A Obesity Clinic afirma-se como uma referência no tratamento da obesidade, distinguindo-se por um modelo de cuidados multidisciplinar, personalizado e suportado pela inovação tecnológica. Nesta entrevista, a CEO e Cofundadora, Sónia Gonçalves, partilha a visão que esteve na origem do projeto, os desafios do percurso e a forma como a liderança, a ciência e a inovação têm orientado o crescimento da clínica.
A Obesity Clinic surgiu com o propósito de redefinir os cuidados médicos na área da obesidade. Que visão empreendedora esteve na origem deste projeto e quais foram os maiores desafios enfrentados na sua concretização?
A Obesity Clinic nasceu da união entre a minha experiência clínica e a visão empreendedora do meu Sócio e Cofundador, Igor Costa. Ao longo de mais de uma década dedicada ao tratamento da obesidade, fui percebendo que muitos dos insucessos não resultavam da falta de empenho dos doentes, mas de um modelo de cuidados que já não acompanhava a evolução da ciência. Juntos decidimos repensar esse modelo e construímos uma resposta alinhada com aquilo que hoje sabemos sobre a doença: uma clínica médica inteiramente dedicada à Obesidade, assente numa abordagem multidisciplinar, personalizada e suportada pela tecnologia, onde a abordagem digital supera as limitações geográficas do modelo convencional, humanizando o acompanhamento através da conectividade.
O maior desafio foi demonstrar que inovar em saúde não significa substituir a relação médico-doente pela tecnologia, mas utilizá-la para prestar melhores cuidados. Na Obesity Clinic, a tecnologia prova que a eliminação do contacto físico não afasta as pessoas; pelo contrário, estreita a relação médico-doente através de uma presença constante, facilita a continuidade do acompanhamento e permite-nos responder de forma mais eficaz às necessidades de quem vive com obesidade.

Num setor tão competitivo como o da saúde, quais considera serem as principais características de liderança necessárias para dirigir uma empresa inovadora como a Obesity Clinic?
Na saúde, nem toda a inovação representa verdadeiro progresso. O progresso acontece quando conseguimos melhorar os resultados clínicos, a experiência do doente e a qualidade dos cuidados, sem nunca comprometer o rigor científico, a ética e a segurança.
Liderar uma organização inovadora implica ter a coragem de desafiar modelos estabelecidos, mas também a responsabilidade de garantir que a inovação nunca corre mais depressa do que a ciência. Num setor onde as decisões têm impacto direto na vida das pessoas, inovar exige tanto visão como prudência. Acredito que a principal missão de um líder é construir uma cultura de excelência. Uma cultura onde a aprendizagem contínua, a colaboração e a responsabilidade fazem parte da identidade da organização e não dependem apenas do desempenho individual. Na Obesity Clinic, o crescimento nunca foi um objetivo em si mesmo; tem sido a consequência que resulta de procurarmos fazer uma medicina cada vez melhor, colocando a ciência e as pessoas no centro de todas as decisões. Porque, na saúde, a confiança continua a ser o ativo mais valioso de qualquer organização.
A liderança feminina tem vindo a ganhar maior destaque no setor da saúde. Enquanto mulher líder e empreendedora, que desafios e oportunidades encontrou ao longo do seu percurso e de que forma a sua visão de liderança tem contribuído para o crescimento da empresa?
Nunca ambicionei criar uma empresa. Ambicionei criar um modelo de cuidados que ainda não existia.
O empreendedorismo foi apenas o caminho para transformar essa visão em realidade. Acredito que a liderança nasce quando existe uma visão suficientemente forte para desafiar o que está estabelecido e a persistência necessária para a transformar em realidade.
Enquanto mulher encontrei desafios, mas nunca quis que o género definisse a minha forma de liderar. Prefiro que o meu trabalho seja avaliado pelo rigor científico, pela consistência das decisões e pela capacidade de construir equipas que partilham um propósito comum.
O crescimento da Obesity Clinic resulta dessa cultura. Na saúde, a liderança não se mede pela dimensão de uma organização, mas pela confiança que consegue inspirar em quem nela trabalha e em quem nela procura cuidados.
Enquanto responsável por um projeto focado na saúde e no bem-estar, de que forma procura inspirar e motivar a equipa para manter elevados padrões de qualidade e compromisso com os utentes?
A qualidade dos cuidados depende da cultura da organização muito antes de depender da competência individual de cada profissional.
Na Obesity Clinic procuramos pessoas que partilhem a mesma forma de olhar para a obesidade e de exercer medicina: com rigor científico, respeito pela individualidade de cada doente e uma vontade permanente de aprender. Tratamos uma doença ainda profundamente marcada pelo estigma e isso obriga-nos a ouvir mais, julgar menos e acompanhar melhor. Acredito que a melhor forma de liderar continua a ser através do exemplo. A exigência que tenho com a equipa é exatamente a mesma que procuro aplicar a mim própria.
A Obesity Clinic assenta num modelo de acompanhamento multidisciplinar e digital. Como funciona, na prática, a articulação entre os diferentes profissionais da equipa para garantir um acompanhamento eficaz e personalizado dos utentes?
A verdadeira inovação da Obesity Clinic não está na tecnologia. Está na forma como organizámos os cuidados em torno da pessoa e não da doença.
Nenhum profissional, por mais diferenciado que seja, consegue tratar sozinho uma doença tão complexa como a obesidade. Por isso, cada doente é acompanhado por uma equipa que trabalha de forma verdadeiramente integrada, com uma estratégia clínica comum, objetivos partilhados e decisões articuladas. Médico e nutricionista não intervêm em paralelo; constroem, em conjunto, um percurso terapêutico único e adaptado às necessidades de cada pessoa.
A saúde digital permite potenciar este modelo, garantindo maior acessibilidade, proximidade e continuidade de cuidados. Mas a tecnologia nunca substitui o julgamento clínico nem a relação médico-doente. O seu verdadeiro valor está em permitir uma medicina mais personalizada, mais próxima e mais consistente.
Também a forma como medimos o sucesso é diferente. Não avaliamos apenas os quilogramas perdidos. Avaliamos a melhoria da saúde metabólica, da composição corporal, da funcionalidade, da qualidade de vida e da capacidade de manter resultados ao longo do tempo. Porque o objetivo nunca foi apenas perder peso. Foi e será sempre obter ganhos em saúde e consequentemente devolver qualidade de vida às pessoas.

Que conselho daria a outras mulheres empreendedoras que pretendem assumir cargos de liderança e desenvolver projetos inovadores nas áreas da saúde e do bem-estar?
Nunca construam uma empresa apenas porque identificaram uma oportunidade de negócio. Construam-na porque identificaram uma oportunidade para melhorar a vida das pessoas.
Na saúde, inovar exige muito mais do que boas ideias. Exige conhecimento, responsabilidade e a coragem de desafiar modelos estabelecidos, sem nunca comprometer a qualidade dos cuidados ou a confiança dos doentes.
Quanto às mulheres, espero sinceramente que, num futuro próximo, deixemos de falar de liderança feminina e passemos simplesmente a falar de liderança. O talento, a visão, a competência e a integridade não têm género.
Se pudesse resumir aquilo em que acredito, seria nesta ideia: o verdadeiro legado de um líder não é a empresa que constrói, mas o impacto que deixa nas pessoas e na forma como a sua área evolui. É essa visão que continua a orientar o meu percurso e a ambição que temos para a Obesity Clinic.








