De Águas Santas à liderança de um grupo integrado no imobiliário, Hugo Silva construiu tudo “a partir do zero”. Do telemarketing aos 16 anos à criação da Maiagest, DecorU e Edrabuild, o CEO do Grupo H&B Silva explica como ambição, responsabilidade e proximidade moldaram uma visão única sobre o imóvel e o investimento.
Antes de estar à frente do Grupo H&B Silva, qual foi o seu percurso pessoal e profissional? Que experiências ou decisões foram determinantes para chegar até aqui e moldaram a forma como hoje lidera o Grupo?
Nasci em Águas Santas. Não venho de uma família de empreendedores; tudo o que construí, construí a partir do zero. Comecei a trabalhar muito cedo, aos 16 anos em telemarketing. Foi aí que aprendi a primeira lição que nunca mais larguei: não se vende só um produto, vende-se confiança. Mais tarde passei pelo setor automóvel, com um stand próprio. Foram áreas diferentes entre si, mas todas me ensinaram a lidar com pessoas, a negociar e a perceber que os resultados não aparecem só porque temos uma boa ideia, mas porque alguém decide fazer acontecer.
Desde cedo tive interesse pelo investimento e pelo mundo empresarial, mas foi uma pessoa em concreto que me despertou o gosto pelo imobiliário: tenho uma madrinha que investe no mercado imobiliário, e foi a ouvi-la falar do setor com entusiasmo que comecei a criar aquele “bicho”. Em 2014 passei a olhar com mais atenção para o setor e percebi que havia ali uma oportunidade para construir algo diferente. Foi dessa visão que criei a Maiagest, em 2015, aos 26 anos, sozinho, sem rede de segurança e sem grande estrutura. O início não foi fácil: a primeira venda demorou cerca de dois anos, e esse período ensinou-me a resistir, a corrigir e a continuar mesmo quando os resultados ainda não eram visíveis.
Percebi cedo que não queria apenas uma empresa de mediação imobiliária, queria construir uma organização capaz de intervir em todo o ciclo do imóvel. Continuo a acreditar na rapidez de decisão e na coragem para avançar, mas aprendi que crescer exige processos, disciplina e pessoas competentes ao meu lado. Hoje sou casado e pai, e isso reforçou a consciência da responsabilidade que é liderar: as decisões que tomo não afetam só a mim, afetam empresas, clientes e famílias que dependem do que construí.

O Grupo H&B Silva, constituído pela MaiaGest, DecorU e Edrabuild, construiu o seu percurso num contexto empresarial em permanente transformação. Quais foram os momentos mais determinantes dessa evolução e como contribuíram para definir a identidade e o posicionamento que hoje o distinguem?
O primeiro momento determinante foi a criação da Maiagest, onde aprendi a conhecer verdadeiramente o mercado, os clientes e as dificuldades associadas à compra e venda de um imóvel, com foco exclusivo na mediação.
Outro momento decisivo foi deixar de olhar apenas para a mediação e passar a investir diretamente em imóveis. Em 2021, com a equipa e a operação já mais consolidadas, dei esse passo, e em 2022 estruturei uma área dedicada à aquisição, remodelação e venda. Com isso, deixei de ser apenas intermediário para assumir também o risco do investimento e a responsabilidade sobre todo o resultado.
A criação da DecorU trouxe a componente estética e funcional: uma boa construção ou remodelação não fica completa sem um projeto de interiores capaz de valorizar o imóvel. Em 2025, juntei-me ao projeto da Edrabuild, o que reforçou a minha capacidade de execução e me permitiu evoluir da reabilitação para a construção de raiz.
Identificámos também uma lacuna no mercado de arrendamento: faltavam espaços de trabalho a preços competitivos, onde pequenos empresários pudessem fazer um segundo turno e testar o seu “dom” sem o peso de um compromisso longo. Foi essa perceção que nos levou, há cerca de três anos, a criar o nosso primeiro centro de negócios: gabinetes prontos a usar, pensados para quem está a arrancar ou a testar um novo projeto. Hoje já dispomos de mais de 50 escritórios distribuídos por vários centros.
Estamos agora prestes a inaugurar um novo espaço: a Casa Evarte, o nosso centro de eventos. Também aqui identificámos uma necessidade real: as casas são cada vez mais pequenas para reunir família e amigos, e as pequenas empresas têm poucas opções de qualidade para formações, reuniões e Team Building. A Casa Evarte responde a isso, com um espaço amplo pensado tanto para os colaboradores do Grupo como para eventos privados e empresariais.
Nenhuma destas empresas nasceu só para aumentar o tamanho do Grupo. Cada uma delas respondeu a uma necessidade concreta que identifiquei no terreno: a Maiagest com a mediação, a DecorU e a Edrabuild a complementarem o ciclo com a construção e a decoração, os centros de negócios a responderem a uma lacuna que vi no arrendamento, e a Casa Evarte a responder à procura por espaços de eventos e formação. Hoje não apresento serviços isolados; apresento uma visão integrada sobre o imóvel e o investimento, do início ao fim, dentro da mesma porta. E não considero isto terminado, continuando atento a novas empresas e valências que façam sentido juntar a este percurso.
Num mercado cada vez mais competitivo e exigente, como interpreta o Grupo H&B Silva a sua proposta de valor? Em que medida a experiência acumulada, a capacidade de adaptação e a proximidade com os clientes constituem fatores efetivos de diferenciação?
A minha proposta de valor está na capacidade de olhar para o negócio como um todo. Não olho apenas para o imóvel, a obra ou a venda isoladamente. Analiso o potencial, o risco, o investimento necessário, a execução e o resultado, tudo dentro do mesmo grupo e com um único critério de qualidade.
A experiência acumulada permite-me antecipar problemas e decidir com mais segurança. Já estive em diferentes posições do mesmo processo — como mediador, investidor, promotor, construtor e gestor — e isso dá-me uma perspetiva prática sobre o que o cliente realmente precisa, mesmo quando ainda não o consegue expressar claramente. Sei do que falo porque já passei por cada uma dessas posições.
A capacidade de adaptação também é essencial, porque tudo é mutável: o mercado, o perfil dos compradores, as exigências. Um exemplo dessa mudança é que atualmente as casas são cada vez mais pequenas e as pessoas procuram experiências e soluções que antes não procuravam. Uma empresa que trabalha hoje como trabalhava há dez anos pode sobreviver, mas dificilmente continua a liderar.
Quanto à proximidade, para mim não significa apenas estar disponível, mas sim assumir o problema do cliente como meu, acompanhar o processo do início ao fim e responsabilizar-me pelo resultado. É essa combinação entre experiência, rapidez, proximidade e capacidade de execução que me diferencia.
Que princípios orientam atualmente a liderança do Grupo e como se traduzem nas decisões estratégicas, na gestão do risco e na capacidade de equilibrar continuidade, inovação e crescimento sustentável?
A minha liderança assenta em quatro princípios: ambição, responsabilidade, exigência e confiança.
A ambição leva-me a procurar sempre novas oportunidades e a não aceitar a estagnação. Nunca gostei de esperar pelo momento perfeito, porque ele não existe. Mas ambição sem responsabilidade transforma-se em precipitação: sou rápido a decidir, mas antes de qualquer investimento procuro conhecer os números, avaliar cenários e perceber o pior caso. O risco faz parte do negócio; o que não pode existir é risco sem conhecimento.
A exigência aplica-se à qualidade do trabalho e à capacidade de corrigir depressa. Sei que errar faz parte do percurso, o que não aceito é identificar um erro e não agir para o resolver. Posso entregar uma casa com algum problema pontual, mas nunca deixar de dar resposta ao cliente. Isso é uma linha que não se cruza.
A confiança é o que me permite delegar e crescer. Durante muito tempo quis controlar tudo pessoalmente, e foi isso que mais me custou: deixar a direção do dia a dia da Maiagest, a minha “menina”. Hoje sei que uma organização sustentável não pode depender de uma única pessoa e, por isso, o meu papel passou a ser definir a visão, escolher as pessoas certas e exigir responsabilidade pelos resultados. Quero crescer, mas nunca à custa do que já construí: não é crescer por crescer, é crescer com estrutura, rentabilidade e valores.
A mensagem que passo à equipa é simples: o objetivo é trabalhar, ter resultados e ganhar dinheiro para melhorar a vida de cada um e das suas famílias, sem nunca esquecer os valores. No fundo, lido com pessoas, e nunca me esqueço disso.
O Grupo desenvolve atividade em diferentes áreas de negócio: aquisição de imóveis e terrenos, reabilitação, construção de raiz, venda e gestão de investimento. Como se articulam essas valências dentro de uma estratégia comum e que sinergias considera mais relevantes para reforçar a competitividade e criar valor no conjunto da organização?
As várias áreas do Grupo fazem parte de uma única cadeia de valor, e em vez de forçar sinergias, construo-as no terreno. A Maiagest conhece o mercado, identifica oportunidades e compreende a procura; esse conhecimento sustenta as decisões quando analiso a aquisição de um imóvel ou terreno.
Depois da aquisição, estudo o projeto, reabilito ou construo de raiz através da Edrabuild, e trabalho a componente estética e funcional com a DecorU. No fim, volto a usar a experiência comercial da Maiagest para posicionar, vender ou gerir o investimento. Desta forma, fecho o ciclo, sempre com as mesmas equipas.
Esta articulação dá-me melhor controlo sobre prazos, custos e qualidade, e permite que a informação recolhida numa área melhore as decisões nas restantes: o que a mediação identifica como tendência influencia os projetos; a experiência da construção ajuda-me a avaliar melhor os investimentos; a decoração aumenta a diferenciação e o valor percebido.
A maior sinergia não está em prestar vários serviços, mas na partilha de conhecimento, na rapidez de resposta e numa estratégia comum, com cada empresa a manter a sua identidade. Enquanto outros fragmentam o processo por vários parceiros sem ligação entre si, eu controlo toda a cadeia. Isso permite transformar um conjunto de empresas num verdadeiro grupo empresarial.
Que papel desempenham as pessoas no sucesso do Grupo H&B Silva? Como promove uma cultura de compromisso, qualificação e responsabilidade, capaz de atrair e reter talento e, simultaneamente, preparar as equipas para os desafios de um contexto empresarial em mudança?
As pessoas são a base de tudo. Posso ter capital, boas ideias e uma estratégia bem definida, mas sem uma equipa competente e comprometida nenhum projeto cresce de forma sustentável.
Procuro pessoas com vontade de crescer, capacidade de assumir responsabilidades e coragem para dar opinião. Não quero uma equipa que só cumpra tarefas, quero gente que compreenda os objetivos e sinta que também está a construir o Grupo comigo.
A exigência faz parte da minha cultura, mas tem de vir acompanhada de confiança, reconhecimento e oportunidade de evolução. Exijo resultados, mas faço-o proporcionando o apoio, as condições e recursos adequados.
Tenho colaboradores com uma antiguidade muito próxima da própria Maiagest, e isso diz muito num mercado onde se fala tanto da dificuldade em reter talento. As pessoas ficam quando sentem que o seu trabalho é valorizado e que fazem parte de um projeto com futuro. Uma das minhas maiores aprendizagens como líder foi perceber que gerir empresas é, acima de tudo, gerir pessoas: nem todas avançam ao mesmo ritmo, e cabe-me identificar o potencial de cada uma e garantir que o crescimento do negócio também cria oportunidades para quem cresce comigo.
Olhando para os próximos anos, quais são as principais oportunidades e desafios que se colocam ao Grupo H&B Silva? Que visão pretende concretizar e que legado gostaria de consolidar junto dos seus clientes, parceiros, colaboradores e comunidades onde está presente?
Vejo muitas oportunidades no imobiliário, na reabilitação urbana, na construção de raiz e na gestão integrada de património. Existe uma procura crescente por soluções mais completas, profissionais e transparentes, e o Grupo está bem posicionado para responder a essa necessidade. Não tenho teto: quero continuar a expandir, reforçar cada empresa e abrir novas valências sempre que fizer sentido para o cliente. Estou também recetivo a juntar outras empresas ao Grupo, sempre que façam sentido dentro deste percurso. Não fecho a porta a boas oportunidades só porque não nasceram dentro de casa.
Os desafios estarão em acompanhar esse crescimento sem perder proximidade, garantir capacidade de execução num mercado cada vez mais exigente e continuar a atrair pessoas qualificadas. Crescer aumenta as oportunidades, mas também a responsabilidade: quanto maior o Grupo, mais importantes se tornam os processos, a liderança intermédia e o controlo financeiro.
A minha visão é consolidar cada empresa, reforçar as sinergias entre elas e continuar a criar novas áreas quando representem valor real. Quero que o Grupo H&B seja reconhecido pela capacidade de executar, pela qualidade dos projetos e pela confiança que transmite. Aos clientes e parceiros, quero deixar uma reputação de compromisso e seriedade; aos colaboradores, uma organização onde tenham orgulho em trabalhar e oportunidades reais de evoluir.
A Maia continuará a ter um significado especial neste percurso, já que foi nesta cidade que criei a Maiagest, e nunca tencionei que a sede do grupo saísse daqui. É aqui que quero continuar a investir, a criar emprego e a contribuir para a dinâmica empresarial e social da região.
Mais do que o número de empresas ou o volume de negócio, o legado que quero deixar é a prova de que é possível começar do zero, crescer com coragem e construir algo sólido sem abdicar dos princípios. Quero deixar uma organização capaz de continuar para além de mim, com identidade própria e uma ideia que resume tudo em que acredito: ambição com valores.







