Com uma abordagem que cruza inovação construtiva, sustentabilidade e liderança consciente, Nídia Teodoro Avelino tem vindo a afirmar a Get to Work como um agente de mudança no setor. Nesta entrevista, partilha a sua visão sobre os desafios da construção em Portugal, o papel dos materiais ecológicos e a necessidade urgente de alinhar discurso, prática e regulação.
Como CEO da Get to Work, com uma vasta experiência no setor da construção, como vê a evolução das casas sustentáveis em Portugal? Quais são os materiais e técnicas ecológicas que considera mais promissores para tornar a construção verdadeiramente sustentável sem comprometer o conforto ou a viabilidade económica?
Há um conjunto pequeno de empresas que está mesmo a mudar a forma como constrói. E há muita gente a vestir o verde por fora sem mexer no que se passa por dentro do projeto. Essa diferença é o que mais me preocupa neste momento.
Quando me perguntam por onde se começar, respondo com aquilo que escolhemos na Get to Work: Light Steel Framing. Não por moda, foi onde apostei para construir de outra maneira, com menos desperdício em obra, prazos previsíveis, estrutura mais leves e desempenho térmico a sério. O aço é reciclável, a obra é mais limpa, quem entende raramente volta atrás.
Quanto a materiais, Portugal tem respostas que continua a desvalorizar. A cortiça é uma delas, temo-la em casa e é tratada como decoração quando podia ser estrutura. Apostamos em madeiras naturais e tintas à base de água. E há sol e vento: pensar em luz, ventilação e sombreamento de raiz poupa metade da fatura de climatização. Sustentabilidade não é luxo, bem feita, é mais barata e mais confortável que o método antigo.

A sustentabilidade na construção envolve não apenas materiais ecológicos, mas também gestão de resíduos, eficiência energética e pegada carbono. Na sua opinião, quais são os maiores obstáculos que as empresas portuguesas enfrentam para adotar práticas construtivas verdadeiramente sustentáveis, e como a Get to Work ajuda a superá-los?
Há uma questão pouco falada, mas que conheço bem, o tratamento dos resíduos de construção em Portugal funciona mal. Registamo-nos na plataforma, pagamos para depositar os resíduos em locais teoricamente apropriados, cumprimos o que a lei pede e, ainda assim, uma parte significativa acaba em aterros ilegais ou destinos não rastreáveis. Quem cumpre paga e desconfia. Quem não cumpre escapa. Construir com menos desperdício à partida, como fazemos no LSF, ajuda, mas não chega. O sistema precisa de ser revisto, fiscalizado, e criar incentivos reais para que cumprir compense mais do que contornar. A isto soma-se um mito persistente, o de que construir sustentável é caro. Dizer isto é ignorar a vida do edifício, energia, manutenção, durabilidade e conforto.
Na Get to Work respondemos com formação contínua, pedagogia ao cliente, e demonstração nos próprios projetos. Mas estes esforços valem pouco enquanto o sistema, no seu todo, não acompanhar e incentivar.
O setor da construção continua tradicionalmente masculino. Como mulher, que mudança observa na presença e reconhecimento das mulheres neste setor? Que conselho daria a jovens mulheres que querem seguir carreira na Engenharia e Construção hoje?
Mudou bastante, mas não o suficiente. Há mais mulheres em obra, em gestão, em direção. Há mais visibilidade, mais rede. O que ainda não mudou é a exigência silenciosa de que nós mulheres provemos duas vezes aquilo que um homem prova uma vez. Acontece todos os dias, sem ninguém dar conta. O conselho que dou a jovens mulheres que querem entrar neste setor é simples. Trabalhem a sério, o conhecimento técnico é o que nos dá chão quando alguém nos quer tirar o tapete. Construam redes, com mulheres do setor e com homens que respeitam o vosso trabalho. E não diluam a vossa voz para caberem em culturas que ainda não vos deram lugar. O lugar conquista-se com competência. Não com simpatia e não tenham medo de mostrar o vosso valor.
Na sua visão, que abordagem única as mulheres trazem para a tomada de decisões na construção? Como evoluiu o seu estilo de liderança ao longo do tempo e como equilibra a liderança exigente da Get to Work com a vida pessoal num setor tão competitivo?
Tenho vinte anos de gestão de empresas e dez especificamente em construção. A forma como lidero hoje não tem nada a ver com o início da minha carreira. Aprendi, mais por queda do que por escolha, que liderar não é estar sempre disponível. É estar presente quando importa, e ter a serenidade para não estar quando não importa. Sou empreendedora multipotencial. Tenho duas empresas e várias frentes, construção, consultoria, mentoria, palestras. Isto não se concilia com força de vontade. Concilia-se com método e escolhas pensadas.
Aplico no dia a dia o que ensino. Os princípios de sustentabilidade humana, design de vida e liderança consciente, não os agarro em palco e largo na rua, vivo-os no dia-a-dia. É por isso que sinto que tenho legitimidade para os trabalhar com outras lideranças. Não falo do que li, falo do que faço.
A região centro de Portugal tem características específicas em termos de território, mercado imobiliário e recursos naturais. Que estratégia está a Get to Work a seguir para expandir a sua atividade para esta região e como adapta os projetos de sustentabilidade às particularidades locais?
Estamos a avaliar a sério uma expansão para a região centro. Não há anúncios para fazer ainda; há um estudo de mercado em curso, parcerias em construção com profissionais que conhecem o território, e um calendário realista a definir. A região centro tem características próprias, só entramos num mercado depois de o entender por dentro.
Esta expansão acompanha um rebranding estruturante, com nova identidade a revelar em breve. A Get to Work continuará como casa-mãe da nova marca de construção, focada exclusivamente em projetos ecológicos, sustentáveis e inclusivos, e da minha marca pessoal, Nidia Teodoro Avelino – Mentoria, Palestras, Consultoria, dedicada a pensamento, formação e acompanhamento de lideranças. Mais do que expandir, queremos mudar a conversa. Deixo uma nota, o setor em Portugal precisa de mais estrutura associativa em torno destas práticas. É uma necessidade que voltarei a abordar.
A Nídia liga inclusão, bem-estar e sustentabilidade humana às práticas do dia a dia. Como integra estes conceitos nos projetos de construção que acompanha ou desenvolve, e que impacto espera que isso tenha nas comunidades e nas pessoas que habitam estes espaços?
Há uma frase que repito sem me cansar: construímos espaços e organizações sustentáveis para pessoas reais. Não para pessoas-tipo, nem para o utilizador médio dos manuais. Para quem vai mesmo viver, trabalhar, descansar e envelhecer nestes lugares.
Isto traduz-se em decisões concretas. Acessibilidade que não é uma rampa à porta, são circulações pensadas para corpos diferentes e para várias etapas de uma vida. Conforto sensorial, luz natural, acústica, materiais que não esgotam o sistema nervoso. Conforto térmico real, sentido no inverno e não no folheto. E desenho que pensa em quem é neurodivergente, em famílias com necessidades específicas, em quem precisa de previsibilidade espacial para sentir uma casa como abrigo onde pode descansar e recuperar.
O impacto que espero é simples, e talvez por isso tão difícil, que estas casas sejam, de facto, lugares onde quem nelas vive se sinta visto. Sustentabilidade humana começa por aí.








