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O Cancro e a importância do circuito individualizado para o doente

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Cerca de 20% das pessoas desenvolverá um cancro ao longo da vida. O desenvolvimento do cancro inicia-se com uma desregulação do controlo do ciclo celular (com uma replicação celular autónoma, excessiva, desorganizada e indefinida), com a influência de fatores ambientais (químicos, físicos e biológicos), de fatores genéticos, de características fisiológicas hereditárias e da acumulação de mutações somáticas.

É fundamental tentarmos reduzir o impacto dos fatores ambientais e das mutações somáticas que podem ser modificáveis e que representam cerca de 95% das causas do cancro. Para além disso, os rastreios, que podem identificar a doença em fases precoces e ainda sem sintomatologia associada, permitem um aumento substancial da probabilidade de sobrevivência a longo prazo, e com muito menos custos (financeiros e humanos) para as famílias e para todo o sistema.

 

Prof. Hugo Ribeiro Médico da ECSCP Gaia – ULS Gaia e Espinho Professor auxiliar convidado da FMUC e FMUP Investigador integrado no iCBR – CIMAGO Membro convidado da European Comission Initiative on Cancer – Supportive Care Top Specific Group

 

Em Portugal, são diagnosticados mais de 60 mil novos casos de cancro todos os anos, quase 20% em fase avançada (com metástases).

O circuito do doente, desde a confirmação do diagnóstico, deve ser centrado nas necessidades individuais, de forma a promover os melhores resultados.

Há duas medidas fundamentais para avaliar os sistemas quanto à abordagem do doente com cancro: por um lado, todos os médicos e outros profissionais terão que ter formação básica em medicina da dor e em medicina paliativa ou cuidados paliativos; por outro lado, o sistema tem que ter equipas altamente diferenciadas em cuidados paliativos e médicos altamente especializados em medicina paliativa para abordar as situações com elevada complexidade clínica. Só assim se conseguirá dar resposta eficiente ao impacto global da doença e à amplitude das necessidades que a mesma pode provocar.

A terapêutica do cancro não começa nem acaba com a quimioterapia, a cirurgia, a radioterapia, ou outras terapias dirigidas à doença. A tomada de decisão clínica para estas estratégias também terá que envolver médicos especialistas em medicina paliativa, que deverão ser altamente treinados e estarão focados em garantir o menor dano possível para o doente, atendendo à sua funcionalidade global, trajetória individual de doença, sintomatologia, qualidade de vida, expectativas, preferências e impacto biopsicossocial, cultural, espiritual e existencial.

Geralmente o cancro está associado a dor, a náuseas, a vómitos, a perda de apetite, a emagrecimento, a depressão, a perda de autonomia, entre outros impactos negativos na esfera pessoal e familiar.

Mas e se pudermos reduzir todo este impacto negativo? E se pudermos aliviar mais de 80% destes sintomas e melhorar a funcionalidade global e a qualidade de vida dos doentes e das famílias de doentes com cancro?

Precisamos urgentemente de reflectir sobre o valor criado pelo sistema, nas suas múltiplas dimensões e direcções, particularmente em relação ao cancro.

A qualidade da prestação de cuidados não se encerra nos resultados clínicos de cura ou remissão da doença. Precisamos de avaliar, de monitorizar e de melhorar o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas. Até porque, se o fizermos, aumentaremos também a sobrevivência.

Para conseguirmos tudo isto precisamos da especialidade médica em Medicina Paliativa, com a exigência de um internato como todas as outras especialidades, melhorando a qualidade técnico-científica desta área. E precisamos de mais equipas de Cuidados Paliativos e de monitorizar e melhorar a sua performance.

Um doente com cancro beneficia de abordagens multidisciplinares (com profissionais que complementem competências e aptidões de modo a optimizar os resultados) e multimodais (com fármacos que criem singergismos entre si e reduzam o potencial de efeitos secundários e adversos).

Reconhecer esta complexidade é fundamental. Haja vontade de romper paradigmas e de estar no grupo dos melhores países da Europa e do mundo no acompanhamento das pessoas com cancro.

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