Andreia Valente, Cofundadora e CTO da R‑nuucell, explica como uma descoberta na FC‑UL se tornou projeto clínico e que futuro se desenha para doentes com cancro metastático.
A R-nuucell nasceu da investigação desenvolvida na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e transformou uma descoberta laboratorial num projeto empresarial. Quais foram os momentos mais determinantes nessa passagem da ciência para a inovação com potencial clínico?
Penso que houve três momentos determinantes neste percurso: a vitória no concurso ScienceIN2Business do TecLabs, o contacto com business angels, que permitiu internacionalizar a nossa primeira patente, e a vitória no INNOV-ID, da Portugal Ventures, que levou à criação da R-nuucell em 2021. Tão importante quanto estes marcos foi a relação entre mim e a Helena, cofundadora e CEO da R-nuucell. Partilhamos os mesmos valores e visão para o projeto, e essa confiança mútua tem sido fundamental para manter a motivação e a resiliência ao longo deste percurso de transformação da ciência em inovação com potencial clínico.

Os metalofármacos desenvolvidos pela R-nuucell procuram responder a três dos maiores desafios no tratamento oncológico: a seletividade para as células malignas, a metastização e a resistência a múltiplos fármacos. Em que medida esta abordagem poderá representar uma mudança de paradigma face às terapias atualmente disponíveis?
Quando desenhamos um potencial fármaco para o tratamento do cancro, temos sempre esse objetivo em mente, porque, tanto quanto sabemos, não existe atualmente nenhuma terapêutica que responda simultaneamente a estes três desafios: seletividade para as células tumorais, metastização e resistência a múltiplos fármacos. Estes problemas estão intimamente ligados. A falta de seletividade dos tratamentos atuais não só provoca efeitos adversos significativos, como também pode favorecer o desenvolvimento de resistência terapêutica, uma das principais causas de insucesso em doentes com doença avançada e metastizada. Ao procurar atuar simultaneamente nestas três frentes, a abordagem da R-nuucell tem o potencial de oferecer uma estratégia mais eficaz e direcionada, contribuindo para o desenvolvimento de terapias oncológicas mais precisas e com maior benefício para os doentes.
Olhando para os próximos anos, que ambição tem a R-nuucell para a evolução dos seus programas de investigação e desenvolvimento, e como imagina o contributo da empresa para um futuro em que os doentes com cancro metastático e resistente possam dispor de opções terapêuticas mais eficazes e personalizadas?
Neste momento, o nosso principal programa de investigação centra-se nos cancros pancreático e colorretal com mutações na proteína KRAS, áreas em que as opções terapêuticas continuam a ser limitadas. Desenvolvemos um inibidor direcionado às principais mutações desta proteína, com resultados muito promissores em modelos in vivo. Nos próximos um a dois anos, pretendemos concluir a fase de validação pré-clínica, incluindo estudos de toxicidade, eficácia e preparação para futura administração em humanos. Em paralelo, estamos a desenvolver um segundo projeto de terapias combinatórias para cancros resistentes, também com resultados muito encorajadores. A nossa ambição é contribuir para que os doentes com cancro metastático e resistente tenham acesso a tratamentos mais eficazes e personalizados, respondendo a necessidades médicas que continuam por satisfazer.







