Através da arte têxtil, a Craft Gardens, liderada por Marta Ramada Leite, procura criar uma relação mais sensorial entre as peças e os espaços que habitam. Entre matéria, luz, movimento e sustentabilidade, a marca desenvolve obras de autor e instalações à medida que acrescentam identidade e emoção à arquitetura.
A Craft Gardens desenvolve o conceito de “Emotional Architecture”, explorando a relação entre arte têxtil, luz, matéria e espaço. Como nasceu esta visão e de que forma transformam a experiência de um espaço?
A Emotional Architecture nasceu da vontade de ir além do objeto decorativo e pensar a obra como parte integrante da arquitetura. A fibra tem movimento, textura e uma relação muito particular com a luz, permitindo criar presença sem tornar o espaço pesado. Interessa-me sobretudo a forma como uma peça pode alterar a perceção e a experiência de um lugar. Através da escala, da cor, do movimento e da matéria, procuro criar obras que dialoguem com o espaço e com quem o habita. Quero que as peças sejam mais do que elementos visuais: que se sintam no espaço e contribuam para criar identidade, leveza, surpresa e bem-estar.

O trabalho da Craft Gardens inclui peças de autor, projetos personalizados e instalações desenvolvidas especificamente para espaços de hotelaria, arquitetura, eventos e galerias. Como se desenvolve o processo criativo de um projeto à medida e de que forma o espaço e a sua identidade influenciam o resultado final?
Num projeto site-specific, o espaço é sempre o ponto de partida. Analiso a arquitetura, a escala, a luz, os materiais, a paleta cromática, a circulação e os diferentes pontos de vista. A partir daí desenvolvo a forma, as dimensões, os materiais e a composição da obra. Gosto particularmente de trabalhar com arquitetos e designers desde as fases iniciais, porque é nesse momento que a peça pode verdadeiramente integrar-se no projeto. Não se trata de acrescentar posteriormente um elemento decorativo, mas de criar uma obra que pertença àquele lugar e acrescente uma nova camada à sua identidade.
A inspiração na natureza, o trabalho artesanal e a utilização de materiais responsáveis são elementos importantes na identidade da Craft Gardens. Como conciliam a exigência estética e criativa com a sustentabilidade e com um processo de produção essencialmente artesanal?
A sustentabilidade começa na escolha consciente da matéria e acompanha todo o processo. Sempre que possível utilizo ECONYL®, um fio regenerado produzido a partir de resíduos recuperados, e trabalho também em proximidade com a indústria portuguesa de tapeçaria. Em projetos de hotelaria utilizo ainda fios técnicos fire retardant, adequados às respetivas exigências de segurança. A produção artesanal permite-me trabalhar com grande detalhe e reduzir desperdício, mas implica tempo. Essa lógica de slow creation faz parte da identidade da Craft Gardens: criar menos, criar melhor e desenvolver peças pensadas para permanecer.
A Craft Gardens tem vindo a afirmar-se em diferentes contextos ligados à arte, ao design e à arquitetura. Que desafios e oportunidades representa este posicionamento e quais são os próximos projetos ou caminhos que gostariam de explorar?
Estar na interseção entre arte, design e arquitetura é simultaneamente um desafio e uma das maiores oportunidades da Craft Gardens. Esse posicionamento permite-nos trabalhar em diferentes escalas e contextos, mantendo uma linguagem artística própria e uma forte relação com o espaço.
O próximo passo será continuar a desenvolver os projetos site-specific, sobretudo nas áreas da hotelaria e da arquitetura, e reforçar a presença internacional. Quero também desenvolver colaborações com outras indústrias, explorando o potencial dos seus desperdícios como matéria-prima para novas obras. Vejo aí um campo muito rico de investigação, capaz de gerar novas soluções de circularidade, novas linguagens materiais e instalações de maior escala.
Para mim, o futuro da Craft Gardens está precisamente nessa capacidade de transformar matéria, técnica e contexto em experiências espaciais com identidade, presença e emoção.







