Alergias em Portugal: Desafios e avanços

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Num contexto em que as doenças alérgicas atingem já um quarto da população portuguesa e refletem dinâmicas globais associadas à urbanização, poluição e alterações climáticas, o desafio não é apenas clínico — é também estrutural. Ana Morête, Presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), traça um retrato do presente e aponta caminhos para o futuro da imunoalergologia em Portugal, defendendo uma resposta integrada que una ciência, políticas públicas e literacia em saúde.

Em Portugal, estima-se que até um quarto da população sofra de doenças alérgicas. O que explica esta prevalência elevada e que fatores têm contribuído para o seu aumento nas últimas décadas?

Esta prevalência elevada alinha-se com tendências globais, especialmente em países desenvolvidos, e pode ser explicada por uma combinação de fatores genéticos, ambientais e estilos de vida modernos. Estudos epidemiológicos portugueses indicam que a prevalência tem aumentado, especialmente em crianças e jovens adultos. A falta de comparticipação para tratamentos como as vacinas antialérgicas, pode limitar o controlo eficaz das alergias, contribuindo para a persistência de sintomas mais graves.

 

Ana Morête, Presidente

 

As alterações climáticas e a poluição atmosférica têm sido apontadas como fatores agravantes das doenças alérgicas. Que evidência científica sustenta esta relação e como se antecipa que a situação evolua nos próximos anos?

Esta relação é sustentada por um conjunto robusto de evidência científica que demonstra impacto no aumento da prevalência e gravidade.

O prolongamento das épocas de polinização, mudanças na distribuição de alergénios, intensificação de eventos climáticos extremos, irritação das vias aéreas e aumento da alergenicidade dos pólenes são os principais responsáveis. Por outro lado, as alterações climáticas afetam a produção de certos alimentos, tornando-os mais alergénicos, e podem agravar queixas na pele, penetrando a barreira cutânea e exacerbando a inflamação no doente atópico.

Em Portugal, projeta-se um aumento de 2-3°C até 2050, o que poderá intensificar a prevalência das doenças alérgicas.

A imunoterapia específica, conhecida como vacina antialérgica, é apontada como o único tratamento que modifica a evolução da doença. Como funciona este tratamento e porque continua a não ser comparticipado em Portugal, ao contrário do que acontece noutros países da União Europeia?

As vacinas antialérgicas, são um tratamento que visa induzir tolerância imunológica a alergénios específicos, dessensibilizando o doente. O tratamento consiste na administração controlada e progressiva de doses crescentes do alergénio ao qual o paciente é alérgico com o objetivo de “reeducar” o sistema imunológico. Isso resulta na diminuição dos sintomas, redução de necessidade de medicação e melhoria da qualidade de vida. Em alguns casos, especialmente em alergias graves como a picada de abelhas e vespas, o tratamento pode ser curativo. Apesar de custo-efetiva, reduzindo custos com medicamentos e internamentos, Portugal não a comparticipa desde 2011, devido a restrições económicas da Troika. A SPAIC tem vindo a lutar pela reposição da comparticipação tendo efetuado uma petição à Assembleia da Républica. No dia 26 de junho de 2025 a referida petição foi discutida em sessão plenária da AR, e o projeto de resolução n.º 44/XVII/1.ª – Recomenda ao Governo a reposição da comparticipação do tratamento de imunoterapia especifica com alergénios (vacinas antialérgicas) – foi aprovado.

Os mapas polínicos e acarológico disponíveis no site da SPAIC são ferramentas importantes para os doentes. Qual tem sido a recetividade do público e dos profissionais de saúde a estes recursos, e que impacto real têm na gestão das alergias?

A Rede Portuguesa de Aerobiologia criada pela SPAIC em 2002, disponibiliza o Boletim Polínico no site www.rpaerobiologia.com, informando semanalmente sobre níveis de pólenes em 9 estações de monitorização. Esta ferramenta é valorizada por doentes alérgicos, com milhares de acessos durante as épocas polínicas ajudando a evitar alergénios e ajustar medicações. Profissionais de saúde, sobretudo imunoalergologistas, usam os mapas para diagnóstico e orientações terapêuticas.

Em relação aos dados acarológicos, orientam medidas de controlo ambiental (ex.: uso de capas anti-ácaros ou desumidificadores), especialmente em regiões húmidas como o litoral português.

Sendo a doença alérgica transversal a todas as idades, que desafios específicos se colocam ao diagnóstico e tratamento em populações pediátricas e geriátricas?

Em crianças, a imaturidade imunológica, a dificuldade em realizar testes diagnósticos como os testes cutâneos por picada e as provas de função respiratória e a evolução dos sintomas com o crescimento constituem os principais desafios.

Nos idosos o envelhecimento imunológico (imunossenescência), as comorbilidades e os riscos da polimedicação são os principais desafios.

O que considera serem os principais avanços científicos na área da imunoalergologia nos últimos anos e como se refletem já na prática clínica em Portugal?

A imunoalergologia tem evoluído com diagnósticos e tratamentos mais precisos. O diagnóstico molecular identifica alergénios específicos, melhora a precisão diagnóstica e a orientação terapêutica. Em Portugal está disponível apenas em alguns hospitais devido ao seu elevado custo. A imunoterapia (subcutânea e sublingual) evoluiu com formulações mais padronizadas, doses otimizadas e novos alergénios para a abordagem dos doentes polissensibilizados. A introdução de medicamentos biológicos, como os anticorpos monoclonais revolucionou o tratamento das formas graves da das doenças alérgicas.

 

 

 

 

A SPAIC tem vindo a reforçar a sua presença no debate público e na comunicação digital. Qual é hoje o papel da Sociedade na defesa dos doentes alérgicos e que estratégias estão em curso para aumentar a literacia em saúde nesta área?

A SPAIC desempenha um papel fundamental na defesa dos doentes alérgicos em Portugal promovendo a sensibilização, a educação, a investigação e a melhoria do acesso a cuidados de saúde. Investe na formação de profissionais, pressiona pela comparticipação da imunoterapia pelo SNS. Organiza eventos para os doentes como a Semana Mundial da Alergia, publica a Revista Portuguesa de Imunoalergologia, materiais educativos entre outros. A sua presença no debate público e na comunicação digital posicionam a SPAIC como referência em matéria de alergologia em Portugal.

No contexto do Dia Mundial da Alergia, e olhando para o futuro da imunologia e do tratamento das alergias, que avanços acredita que poderão vir a transformar a forma como prevenimos ou tratamos as alergias nos próximos anos?

O Dia Mundial da Alergia é uma oportunidade para aumentar a consciencialização sobre as doenças alérgicas e destacar avanços científicos. Com base nas tendências atuais em imunoalergologia, o futuro aponta para uma abordagem integrada, multidisciplinar e centrada no doente, onde a prevenção será tão importante quanto o tratamento. A imunologia caminha para se tornar uma das áreas mais transformadoras da medicina do século XXI.

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