessem uma parte justa, isso equilibraria o mercado”.

Também a sustentabilidade das empresas agrícolas está diretamente ligada à capacidade de investimento e gestão financeira. “Com uma caneta na mão, sou um herói – consigo negociar crédito e avançar com projetos. Mas qualquer empresa que queira crescer precisa do apoio da banca”, refere o proprietário. No entanto, destaca que o sucesso não depende apenas do investimento, mas da capacidade de adaptação ao mercado. “A minha prioridade não é ter o melhor carro ou o melhor trator, mas sim garantir que a minha empresa gera lucro e que os meus parceiros e colaboradores também ganhem dinheiro”.

As alterações climáticas

O impacto das mudanças climáticas no setor agrícola é inegável, afetando desde os períodos de colheita até à competitividade no mercado internacional. “Antes, os países da União Europeia que não tinham condições climáticas para produzir alguns produtos dependiam das nossas exportações. Atualmente, esses países começaram a conseguir produzir internamente”, afirma.

Além disso, a concorrência de mercados como o Egito e a África do Sul tem alterado o panorama das exportações. “Em Portugal, há produtos proibidos há mais de 20 anos, mas nesses países vale tudo. Como é possível que eu, enquanto produtor, não possa utilizar certos produtos, mas depois seja permitido importar mercadorias de países onde não há restrições semelhantes?”, critica.

A região oeste, onde opera a Agro-Sucesso, apresenta condições climáticas que influenciam a produção agrícola. “A nossa zona é marcada pela presença frequente de nuvens e neblinas matinais, o que pode durar o dia todo. Isso afeta diretamente a produtividade de algumas culturas”, refere. Apesar desses desafios, considera que as condições climáticas da região são favoráveis para determinados tipos de cultivo. “Não há melhor zona no país para a produção hortícola do que os concelhos da Lourinhã e de Peniche. Aqui, as temperaturas não são extremas, nem demasiado quentes nem demasiado frias, o que é fundamental para manter a qualidade dos produtos”.

O investimento em gestão de recursos hídricos tem sido uma prioridade para conseguir lidar com os desafios impostos pelo ambiente: “Já temos tudo planeado para garantir que não teremos problemas de abastecimento de água nos próximos dez anos”. Contudo, se a produção aumentar, será necessário um novo planeamento para garantir a sustentabilidade a longo prazo.

 

 

 

O problema estrutural do setor

João Lourenço é crítico em relação às políticas públicas para o setor agrícola em Portugal, apontando para a burocracia associada aos incentivos agrícolas como um dos principais entraves ao desenvolvimento sustentável do setor: “As regras que temos deviam ser mais eficientes. Os incentivos existem, mas os processos são lentos e burocráticos”.

Outro problema identificado é a falta de acompanhamento adequado aos jovens agricultores. “Houve um boom de jovens agricultores no tempo de Sócrates, mas muitos faliram porque não tinham bases para se manter no setor”, recorda. Para o agricultor, é essencial que os apoios sejam direcionados para quem tem conhecimento e estrutura no setor.

 

 

 

 

O futuro

Entre os desafios mais complexos enfrentados por João Lourenço está o equilíbrio entre a vida profissional e familiar. “Desde o início, o meu maior desafio não foi o trabalho em si, mas sim gerir a minha vida pessoal com o trabalho”, confessa. O empresário admite que ainda não encontrou uma solução ideal para este dilema: “Tenho duas opções: ou reduzo a carga de trabalho e os investimentos começam a tornar-se mais pesados, ou mantenho este ritmo por mais um ou dois anos e tento equilibrar as coisas”.

Apesar das dificuldades, acredita que o futuro da agricultura portuguesa depende de mudanças estruturais profundas. Desde uma regulamentação mais justa até ao incentivo à inovação tecnológica e à formação qualificada dos trabalhadores, há muito por fazer para garantir a sustentabilidade do setor. “O que falta é conhecimento e humildade”, explica. Para isso, é essencial que haja um compromisso de todas as partes envolvidas – produtores, distribuidores e decisores políticos – na construção de um modelo mais sustentável e justo para o setor. “O verdadeiro sucesso vem do trabalho constante e da paixão pelo que se faz”, remata.

A história de João Lourenço é um testemunho inspirador da resiliência necessária para prosperar num setor tão exigente como a agricultura. A Agro-Sucesso é mais do que uma empresa, é um exemplo de como visão estratégica, dedicação e inovação podem transformar desafios em oportunidades.

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