“O Transatlantic Business Summit 2026, organizado pela AmCham Portugal no dia 30 de janeiro, confirmou que a relação transatlântica continua a ser um eixo estruturante da economia global, apesar de um contexto marcado por instabilidade geopolítica, tensões comerciais e profunda transformação tecnológica. Num ano simbólico, 75 anos da AmCham Portugal e 250 anos da independência dos Estados Unidos, o encontro reuniu decisores políticos e líderes empresariais para refletir sobre o “próximo capítulo” da parceria entre a Europa e os EUA.
Na abertura, António Martins da Costa, presidente da AmCham Portugal, sublinhou que o TBS é “um fórum de debate” que reforça “a ponte de negócios entre os dois lados do Atlântico”. Uma ponte sustentada por números expressivos: os EUA são o quarto maior destino das exportações portuguesas e um dos principais investidores em Portugal, com um stock de investimento direto superior a 11,5 mil milhões de euros.
O enquadramento geopolítico foi marcado pela perceção de mudança da ordem internacional.
António Horta Osório, keynote speaker do encontro, destacou o desempenho recente da economia portuguesa, afirmando que “Portugal é exemplo ímpar e modelo”, não só pelo superavit orçamental, mas também pelo crescimento acima da média europeia e pela trajetória descendente da dívida pública. Ainda assim, deixou um alerta claro: sem um objetivo nacional claro para acelerar o crescimento económico, “um objetivo sem um plano não passa de um sonho”.
A perspetiva europeia foi trazida por Malte Lohan, CEO da AmCham EU, que lembrou que “as empresas americanas estão profundamente integradas no mercado europeu há décadas”. Num contexto de tarifas e incerteza, advertiu que “não estamos de volta a nenhum tipo de certeza na relação transatlântica”, apesar de a economia Europa-EUA continuar a ser a maior relação comercial do mundo, responsável por cerca de um terço do PIB global.
A erosão das regras tradicionais do comércio internacional foi aprofundada por Matthew Hales, analista da BloombergNEF, para quem “o livro de regras do comércio que conhecíamos provavelmente desapareceu e não deverá regressar”. O especialista explicou que o avanço tecnológico e industrial da China está na origem de uma nova vaga de protecionismo, aumentando a volatilidade e a incerteza para empresas e investidores.
Um dos momentos mais marcantes do encontro foi o testemunho de Yuliana Chyzhova, diretora de comunicação da AmCham Ukraine, que descreveu a resiliência do tecido empresarial ucraniano em contexto de guerra. “Em vez do ruído da cidade, ouvimos geradores; em vez de noites tranquilas, aprendemos a distinguir mísseis e drones”, afirmou, lembrando que, apesar disso, 90% das empresas continuam operacionais. “A resiliência é construir negócios que aguentam, por mais que o chão trema”, concluiu.
No painel dedicado à reinvenção das empresas, António Redondo (The Navigator Company), Manuela Vaz (Accenture Portugal), José Theotónio (Pestana Hotel Group) e Raquel Seabra (Sogrape) convergiram na ideia de que a agilidade, o talento e a tecnologia são hoje fatores decisivos. Como sintetizou Manuela Vaz, “não conseguimos reinventar os negócios dos nossos clientes se não nos conseguirmos reinventar a nós próprios”, num mundo de mudança permanente.
A gestão do risco sistémico esteve em foco na intervenção de Joaquim Henriques, da Moody’s, que alertou que “as crises hoje têm um carácter sistémico” e que o risco “não deve ser visto como um fator paralisante”, mas como uma variável a gerir estrategicamente, definindo níveis claros de tolerância.
A dimensão digital foi aprofundada numa conversa entre Bernardo Correia, secretário de Estado para a Digitalização, e António Lagartixo, CEO da Deloitte Portugal. Para o governante, “há muito barulho no curto prazo, mas é preciso distinguir isso das tendências de longo prazo”, defendendo que Portugal pode continuar a ser “uma fantástica ponte transatlântica”. Lagartixo reforçou a ideia, lembrando que a posição geográfica e os cabos submarinos colocam o país numa “situação estratégica única a nível mundial”.
A energia surgiu como outro pilar essencial. Miguel Stilwell d’Andrade, CEO da EDP, afirmou que “a energia está no centro da economia e da sociedade”, sublinhando que a Península Ibérica dispõe hoje de um hub elétrico competitivo, mais limpo e com preços inferiores à média europeia, uma vantagem decisiva para atrair investimento, nomeadamente em data centers e indústria tecnológica.
O encerramento ficou a cargo de Douglas A. Koneff, Encarregado de Negócios da Embaixada dos EUA em Portugal, que reforçou que a relação bilateral “não é apenas sobre tratados ou números”, mas sobre “confiança e valores partilhados”. Num mundo focado na divisão, garantiu que “a relação transatlântica não está a cair”, antes se mantém dinâmica, resiliente e cheia de oportunidades.
No seu conjunto, o TBS 2026 deixou uma mensagem clara: num mundo fragmentado e em rápida transformação, a resiliência económica constrói-se através de cooperação, previsibilidade e crescimento sustentado. Para Portugal, a relação transatlântica não é apenas um legado histórico, mas uma oportunidade estratégica para afirmar o seu papel no futuro da economia global.”






