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Contrariar o “crescimento poucochinho”

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Portugal foi fortemente abalado pela crise financeira, pela pandemia, pelo regresso da inflação e pela volatilidade geopolítica. Mas a economia revelou resiliência e voltou a crescer, ainda que timidamente. Também conseguimos estabilizar a inflação, conservar a solidez das contas públicas e atingir uma situação de quase pleno emprego.

Contudo, alguns dos fatores que estimularam o crescimento das últimas décadas estão agora em desaceleração. É o caso das exportações e do investimento. No início do ano, as vendas ao exterior registaram quebras expressivas e o investimento continua aquém do necessário para alcançarmos níveis de stock de capital próximos da média europeia.

 

Rafael Alves Rocha, Diretor-Geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal

 

No fundo, Portugal continua preso na “armadilha do rendimento médio” – já não consegue competir com base em baixos custos de produção, mas tem dificuldade em subir nas cadeias de valor globais. As projeções oficiais apontam, aliás, para um abrandamento gradual da dinâmica económica. Estima-se um “crescimento poucochinho” para 2026 e 2027: entre 1,6 a 1,8% do PIB este ano, não superando este intervalo no próximo ano.

A instabilidade internacional, a insegurança energética, o impasse na Europa e as intempéries na região centro ajudam a explicar a desaceleração económica. Mas, em boa verdade, o nosso tecido económico pouco mudou desde os infaustos tempos da troika, apesar do maior peso das exportações no PIB. Continuam a predominar os setores de baixo valor acrescentado, fraca intensidade tecnológica e ténue efeito de arrastamento.

O novos dados do INE sobre a população portuguesa vieram complicar um pouco mais as contas. Se afinal vivem em Portugal 11,4 milhões de pessoas, isto significa que os valores do PIB per capita são ainda mais baixos. Ou seja, estamos mais longe de concretizar o potencial de crescimento que nos é reconhecido internacionalmente.

Para acelerar o crescimento e a convergência com a Europa, é indispensável uma transformação profunda do perfil de especialização da economia portuguesa. Sair da “armadilha do rendimento médio” implica criar condições para um novo paradigma de desenvolvimento baseado no conhecimento, no talento, na inovação e na tecnologia. Esse novo paradigma traria como consequência a subida da produtividade, um problema crónico da economia nacional.

As evidências também apontam para estarmos a importar trabalhadores para funções pouco qualificadas, ao mesmo tempo que não logramos estancar a fuga de talento. O brain drain não é de agora, mas o país continua a não ter uma economia que absorva o talento. O nosso modelo económico privilegia a quantidade sobre a qualificação da mão de obra, o trabalho físico sobre trabalho especializado e criativo, os setores de baixo valor acrescentado sobre os setores emergentes e de elevado potencial.

O futuro de Portugal depende da capacidade de criar riqueza de forma sustentável, a partir de setores mais produtivos. Ora, o desenvolvimento destes setores exige políticas públicas que promovam a simplificação administrativa, façam da fiscalidade um incentivo ao investimento produtivo, capacitem as empresas para a transição digital e verde, adaptem o mercado de trabalho às transformações tecnológicas e evitem a fuga de talento.

Sem um crescimento económico mais robusto, não haverá nos próximos anos um aumento significativo do poder de compra dos portugueses. Não podemos, por isso, resignarmos à mediania e devemos concentrar os nossos esforços nos fatores que fazem crescer sustentadamente a economia: investimento, exportações e inovação.

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