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Viver mais não chega o desafio da saúde do cérebro

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A 22 de julho assinala-se o Dia Mundial do Cérebro. A data convida-nos a uma pergunta simples e incómoda: porque cuidamos tão pouco daquilo que nos torna quem somos? Vivemos mais anos do que qualquer geração anterior, mas a promessa da longevidade só se cumpre se o cérebro nos acompanhar. É ele que sustenta a autonomia, a memória, a capacidade de trabalhar, de ter prazer, de nos relacionarmos. A saúde do cérebro é a verdadeira medida do nosso bem-estar e talvez o maior desafio de saúde que enfrentamos.

A inovação tecnológica é extraordinária. Temos, pela primeira vez, fármacos que removem as proteínas que se acumulam na doença de Alzheimer e parecem abrandar a sua progressão, ainda que de forma modesta. É um marco notável, e ainda bem que continuamos a descobrir novas formas de tratar. Mas não podemos confundir uma descoberta com a solução. Esse deslumbramento tolda-nos a visão e faz-nos ignorar o óbvio: já sabemos muito sobre o que funciona.

 

Prof. Marcelo D. Mendonça Vice-Presidente, Sociedade Portuguesa de Neurologia. Investigador Principal & Vice-Director, Programa de Neurociência de Doença e Centro de Neuroterapias Digitais, Fundação Champalimaud, Professor de Neurociência, NOVA Medical School

 

E sabemo-lo porque os ensaios clínicos já o demonstraram. Agir em várias frentes, com exercício físico, alimentação cuidada, controlo dos fatores de risco cardiovascular, estímulo cognitivo e social, protege a cognição ao longo do tempo. É um conhecimento sem dono e sem atalhos, e convém desconfiar de quem o vende como fórmula exclusiva. Não é “menos ciência”: é exatamente a mesma ciência da inovação tecnológica. Coloca desafios de investigação diferentes, e até mais difíceis, mas seríamos ingénuos em ignorá-los.

Mas como é que medidas tão simples são afinal tão poderosas? Porque o cérebro tem regras próprias, e vale a pena olhar para ele exatamente como é. O cérebro é plástico: aprende, molda-se pela atividade, pelas relações, pelo ambiente. O meu cérebro tem o potencial de aprender coreano, mas para isso preciso de passar dias a treinar. Se existisse uma pílula para nos tornar grandes jogadores de futebol, todos cederíamos à tentação, mas ela não existe, nem existirá. Aquilo que nos torna peritos numa língua ou num desporto é demasiado complexo para que uma única intervenção o alcance. Exige treino, repetição, contexto. É também por isso que a nossa ideia de saúde cerebral tem de ser mais rica: proteger o nosso capital cerebral faz-se todos os dias e começa muito antes de surgir qualquer doença.

É também por isso que o desafio da implementação é tão grande. Os sistemas de saúde têm de responder a quem está doente. Mas a resposta que vem antes constrói-se noutro lado: na educação, nas casas onde vivemos, na saúde pública, na forma como organizamos as cidades, a escola e o trabalho. Quase tudo isto se decide enquanto o cérebro ainda está saudável.

 

 

Prevenir e preservar é, além do mais, o que liberta recursos: só assim poderemos, de forma sustentável, oferecer os tratamentos inovadores a quem mais vai beneficiar deles. Prevenção e inovação não competem: a primeira cria o espaço de que a segunda precisa.

Este é um problema de toda a sociedade, e a resposta exige uma aliança que ainda temos de construir: sociedade civil, indústria, academia e decisores políticos. Cada um detém uma peça, e nenhuma basta sozinha. Numa época em que aprender num mundo em mudança acelerada depende inteiramente do cérebro, cuidar dele deixou de ser assunto apenas de neurologistas. E bem. É uma escolha de sociedade, e talvez a melhor decisão que podemos tomar pela vida longa e boa que dizemos querer.

O desafio é este.

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