No âmbito do Dia Internacional da Mulher, conversámos com Nassrin Majid, Diretora-Geral da ConsumerChoice, sobre os desafios, conquistas e responsabilidades da liderança no feminino num contexto empresarial cada vez mais exigente. Numa reflexão que cruza experiência, visão estratégica e impacto, destaca o papel das mulheres na construção de organizações mais conscientes, próximas e orientadas para o consumidor.
Enquanto líder da ConsumerChoice, que desafios e responsabilidades sente que são específicos – ou particularmente exigentes – para uma mulher em posições de liderança nos dias de hoje?
O desafio mais exigente para uma mulher em liderança continua a ser afirmar competência enquanto gere perceções. Não é apenas executar bem, é fazê-lo sob uma lente mais exigente. Ser mulher e líder é um exercício de equilíbrio permanente. Entre firmeza e perceção. Entre ambição e expectativa externa. Ainda existe uma régua invisível que mede não apenas o que fazemos, mas como o fazemos. O tom de voz, a postura numa negociação, a forma de decidir tudo é analisado com maior detalhe.
Ao longo do percurso, percebi que muitas vezes não é a decisão que está em causa, mas o enquadramento que lhe é dado. E essa consciência obriga-nos a liderar com clareza redobrada, antecipando não apenas resultados, mas perceções. A responsabilidade adicional é saber que, muitas vezes, representamos mais do que a nossa função. Representamos uma referência. Sou mãe e sou líder. E aprendi que, em ambos os papéis, decidir implica firmeza e consciência do impacto. Em casa e na organização, liderar é preparar outros para crescer com autonomia.
O desafio maior não é a competência. É a legitimidade. E essa constrói-se com consistência nos resultados, na visão e nos princípios. Na ConsumerChoice, essa visão moldou a cultura: rigor metodológico aliado a responsabilidade humana. Porque liderança não é apenas decidir é assumir o efeito das decisões nas pessoas.
Num panorama onde as mulheres representam metade da força de trabalho, mas são escassas nos cargos de topo, como promove uma cultura inclusiva?
Promovo essa cultura criando critérios claros de mérito e avaliando impacto real, não presença simbólica. A representatividade feminina continua aquém do desejável porque muitos modelos de progressão ainda privilegiam disponibilidade permanente em vez de resultado estratégico. Na ConsumerChoice valorizamos entrega, responsabilidade assumida e capacidade de decisão. Não promovemos perfis por visibilidade, mas por impacto.
Acredito em meritocracia, mas uma meritocracia ativa. Já acompanhei profissionais altamente competentes que precisavam apenas de contexto e confiança para afirmar o seu valor. Criar esse espaço também é liderança. Empatia e flexibilidade não são traços de género. São sinais de maturidade organizacional. Quando existe diversidade real nas equipas de decisão, o debate torna-se mais completo e as escolhas mais sustentáveis. Inclusão não é discurso. É critério aplicado de forma consistente.
De que forma os insights dos estudos revelam disparidades de género nas expectativas dos portugueses?
Os nossos estudos revelam que existem diferenças de sensibilidade, mas sobretudo uma forte convergência de expectativas. Em determinadas categorias, as mulheres tendem a valorizar mais clareza, coerência e qualidade relacional da experiência. Demonstram maior exigência na consistência entre discurso e prática. Mas, de forma transversal, homens e mulheres valorizam confiança, autenticidade e responsabilidade.
O consumidor português tornou-se mais informado e menos tolerante à incoerência. A principal recomendação às empresas é clara, não confundam segmentação com estereótipo. Diferenciar exige interpretar dados com rigor, não simplificar perfis. É por isso que a nossa metodologia começa sempre pela identificação dos atributos que os consumidores realmente valorizam. Perguntamos antes de avaliar. Medimos antes de concluir. Essa escuta estruturada é o ponto de partida para decisões mais equitativas.
No Dia Internacional da Mulher, que visão estratégica ambiciona para promover maior representação feminina em posições de decisão?
A minha visão é clara, promover critérios de excelência que valorizem maturidade organizacional e reconheçam diferentes estilos de liderança. A questão não é apenas quantas mulheres ocupam cargos de decisão, mas se o sistema está preparado para reconhecer mérito em diferentes perfis.
Ser mulher e mãe ensinou-me que gerir múltiplas dimensões desenvolve visão sistémica, resiliência e capacidade de decisão sob pressão. Muitas mulheres vivem diariamente esse exercício de equilíbrio. Essa experiência molda liderança estratégica. Na ConsumerChoice, ao influenciarmos reputação e valorizarmos atributos como confiança, consistência e responsabilidade, estamos a contribuir para um mercado onde culturas internas mais maduras são reconhecidas.
Quando o mercado reconhece maturidade como critério de excelência, as organizações ajustam-se. E quando as organizações ajustam critérios, criam espaço para lideranças mais diversas. O verdadeiro sinal de evolução será quando as mulheres deixarem de ser notícia por ocuparem o lugar e passarem a ser referência pela forma como lideram. Porque a questão nunca foi capacidade. Foi oportunidade. E quando oportunidade e mérito se encontram, a liderança deixa de ter género e passa a ter impacto.






