Na linha da frente da defesa dos interesses e aspirações das empresas portuguesas e dos empresários

António Saraiva, Presidente

Em entrevista exclusiva à Revista Business Portugal, António Saraiva, presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal –, fala-nos da resposta de Portugal à pandemia. Apesar deste ano atípico, o nosso entrevistado dá garantias de que a CIP continuará na linha da frente da defesa dos interesses e das aspirações das empresas portuguesas e dos empresários.

 

Há dez anos que está na liderança da CIP. Que balanço faz deste trajeto na maior e mais representativa estrutura associativa empresarial portuguesa?

Faço um balanço positivo por tudo o que foi feito, mas também de insatisfação pelo que ainda falta alcançar.

Comparada com o que era em janeiro de 2010, a CIP é hoje, indiscutivelmente, mais forte e tem uma maior capacidade de intervenção na sociedade. Renovou-se, num processo que lhe proporcionou um universo de representação transversal, mais abrangente, e que continua a alargar-se. Capacitou-se, para responder melhor à sua missão, quer ao nível da sua estrutura interna, quer pelo reforço da sua presença internacional no seio das principais organizações mundiais de empregadores. Dotou-se de um conjunto de conselhos consultivos que têm permitido uma contribuição muito válida da estrutura associativa para sua intervenção.

A insatisfação é inerente à nossa própria missão: defender a atividade empresarial e o progresso da economia. Os resultados ficam sempre aquém da nossa ambição.

 

A CIP trabalha na resposta aos desafios que se colocam à sociedade e às empresas, como agentes de mudança, antecipando e propondo soluções. Como é que a CIP encarou os novos desafios impostos às empresas pela pandemia do novo Coronavírus em Portugal?

Procuramos estar à altura das responsabilidades acrescidas desses novos desafios.

Acompanhamos de perto a evolução da situação, auscultando os nossos associados em permanência. Mantemos um diálogo próximo e constante com o Governo, reportando a realidade, procurando respostas em tudo o que diz respeito às empresas, avaliando e discutindo medidas, exigindo mais e melhor, na certeza de que só salvando as empresas será possível preservar o emprego e evitar danos irreversíveis no potencial produtivo. Desenhámos e apresentámos soluções com vista a criar condições para a recuperação, que é necessário acelerar, estimular e tornar sustentável. O mesmo fazemos, à escala europeia, através da nossa participação na BusinessEurope. Acorremos, frequentemente, a dificuldades pontuais que nos vão chegando através dos nossos associados, intervindo na medida do possível.

Em suma, cumprimos, neste contexto, a nossa missão de ser a voz das empresas, interpretando os problemas e necessidades de todos os seus associados, servindo-os, coordenado os seus esforços e defendendo os seus interesses comuns.

Também assumimos esta missão junto da opinião pública, conscientes de que, nestes momentos de maior dramatismo e sensibilidade, não podemos descurar o papel social das empresas, nem a correta expressão pública de uma mensagem responsável, que dignifique os empresários.

 

Com a pandemia, o teletrabalho revelou-se desde logo como uma solução para compatibilizar a exigência de confinamento com a continuidade da atividade empresarial. Mas no regresso ao novo normal, muitas empresas continuaram a trabalhar neste regime. Considera que o que antes não era encarado como opção, é agora visto como alternativa a ponderar por parte das empresas?

Sem dúvida. O recurso ao teletrabalho, a que muitas empresas foram forçadas, foi revelador de vantagens e inconvenientes. Esta experiência não deixará de se refletir numa nova perceção, com consequências sobre o recurso futuro a esta forma de prestação do trabalho.

O teletrabalho não vai, naturalmente, ter aplicação em todos os sectores e profissões, nem assumirá igual intensidade naqueles em que se revela ser possível. O que não levanta dúvidas é que a pandemia serviu como driver, quebrando inércias, destruindo preconceitos, revelando potencialidades. Criou-se confiança.

Esta realidade vem tornar ainda mais premente a necessidade de acautelar a existência de competências digitais, questão fundamental para as empresas. Traz também novos desafios à sua abordagem ao nível das relações laborais. A este respeito, é preciso ter em conta que a heterogeneidade setorial, empresarial e mesmo pessoal, não se compadece com soluções gerais e abstratas. Defendo, por isso, que a negociação coletiva entre parceiros sociais que estão no terreno e conhecem as respetivas realidades será o espaço privilegiado para procurar e definir soluções pragmáticas e equilibradas.

 

A nova realidade trouxe o desafio da inovação e da transformação digital. Esta transição exige investimento, profissionais qualificados e lideranças empresariais que saibam definir estratégias. As empresas portuguesas estão preparadas para avançar com este novo paradigma, a fim de atingirem maior crescimento e rentabilidade?

De facto, este desafio exige mais investimento – indispensável à incorporação de inovação nos produtos e nos processos – e melhores qualificações, sobretudo qualificações adequadas.

Quanto à sua capacidade para investir, a generalidade das empresas portuguesas está agora, particularmente, fragilizada. Além do risco imediato de muitas empresas não aguentarem a perda de receitas e encerrarem definitivamente a sua atividade, há também o risco de termos empresas que sobrevivem, mas caem em dificuldades financeiras que as impedem de investir. São, por isso, necessárias e urgentes medidas que favoreçam o reforço de capitais das empresas. É preciso, também, estimular fiscalmente o investimento empresarial. Reduzir a carga fiscal sobre as empresas e tornar o sistema fiscal português mais competitivo, mais previsível e simples, são objetivos fundamentais para relançar duradouramente o investimento e a CIP tem apresentado propostas concretas nesse sentido.

Quanto à qualificação, se, no cenário pré-Covid, o desafio da inovação e da transformação digital e tecnológica impunha já a necessidade de requalificação ou mesmo reconversão profissional, agora esta necessidade torna-se ainda mais urgente. A pandemia vem acelerar um processo de transformação de competências que já vinha a desenhar-se. Além de gerar desemprego, esta crise está a sedimentar ainda mais a omnipresença de novas tecnologias na forma como trabalhamos. É crítico que, em articulação com as empresas, o Estado apoie a formação em larga escala dos trabalhadores, para que adquiram competências que os tornem atrativos no mercado de trabalho e para que a economia se torne, no seu conjunto, mais competitiva.

 

Ainda está verdadeiramente por apurar o real impacto da pandemia na economia portuguesa e nas suas empresas. Como avalia, num primeiro momento, a ação do Governo e as medidas que foram implementadas durante este período?

Tenho de reconhecer o esforço do Governo em conceber e implementar, desde o início, em diálogo com as empresas e os seus representantes, medidas no sentido de atenuar o impacto económico da pandemia. Tímidas e desajustadas, num primeiro tempo, estas medidas foram-se adequando, à medida que o Governo foi ouvindo os agentes económicos e se foi apercebendo da realidade. O layoff simplificado foi, a este respeito, um bom exemplo, infelizmente descontinuado.

Subsiste, no entanto, um grande desfasamento entre os apoios disponibilizados e as necessidades. Persistem, disfunções que prejudicam a eficácia e rapidez com que as medidas chegam ao terreno. O esgotamento de muitas das medidas tomadas numa primeira fase deixou de fora milhares de empresas. Por isso, no último inquérito promovido pela CIP, em parceria com o Marketing FutureCast Lab do ISCTE, já em setembro, perto de 80 por cento das empresas consideraram que os programas de apoio do Estado Português estão aquém ou muito aquém do que necessitam.

Além disso, o problema não se prende apenas com a dimensão e agilidade dos apoios, mas também com a sua tipologia, na medida em que concorrem para o aumento do endividamento das empresas. Ora, as empresas não precisam de mais endividamento, cujo agravamento as colocará numa posição ainda mais frágil, travando o investimento, penalizando a competitividade, aumentando a vulnerabilidade a aquisições hostis. Por isso, a CIP tem apelado a uma reorientação das medidas, com um maior recurso a incentivos a fundo perdido e a instrumentos de capitalização das empresas.

 

O layoff simplificado terá sido, porventura, umas das medidas mais importantes que o Governo implementou nos últimos meses. A partir de agosto, os empregadores com quebras de faturação de, pelo menos, 40 por cento começaram a poder requerer o apoio à retoma progressiva, conhecido como sucedâneo do layoff. Qual a sua opinião sobre este apoio e o que podem esperar as empresas?

O layoff simplificado foi, de facto, a mais importante ferramenta de apoio na defesa do emprego e das empresas. Não foi uma qualquer solução milagrosa, mas foi a forma que se encontrou para acautelar a manutenção de postos de trabalho, tanto quanto possível, e apesar de todos os percalços na concretização da medida no terreno.

Já terá ficado para trás, pelo menos assim o espero, o pior momento de contração da economia, no entanto, a atividade das empresas (umas mais afetadas do que outras, é certo), permanece em níveis historicamente baixos, apesar das (lentas) melhorias que se vão observando.

Os efeitos nas empresas ainda estão longe de estarem dissipados e vão perdurar. Com a quebra, ainda persistente, nas receitas, muitas empresas não conseguirão fazer face às despesas fixas inerentes às suas responsabilidades contratuais, apesar dos apoios à tesouraria que foram concedidos. No último inquérito que fizemos, quase dois terços das empresas disseram antever uma quebra de vendas de cerca de 40 por cento, em média, nestes meses até ao final do ano. Além disso, a maioria revelou que as encomendas em carteira, no início de setembro, também diminuíram 40 por cento.

De acordo com todas as evidências, ainda não passámos a fase mais crítica no que diz respeito ao emprego. Nesse sentido, seria avisado que se mantivesse um programa de apoio que estava já a funcionar, em vez de se enveredar por uma reformulação, com novos processos, com mais burocracia e com um novo período de ajustamento. É introduzir ruído num sistema, numa altura em que a rapidez de resposta é fundamental. Limitar os apoios às empresas vai pôr em causa o objetivo proposto de defender postos de trabalho. No meu entender, corremos o risco de não apoiar devidamente o emprego para, a seguir, acabarmos por financiar o desemprego, através da Segurança Social.

 

E no que concerne à resposta da União Europeia, acha que vai ao encontro das expectativas da indústria portuguesa?

Julgo que com o acordo sobre o Plano de Recuperação, a União Europeia criou condições – não ideais, mas certamente mais favoráveis – para ultrapassar, em comum, um desafio sem precedentes.

Este Plano integra, além de outras vertentes, o objetivo de assegurar a autonomia estratégica da União Europeia, através de uma política industrial dinâmica. Este foco é fundamental, porque o relançamento da indústria portuguesa será parte do relançamento da indústria europeia, ou simplesmente não será uma realidade.

É necessário, agora, assegurar que os novos fundos são disponibilizados de forma atempada e aplicados eficazmente, de forma a que saiamos deste período de crise reforçados.

No plano nacional, é preciso conceber e aplicar um verdadeiro plano de recuperação que, por um lado, robusteça as empresas, enfraquecidas pelo impacto da crise e, por outro lado, promova a modernização e reorientação de toda a economia, e da indústria em particular, numa visão de longo prazo, em coerência com as opções estratégicas europeias, mas enfrentando os problemas estruturais que ainda travam o crescimento em Portugal.

 

António Saraiva foi reeleito presidente da CIP para o triénio 2020-2022. Quais são as prioridades para os próximos anos?

As prioridades definidas no programa da CIP para o triénio 2020-2022 mantêm-se, no quadro obviamente mais exigente da recuperação da economia da crise sem precedentes por que está a passar:

A defesa da competitividade das empresas;

A promoção do talento e o desenvolvimento de competências para a era digital;

O desenvolvimento de um Portugal sustentável;

O reforço do movimento associativo.

 

Um dos grandes desafios que os sectores industriais vão enfrentando prende-se com a atração de jovens para as empresas. De que forma será possível contornar este problema?

Trata-se de um problema bem identificado no conjunto de propostas apresentado pela CIP no início desta legislatura.

Muitas das medidas apresentadas, em diversas frentes, têm presente essa preocupação.

Destacaria as medidas de formação e requalificação profissional, para aproximar a oferta e a procura no mercado de trabalho, mas também o lançamento de uma campanha de promoção da indústria nacional junto dos jovens e da comunidade envolvente, para melhorar a perceção da população sobre o trabalho na indústria; as políticas de conciliação da vida profissional, pessoal e familiar, que constituem uma forte componente no domínio das medidas de atração e retenção dos recursos mais qualificados; as políticas de migração, com o objetivo da atração e integração de ativos com capacidade para serem inseridos nos setores mais necessitados de recursos humanos.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos empresários e empresas portugueses?

Uma mensagem de apreço e de profundo respeito pelo testemunho de responsabilidade e persistência que têm dado.

Uma mensagem de solidariedade, na certeza de que a CIP continuará na linha da frente da defesa dos seus interesses e das suas aspirações.

O pedido para que mantenham, sempre, a coragem de resistir.

 

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