A partir da arquitetura, Sara Afonso construiu um percurso que hoje cruza criação, estratégia e liderança empresarial. Nesta entrevista, reflete sobre essa evolução, o novo ciclo marcado pela entrada na promoção imobiliária e a ambição de criar projetos com impacto real — nas pessoas, nos territórios e na forma como vivemos.
O seu percurso começou na arquitetura, mas hoje assume também um papel empresarial muito ativo. Como define esta evolução?
A arquitetura foi sempre o meu ponto de partida e continua a ser a base da minha forma de pensar, observar e criar. Ensinou-me a olhar para os espaços, para as pessoas e para os contextos de forma integrada. Com o tempo, percebi que a minha intervenção podia ir além do projeto arquitetónico e ganhar uma dimensão mais empresarial. Essa evolução aconteceu de forma natural, sempre ao lado do meu marido, João Resende, também arquiteto e meu parceiro em todos os negócios. Juntos fomos construindo um grupo de empresas que responde a várias dimensões do setor: arquitetura, imobiliário, fiscalização, gestão de projetos, interiores e promoção imobiliária.
Sou também mãe de três rapazes, com 15, 21 e 22 anos, e essa dimensão familiar dá-me uma consciência forte sobre responsabilidade, equilíbrio e futuro. Hoje, vejo-me como arquiteta, empresária, gestora e promotora. Continuo a desenhar espaços, mas desenho também estratégias, equipas, negócios e projetos de vida.

O Something Group reúne diferentes empresas. Como se complementam e que valor entregam ao mercado?
O Something Group cresceu da vontade de criar respostas completas e integradas. Atualmente, reúne a Something Imaginary, dedicada à arquitetura; a Something Perfect, na área da mediação imobiliária; a Something 3XY, focada na fiscalização e gestão de projetos; a Sara Afonso Arquitetura e Interior Design; e, mais recentemente, a Lendas e Enigmas, ligada à promoção imobiliária e turistica.
Esta complementaridade permite-nos acompanhar um projeto desde a ideia inicial ao conceito arquitetónico, investimento, gestão, fiscalização, comercialização e concretização final. A nossa proposta de valor está na capacidade de cruzar criatividade com estratégia, arquitetura com negócio, sensibilidade estética com rigor técnico. Não olhamos para os projetos apenas como obras ou ativos imobiliários, mas como experiências, lugares com identidade e oportunidades de criar valor real.
A promoção imobiliária é uma nova dimensão do seu percurso. O que a levou a avançar para esta área?
A promoção imobiliária surgiu como uma evolução natural. Depois de muitos anos a desenvolver projetos para clientes, sentimos que fazia sentido assumir também o papel de promotores, com uma intervenção mais completa desde a origem da ideia até à concretização final. Enquanto arquiteta, sempre tive uma relação forte com o potencial dos lugares. Gosto de perceber o que um terreno, uma paisagem ou um edifício podem vir a ser. A promoção imobiliária permite-nos transformar essa visão em realidade, assumindo o desenho, a estratégia, o investimento, o conceito, a gestão e o impacto final. Com a Lendas e Enigmas damos início a uma nova etapa. É uma área exigente, que implica responsabilidade financeira, decisão e resiliência, mas é também muito estimulante, porque nos permite criar projetos com identidade própria, pensados de raiz e com uma visão clara sobre aquilo que queremos entregar ao mercado.
O projeto da Herdade do Cuco marca essa nova etapa. Que visão pretende materializar?
A Herdade do Cuco representa uma etapa decisiva para mim, para o João e para o grupo. Ao longo dos últimos anos, temos desenvolvido projetos turísticos muito relevantes, mas este é o primeiro em que assumimos integralmente a visão enquanto promotores e owners. Mais do que um projeto turístico, com 90 camas no Alentejo, queremos desenvolver uma experiência com uma intenção clara: criar um lugar pensado para o descanso, para a reconexão, para o silêncio e para o equilíbrio.
Este projeto surge também num momento em que aprofundo o meu interesse pela relação entre neurociência e arquitetura. Tenho estudado a forma como os espaços interiores e exteriores influenciam o comportamento, as emoções e o bem-estar. A Herdade do Cuco nasce dessa reflexão: como pode a arquitetura contribuir para a cura da mente, para a pausa e para uma vivência mais consciente?
Quando olha para o futuro, onde gostaria de ver o Something Group nos próximos anos?
Gostaria de ver o Something Group consolidado como um grupo de referência nas áreas da arquitetura, imobiliário, fiscalização, gestão de projetos, interiores e promoção imobiliária. Um grupo reconhecido pela qualidade, pela visão integrada e pela capacidade de transformar ideias em projetos consistentes. Mas, acima de tudo, ambiciono que o grupo cresça de forma sustentada e partilhada. Acredito que as empresas são feitas de pessoas e que o futuro passa por modelos de gestão mais colaborativos, onde as equipas sejam parte ativa da visão, das decisões e do crescimento.
Uma das minhas ambições é evoluir para uma gestão cada vez mais partilhada, onde possa existir também a possibilidade de participação dos colaboradores no capital das empresas, através da partilha de quotas. Para mim, esta é uma forma de reconhecer o valor de quem caminha connosco, criar compromisso e construir um projeto empresarial mais forte, mais justo e mais alinhado.
Que mensagem gostaria de deixar a outras mulheres que querem liderar, empreender ou ocupar cargos de decisão?
A mensagem que gostaria de deixar é que não esperem pelo momento perfeito. Muitas vezes, o momento perfeito não existe. O caminho constrói-se com coragem, trabalho, persistência e capacidade de adaptação.
Liderar e empreender exige foco, resiliência e capacidade de tomar decisões. Nem sempre é fácil, sobretudo em setores exigentes como a arquitetura, a construção ou a promoção imobiliária, mas é possível construir um percurso sólido quando acreditamos na nossa visão e trabalhamos com consistência.
Também acredito que não temos de escolher entre ser mulheres, mães, profissionais, líderes ou empresárias. Podemos ser tudo isso, ainda que nem sempre seja simples equilibrar todas essas dimensões. O importante é não diminuirmos a nossa ambição e não termos receio de ocupar lugares de decisão. Quando lideramos com autenticidade, foco e determinação, abrimos caminho não só para nós, mas também para outras mulheres.








