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Inovação tecnológica exige políticas públicas à altura das micro, pequenas e médias empresas

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As micro, pequenas e médias empresas representam mais de 99% do tecido empresarial português. São responsáveis por uma parte muito significativa do emprego, da criação de riqueza e da vitalidade das economias locais. São também as empresas que, diariamente, enfrentam maiores dificuldades para investir, inovar e adaptar-se às profundas transformações tecnológicas que marcam a economia contemporânea.

 

Jorge Pisco, Presidente da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas

 

Falar de inovação tecnológica nas MPME é, por isso, muito mais do que falar de computadores, plataformas digitais ou inteligência artificial. É falar da capacidade de milhares de empresas continuarem a produzir, a competir e a criar emprego num contexto particularmente exigente. O início deste ano ficou marcado por um verdadeiro comboio de tempestades que provocou prejuízos avultados em inúmeras empresas. Em muitos casos, os apoios anunciados continuam por concretizar-se no terreno, obrigando empresários a suportar sozinhos custos inesperados, perdas de produção e dificuldades de tesouraria. A este cenário juntam-se os elevados preços da energia, das matérias-primas, dos transportes e de outros fatores de produção, agravados pela instabilidade internacional, que continuam a limitar a capacidade de investimento. É precisamente nestes momentos que as políticas públicas fazem a diferença. A inovação não pode ser encarada como uma responsabilidade exclusiva das empresas quando persistem tantos obstáculos estruturais ao investimento. Para uma microempresa, investir em equipamentos, software, cibersegurança, automação ou formação representa um esforço financeiro muito superior ao de uma grande organização. Sem instrumentos públicos adequados, a transição tecnológica corre o risco de aumentar desigualdades em vez de promover competitividade. A simplificação administrativa continua igualmente por cumprir. Durante anos falou-se de desburocratização e digitalização dos serviços públicos. Contudo, demasiadas empresas continuam confrontadas com plataformas complexas, múltiplos procedimentos, sucessivas autenticações e exigências administrativas que consomem tempo e recursos. Digitalizar não pode significar apenas transformar formulários em versões eletrónicas; significa rever processos, eliminar redundâncias e colocar a Administração Pública verdadeiramente ao serviço das empresas.

Persistem também défices importantes de competências digitais entre empresários e trabalhadores, sobretudo nas microempresas. Não por falta de vontade, mas porque a prioridade diária continua a ser garantir salários, cumprir obrigações fiscais e manter a atividade em funcionamento. A inovação tecnológica exige investimento em capacitação, acompanhamento técnico de proximidade e programas de formação adaptados à realidade concreta das pequenas empresas.

É igualmente indispensável garantir que esta transformação chega a todo o território. Muitas empresas localizadas em zonas do interior continuam a enfrentar limitações ao nível das infraestruturas digitais e dos custos das telecomunicações. A inovação deve ser um instrumento de coesão territorial e não mais um fator de agravamento das assimetrias existentes. A CPPME tem defendido que a modernização administrativa, a digitalização e a inovação só produzirão resultados se forem acompanhadas por políticas públicas consistentes, previsíveis e acessíveis. É necessário acelerar a chegada dos apoios anunciados, reduzir encargos burocráticos, reforçar o papel dos balcões de proximidade, apoiar a formação em competências digitais e criar incentivos que permitam às micro e pequenas empresas investir sem colocar em causa a sua estabilidade financeira. Uma empresa de pequena dimensão no interior do país, ou mesmo na periferia das grandes áreas metropolitanas, não tem a mesma influência nem a mesma capacidade de resposta a instrumentos financeiros complexos desenhados à margem da realidade, que tem, por exemplo, uma grande empresa. Os empresários portugueses têm demonstrado uma enorme capacidade de adaptação e resiliência. Apesar das dificuldades, continuam a inovar, a preservar postos de trabalho e a sustentar milhares de comunidades locais. Mas a competitividade da economia portuguesa não pode continuar assente apenas no esforço individual dos empresários. O financiamento deve priorizar a modernização de equipamentos e a eficiência energética das PME, em vez de se limitar a garantias de crédito que, muitas vezes, servem apenas para pagar dívidas anteriores. A inovação tecnológica constitui uma oportunidade decisiva para aumentar a produtividade, criar valor acrescentado e reforçar a soberania económica do país. Para que essa oportunidade seja aproveitada por todos, é indispensável colocar as micro, pequenas e médias empresas no centro das políticas públicas. Só assim construiremos uma economia mais competitiva, mais equilibrada e mais preparada para os desafios do futuro.

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