Formação e qualificação profissional
A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA), fundada em 1954, é uma associação de empresas sem fins lucrativos e de utilidade pública com mais de 1000 associados. A procura de profissionais qualificados ao nível de quadros médios e a inexistência naquela data de ensino profissionalizante, levaram a que em 1983 fosse fundado o serviço de qualificação profissional da Câmara por iniciativa de 12 empresas alemãs, como a AEG, Robert Bosch, Hoechst, Mercedes-Benz, Miele, Siemens entre outras. Em 2007 este serviço passou a designar-se DUAL. O core business da DUAL é a qualificação inicial de jovens, mas a qualificação contínua de ativos e a consultoria, fazem igualmente parte do seu portefólio. A Revista Business Portugal conversou com o seu diretor, Elísio Silva.
Presente no mercado nacional há 35 anos, como surge e evoluiu a Dual?
A DUAL surgiu com o objetivo de formar jovens e, desta forma, apoiar as empresas alemãs em Portugal, mas também a economia e as empresas nacionais. Iniciou a sua atividade com o curso de Técnico de Gestão Administrativa, simultaneamente em Lisboa e no Porto, seguindo rigorosamente o programa alemão. Um ano depois iniciou o curso de Técnico de Eletricidade e Eletrónica Automóvel, com o apoio da Bosch. Depois disso foi alargando a sua oferta formativa em função das necessidades do mercado. Hoje a DUAL possui um plano de formação que vai desde a área automóvel até à área da manutenção industrial, passando por áreas tão diferentes como a da gestão administrativa, dos Transportes, da Hotelaria e Turismo, entre outras. Possui três Centros de Formação DUAL, em Lisboa, Porto e Portimão. Em 2017, 1.104 jovens frequentaram os seus cursos de qualificação inicial.
Aponte as principais diferenças entre o programa educativo alemão e o português.
O sistema de formação profissional dual tem uma longa tradição na Alemanha. Alguns dos seus elementos já existem há vários séculos. A orientação prática e o intercâmbio de experiências e bestpractice, são características deste sistema, bem como a garantia de qualidade da qualificação e dos exames de avaliação final. O sistema dual permite que os conhecimentos adquiridos em sala sejam cimentados e testados na prática que decorre longo de todo o percurso formativo, já que existe uma alternância entre as aulas teóricas ministradas num Centro de Formação e a qualificação prática em empresas. Este sistema tem como principal característica o facto de providenciar conhecimento, know-how e atitudes, em articulação com a aquisição de experiência profissional efetiva e real. Desta forma, o treino/formação que o formando recebe, evolui dentro das mesmas condições que o formando irá encontrar aquando do exercício efetivo de uma profissão. No final, o formando estará apto a ocupar uma função produtiva. Durante a formação, são estimuladas as competências e motivações em alcançar algo, em ser responsável, em ser criativo e independente, com uma elevada consciência de qualidade. Em complemento a este core training na empresa, o formando tem as aulas teóricas e algumas práticas simuladas em sala, laboratório ou oficina, monitoradas por formadores que visitam e estudam regularmente empresas mais representativas da área, onde analisam os principais indicadores sócio comportamentais, laborais, produtivos, tecnológicos, da gestão e outros, de forma a adaptarem e refletirem os mesmos nos métodos e nos conteúdos da sua atividade. Os formadores desenvolvem assim atividades de ‘coaching’, potenciando e majorando a formação que ministram. A grande diferença entre os sistemas alemães e portugueses, prende-se, efetivamente, com a importância e a participação das empresas em todo o processo formativo. No modelo alemão, a formação prática em contexto de empresa varia entre 70 e 80 por cento da formação total, sendo que os restantes 20 a 30 por cento correspondem a formação realizado num Centro de Formação. No modelo português, nomeadamente no Sistema de Aprendizagem, promovido pelo IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional, estas componentes correspondem a 40 e 60 por cento respetivamente. Nos últimos anos a DUAL tem integrado um projeto designado VETnet, apoiado pelo Governo alemão e no qual participam 11 Câmaras de Comércio e Indústria Alemãs no estrageiro e que tem permitido a troca de experiências entre países e a adaptação dos respetivos modelos de formação.
As empresas que acolhem os estagiários são todas associadas da CCILA?
As empresas que recebem os nossos formandos não necessitam de ser nossas associadas. Contudo, tentamos que sejam e, quando não são, convidamo-las a associarem-se.
Das 1.030 empresas associadas apenas cerca de 1/3 é alemã, por isso, reforço que qualquer empresa pode ser nossa associada e, se desejar e tiver condições para tal, pode receber os nossos formandos.
Quem e como é decidida a oferta formativa da DUAL?
Regularmente fazemos um levantamento de necessidades junto das empresas. Além disso, vamos aferindo a taxa de empregabilidade de cada curso. Em 2017, por exemplo, a taxa média de empregabilidade foi de 95%, ou seja, seis meses após terminarem os cursos quase todos os nossos formandos estavam inseridos no mercado laboral. Este é um indicador fundamental para decidirmos sobre os cursos/áreas que devemos continuar a oferecer.
Quais as áreas de formação mais procuradas pelos jovens?
Há áreas profissionais que são mais atrativas para os jovens do que ouras, como é o caso da mecatrónica automóvel, onde normalmente temos quatro candidatos para cada vaga. Por outro lado, há áreas para as quais é bastante mais difícil recrutar jovens, ou por falta de interesse, ou por falta de conhecimento. Para o curso de Técnico de Transportes, por exemplo, é difícil recrutar formandos, apesar deste ter uma grande aceitação por parte das empresas do setor. Há um trabalho de orientação vocacional que deveria ser desenvolvido junto dos jovens, para suprir estas carências.














